A Direção de Arte indo para o ralo

Aí você entra em sites de emprego, ou melhor, de “oportunidades”.

Assusta ver tantas vagas de Direção de Arte Junior, o pior de tudo, há cursos em faculdades que alegam ensinar Direção de Arte. Pareço confuso mas vou desenrolar.

Centenas de empresas vagabundas que trabalham com criação partem da mesma premissa: querem um profissional competente, detalhista, excepcional, comprometido, com a famosa flexibilidade de horário (trabalhar como um escravo chinês sem ter horário de saída), que domine todos os softwares e por aí vai.

O detalhe é, esse profissional é caro, muito caro. Sendo mais específico, o Diretor de Arte é um profissional que tem uma carreira que foi construída numa linha ascendente de captação de conhecimentos e expertise. Em tempos não muito distantes o percurso, com algumas variáveis, era: estágio, past-up, diagramação, assistência de arte, chefia de arte e por fim a direção de arte. Mesmo nos três campos distintos da comunicação dirigida, editorial livreira, editorial revisteira e publicitária, havia essa linha ascendente. Dividi nesses três campos pois apesar do cargo ser o mesmo, os conhecimentos são bem diferenciados nessas direções de arte.

Retomando o foco para as empresas vagabundas, elas criaram uma fórmula mágica para atrair uma mão de obra em certo ponto desqualificada para o que se pede e barata: o Diretor de Arte Junior ou estágiário avançado, dá na mesma. Pagam um salário de estagiário e exigem um resultado de esmero e qualidade.

Para alimentar de forma vil e doentia esse quadro, faculdades, inclusive faculdades de status, criam cursos vendendo a promessa de formarem Diretores de Arte. Viram o nicho e pensaram “foda-se, vamos aproveitar”. Cursos que são nada mais que formadores de designers porcos (sim, design É TOTALMENTE diferente de direção de arte), iludidos com o aprendizado de técnicas superficiais. Mais grave ainda, se as vítimas almejam trabalharem na propaganda, onde a função do diretor de arte é mais complexa do que simplesmente montar um anúncio ou dominar todos os softwares. Envolve conceito, sociologia, antropologia, generalismo, filosofia e toda uma imensa gama de percepção de mundo, transformada em algo visual com conteúdo, dirigida para um objetivo específico, para um target específico…

A complexidade está muito além de saber manipular photoshop ou mesmo ter decorado todos os postulados da Bauhaus.

Sob a égide de um curso de renome, atraídos por empresários de genética feudal, há uma horda de pseudo-profissionais, que perante algumas folhas de briefing de verdade, ao invés de ativarem o cérebro, ativam os intestinos.