Doze entrevistas legais que fiz no ano passado

Entre conversas longas e rápidas, falei com muita gente em 2015. Uma parte desses papos está aqui

Entre erros e acertos, pautas que andaram e foram publicadas e outras que morreram no meio do caminho por diversas razões, concluí que trabalhei legal em 2015. Poderia ter feito mais e melhor? Lógico. Sempre dá pra fazer. Mas não adianta desesperar agora, paciência é a palavra.

Todas as entrevistas que coloquei nesta lista fiz pela Brasileiros, onde trabalhei até novembro. Deixei entrevistas que viram perfis e posts de lado, só escolhi material que foi publicado no formato de pergunta e resposta. Algumas são longas e abrangentes, outras são rápidas, feitas de imediato.

O legal de fazer uma retrospectiva com o próprio trabalho é identificar os erros e as mudanças que aconteceram ao longo do ano. Entrevistei poucas mulheres em 2015, por exemplo. Por mais que tenha feito muitos posts e matérias com/sobre minas, consegui ser muito mais atento a essa questão no ano passado. É uma falha para ser corrigida este ano.

Ao mesmo tempo, me lembrei que escrevi menos textos que gostaria porque comecei 2015 mais como editor de mídias sociais no trampo do que como repórter. Não foi um ano focado e atento na escrita. Outra coisa que não quero repetir.

Bom, já falei demais. Separei uma pergunta e resposta de cada entrevista selecionada. Tem o link para a íntegra das conversas nos textinhos sobre cada uma.

  1. Daniel Galera

Se The Witcher 3 não atrapalhar demais (sei como é…), é provável que Daniel Galera entregue ainda este ano seu próximo livro. Foi o que ele me contou durante a Flip 2015 em uma conversa rápida que repercutiu bastante justamente por conta da matéria ter funcionado como anúncio de um novo livro. 
Meu momento favorito do papo foi quando ele adiantou que gostou muito de Pssica (Boitempo), livro de Edyr Augusto que seria muito bem recebido pouco tempo depois que a entrevista foi publicada. A íntegra da conversa está aqui.

O que você anda lendo?
Eu tô lendo mais não-ficção do que ficção, ultimamente. Tenho lido alguns livros de filosofia e alguns estudos que tem a ver com temas sobre antropoceno, sobre pós-humanismo, são os temas que tem me interessado recentemente e eles tem um pouco a ver com coisas do livro que estou escrevendo — e também alguns autores de filosofia de uma corrente nova chamada realismo especulativo, algumas coisas de ciência que me interessa . E eu intercalo isso com alguma coisa de literatura. Recentemente, eu li o Restinga do Miguel de Castilho, gostei bastante. Eu li alguns originais que me mandaram, entre eles um livro novo do Edyr Augusto Proença, um escritor paraense que vai ser publicado em breve — o livro dele se chama Psica e eu gostei muito, inclusive acabei escrevendo a orelha dele. É um livro bem legal.

2. Ricardo Boechat

Fazia um bom tempo que queria trocar uma ideia com Boechat. Gosto do jeito que ele leva a programação da Band News pela manhã. Sabe ser leve e preciso. Acerta até quando exagera no bom humor. Fora que é extremamente mal copiado por aí. 
Encontrei com o âncora durante um dia corrido, logo após ele terminar de apresentar seu programa na rádio em um canto improvisado no vão do Masp e ficar ainda mais uma hora atendendo ouvintes que estavam por lá. Foi uma entrevista muito rápida, mas proveitosa. Um tempo depois ele ainda ganharia mais pontos comigo quando fez um ótimo texto sobre depressão.

Você sente que sua popularidade aumentou de acordo com o maior espaço para dar opinião?
Digamos que a audiência foi crescendo, em parte, também por conta dessa característica de ser uma rádio opinativa, de ser uma rádio que se posiciona, se manifesta. Eu, especificamente, não acho que faça sentido você ostentar o título de âncora para não se posicionar de maneira clara sobre as coisas. E acho que as pessoas acabaram se identificando com isso, procurando um pouco nessas opiniões aquilo que coincidisse ou não com a opinião delas, para ter uma espécie de diálogo.

3. Rayssa Leal

Reprodução/Facebook

Fui atrás de entrevistar a Rayssa Leal logo que o vídeo onde ela aparece acertando um heelflip vestida de fada começou a bombar. Deve ter sido a primeira entrevista que ela deu por conta do vídeo. Pouco tempo depois sua história ganhou destaque na Globo, ela conheceu o Bob Burnquist, entre outros ídolos, e teve um super ano. O primeiro de muitos, provavelmente.

Quando você começou a andar de skate? 
Rayssa— Comecei com 6 anos de idade, estou com mais ou menos 1 ano e meio que ando. Ganhei o skate e um dia minha mãe e meu pai me levou pra pista de skate, daí depois desse dia sempre vou.

4. Juca Kfouri

A ideia de entrevistar o Juca Kfouri me veio quando o pessoal da revista avisou que queria entrevistas em vídeo no site. Achei que o Juca era um nome forte o bastante para dar esse start em um projeto novo, fora que um texto dele sobre os panelaços estava bombando. Mesmo super atarefado, Juca atendeu o pedido de prontidão e deu uma entrevista muito boa. O mais legal foi ver trechos do vídeo sendo “pirateados” no Facebook.

