Talk About My Generation (texto redigido em meados de 2000)

Quando comecei a trabalhar no departamento de Arte da Revista Imprensa, em meados de 1989/1990 tive um sonho realizado: trabalhar com Arte.

Anos depois, após aprimoramento profissional em várias empresas e cursos, inclusive com a graduação em Artes, fico muito decepcionado com o mercado de direção de arte e design.

O advento do computador na área com suas inúmeras facilidades e avanços trouxe também uma civilização, uma geração inteira de cegos visuais. Indivíduos que se auto-intitulam “designers” ou “criadores” (arquitetos, advogados, médicos, engenheiros, micreiros, domésticas, papagaios, amebas…) infectam o mercado, espalhando pelo universo trabalhos sem nenhum conteúdo estético ou funcional. “Gosto não se discute!”, claro, gosto se lamenta. Essa frase, aval de um atestado de acefalia, é muito comum entre tais “profissas”. Comecei a acender velas para Gropius (para quem não sabe, vá estudar Bauhaus), Warhol, Pollock, Da Vinci… Devem se revirar no túmulo, pois toda pesquisa que executaram sobre cor, forma, espaço foi esquecida.

Tanto esses novos profissionais quanto os novos clientes, educados, ou melhor, mal-educados com essa nova estética visual superficial, nivelam a qualidade dos trabalhos por baixo. E para completar, como é “fácil” fazer, o preço é nivelado ao esgoto. Realmente é muito fácil fazer quando você NÃO leva em consideração detalhes (inúteis, não é mesmo) como teoria de cores, psicologia das cores, forma, público alvo e adequação de tudo isso com a finalidade capitalista, que é a venda. É o “know how” vencendo de longe o “know why”.

A situação fica surreal, quando chegamos ao suposto Olimpo: gerência de marketing e ao “big boss man”. É uma coisa de picadeiro…

A gerência de marketing e os “boss” são uma espécie especial de seres humanos, assim como os reis na Idade Média, que recebem dons divinos. E o principal destes dons é a sabedoria extrema. Sabem desde as regras de bolinha de gude na Jamaica até o funcionamento das tempestades solares. Podem até saber, mas de direção de arte, design, não sabem absolutamente nada. Acham que sabem…

Como uma pessoa que nunca tocou num pincel, nunca misturou uma cor (tinta de verdade, é isso existe) tem a petulância de opinar sobre um trabalho? Lembrando que opinar, na verdade é dizer algo sobre um assunto que não se conhece… Gerente de marketing ou seja lá o “status” que a empresa quis lhe dar, seu trabalho é nos fornecer os dados marketeiros: produto, objetivos, target, praça, concorrência, enfim, o tal briefing como viram na faculdade. O resto é com a direção de arte, para isso ela existe.

Tais poderes divinos trazem consigo uma maldição, uma doença. Essa doença não possui sintomas por quem está contaminado, ela é chamada “Toque de Midas”. Tal anomalia se caracteriza pelo seguinte: sempre que há um trabalho perfeito, atendendo à todas necessidades do produto (não do cliente, pois alguns têm a doença também) há um “Hmm… Verde abacate fica melhor no lugar desse laranja” ou “Diminua 12,7% este vermelho”. No segundo caso, sabendo da doença, o benevolente diretor de arte não muda nada, imprime ou manda por e-mail novamente a peça dizendo “Mudei, está bom?”. Resposta: “Ahhhhhhh! Agora ficou bom, não te disse?”.

Assim como na engenharia, não dá na arte para pedir com o prédio pronto “Hmmm, não gostei daquelas 3 colunas de sustentação, mova um pouquinho para esquerda…”

Pior que isso é o cliente, que mesmo pagando caro uma pesquisa de mercado (quando fazem isso, pois alguns julgam que seu mundinho é o mundo de todos), pede ao faxineiro, secretária, filho, moto-boy uma opinião sobre o job. Todo seu conhecimento de estudo, de “janela”, livros e livros lidos, experiências de erros e acertos em inúmeros trabalhos, técnica, tempo dispendido, madrugadas acordado, é trocado pela opinião da tia do café.

Sem me estender muito e para quem serviu a carapuça: não julguem um trabalho pelo tempo gasto no Photoshop, o que vale é o conhecimento agregado ao trabalho, que atende à determinadas finalidades. Pessoal da área marketeira, deixe ARTE com quem entende de ARTE, não opine para satisfazer seu ego, faça terapia. Cliente, não avalie o trabalho dos outros pelo preço ou por email, conheça bem o profissional que vai trabalhar para você. Cada trabalho de um portifólio, tem um histórico, feito sob determinadas condições e objetivos. Se você acha que sabe que de tal maneira tal coisa vai vender ou funcionar, contrate um garoto para fazer o serviço à sua maneira, sai mais barato (mas embute outras dores de cabeça).

Aos ofendidos, profissionais que se adequam ao texto, não peço desculpas, vocês são assim. Aos mais inteligentes e companheiros de área, boa sorte.