Gazeta Vargas
Carta aberta pra vocês de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”
Daniel, lá se vão quase 4 anos desde que eu assisti ao curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho” pela primeira vez. E a empatia foi uma das razões para eu ter gostado tanto dele. No último sábado, fui à pré-estreia do filme baseado no curta. Pensei que rolaria ainda mais empatia. No final, a identificação foi mais forte.
Enquanto a primeira, acredito, é uma experiência com a alteridade — ou seja, é tentar conhecer o outro, dar-lhe a oportunidade de entendê-lo sem necessariamente encaixá-lo em nossos pré-conceitos; a segunda se relaciona mais à capacidade de ver a si mesmo no outro. Foi um pouco bobo, porque, afinal, eu não tenho mais 16 anos; mas já estivemos lá, não estivemos?
Por algum motivo, porém, relutei a entregar-me imediatamente ao filme, incomodei-me com a apresentação das personagens e dos conflitos. Ensaiei ressentir-me da morosidade dos acontecimentos, da duração arrastada das cenas. Mas de uma hora pra outra, magicamente, eu estava pego. Ouso precisar o momento: a cena em que o Gabriel tira o Leonardo pra dançar, no quarto, ao som de “There’s Too Much Love”, construída sem autocomiseração e sobre uma honestidade narrativa que só faria crescer dali em diante. Foi assim que, enfim, espatifei-me em cheio contra mim mesmo.
Passei pelo que deve ser a experiência padrão do adulto (será que eu já sou adulto?) que vê o filme com o coração aberto: senti-me um adolescente, encantado pelo frescor de sensações e descobertas que soavam tão antigas e arrebatadoras. E falo em “experiência padrão” sem receio de me inserir no clichê, porque só os clichês são verdade.
Daniel, obrigado por fazer com que estereótipos sejam representados como arquétipos, que é o que são. Por escrever jovens que não fogem muito à regra de como os imaginamos porque eles são, afinal, como os imaginamos. Léo, obrigado pelo seu olhar portador de todas as dores do mundo, mas capaz da alegria mais genuína. Obrigado, Gabriel, por aquele sorriso que encerra a cena final, uma das coisas mais lindas do mundo. Giovana, me desculpe por torcer o nariz para você no início da história. Obrigado pelas gargalhadas e por ser o reflexo tão fiel de gente que eu conheço e amo tão igualzinha a você.
Desculpem-me se não consigo terminar de escrever essa carta adequadamente. Não é por falta de tentativa; a questão é que eu costumo deixar as obras que elejo para assistir, ler ou ouvir “assentarem” por alguns dias, semanas ou meses. Parte disso é para ter algum distanciamento crítico; outra parte, para conter a empolgação de uma experiência particularmente especial — se depois de algum tempo os sentimentos continuam os mesmos, a chance de que se arrependa posteriormente de uma opinião emitida é bem menor.
Mas eu nunca serei minimamente capaz de uma opinião estritamente racional sobre “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”. Do mesmo jeito que ria e chorava durante a projeção, eu estou rindo e chorando enquanto escrevo esse texto. Por que será que eu me deixei conquistar tão reconfortantemente pela ternura e a cumplicidade que esse filme dá em abundância para a plateia?
Finalmente, obrigado, Belle & Sebastian, por mais essa canção que me fez querer dançar comigo mesmo. Já que ela é onipresente, do início aos créditos finais, assino essa carta cantando-a (na voz da banda).