5. Valter Hugo Mãe

A missão de entrevistar o Valter Hugo Mãe caiu no meu colo de última hora. Imprevistos que acontecem nas melhores redações.
Acontece que Hugo Mãe também estava lidando com seus próprios problemas. Tinha enfrentado um dia de muitas entrevistas e estava visivelmente cansado para o que seria o último papo do dia.
Acho que a combinação de dificuldades colaborou muito para o sucesso da entrevista. Com a ajuda do Daniel Benevides, editor de literatura da Brasileiros, eu tinha um boa pauta e um escritor interessado em falar de coisas que não estavam em seu script habitual.

Queria que comentasse um frase que disse recentemente, “quero esclarecer dúvidas que suscitem mais dúvidas”. Por que gerar mais dúvidas?
É porque a gente só lida com dúvidas. Quem consegue lidar com uma certeza absoluta? A gente vai de dúvida em dúvida, até um dia duvidar melhor. Não tem como, é um pouco o início da nossa conversa, de repente, chegada uma determinada idade eu mudei muita coisa na minha vida e há umas crises de crescimento, a gente chega adulto, mas ser adulto não é uma coisa para sempre: “Pronto, você chegou aos 20 anos e você para sempre vai ter esse tipo de consciência, você definiu sua conduta”. A questão é um pouco essa, você vai passar por vários momentos de crise de identidade e vai perceber que aquilo que teve importância não tem importância nenhuma. Penso assim, a gente sabe o que sabe agora, mas eu já aprendi que o eu sei agora, no fundo, é uma dúvida.

6. Xico Sá 
Essa entrevista é legal porque eu não tinha nenhum ~gancho~ pra ela. Na época, várias coisas que o Xico andava fazendo estavam repercutindo bem, só queria falar com ele sobre isso. Deu super certo. Fora que ele respondeu meu e-mail em tempo recorde. O cara não brinca em serviço, não.

Um haicai seu para o Sérgio Moro (“Grande juiz Moro/ só no cu fácil da vaca/ jamais no cu do touro”) rendeu muitos comentários, suas críticas a imprensa a cobertura da Lava Jato também. Como você encara essa liberdade atual? Você nota alguma semelhança na imprensa, entre acertos e falhas, com a época do impeachment do Collor ou é uma correlação que não existe?
O lindo é poder criticar e tirar essa onda toda. Já fiz haicai satirizando Lula, Madre Tereza de Calcutá, Papa, tirando onda inclusive com o Bashô, o maior do haicai universal na sua forma original (a oriental), por que não faria com o juiz? Só não mexo com meu padim padre Cícero! O Moro é importante, mas não é Deus.

7. Rico Dalasam

Foi bem legal conhecer o Rico Dalasam e ficar quase duas horas trocando ideia com ele. Da nova geração, ele é um dos mais talentosos e inteligente. Tem a noção exata de qual é o tamanho do seu alcance hoje e do quanto pode expandir isso. Zero deslumbre com o que já conseguiu. Exemplo? Tinha acabado de voltar de umas datas na Europa e chegou pro papo de buzão. 
Se continuar trabalhando assim, promete muito.

E essa situação no Brasil na rua — homofobia e racismo?
Juntando as tags que eu tenho, a gente fez uma conta lá, eu tenho quase 20% de chance de morrer diariamente só por existir — só de gay, a cada 27 horas morre um vítima de homofobia no país.

8. Karina Buhr

Queria muito ter feito uma grande entrevista com a Karina no ano passado. Um perfil, uma capa. Não deu certo. Foi das oportunidades que perdi no stress do acúmulo de coisas para fazer no fim do meu período na revista… Sorte que consegui mandar umas perguntinhas pra ela sobre a música “Eu sou um monstro”.

O que é “o monstro” da música? Ouvindo a música senti que cabem mil interpretações ali. Você sente isso também ou tem uma interpretação mais definida do que escreveu?
Tenho uma interpretação bem definida. Mas acho maravilhoso que você sentiu que cabem mil interpretações ali. Acho essa a melhor parte de se fazer músicas e letras, cada um que ouve, poder ouvir sua própria versão. Não me sinto bem destrinchando uma letra, explicando tudo. Acho que o mistério é justamente essas mil interpretações. Essa coisa que eu falei sobre ela, que você cita nas aspas, já fiz um esforço grande pra tentar traduzir um pouco a música. Esforço no sentido de achar que tava fazendo uma coisa errada, que não ia dar certo isso de traduzir. E aí tentar mais que isso acho que quebraria o encanto.

9. Helio Flanders
Outro papo que eu gostaria de ter feito com mais cuidado. Tive só um dia para escutar o disco e fazer as perguntas. Mas acho que funcionou.

Tem uma explicação definida para o título do álbum ou você quer deixar aberto a várias interpretações?
São imagens poéticas bem abertas, bem livres, né? Tive um insight recorrente de que o curso natural da vida não fazia sentido, ou justiça para mim. Conclui que essa vida era uma “temporada” alheia ao curso natural das coisas, de nascer e morrer. Também me apeguei ao título porque a sensação que eu tinha ao escrever e cantar as canções era atemporal, como se tivessem sido escritas e vividas por qualquer pessoa — às vezes era eu, às vezes não.

10. Flávio Renegado
Não conhecia o trabalho do Flávio até quando pintou a oportunidade de falar com ele. Ao contrário do que rolou com o Hélio, por exemplo, tive mais tempo para pensar no que ia perguntar. Com o rapper disposto e super empolgado com o trabalho que estava lançando, a conversa rendeu demais.

E como é entender essa complexidade na adolescência, o racismo, por exemplo. Como você entendia na época?
Eu entendia que a minha cor era não grata e que nem em todos os lugares eu tinha a mesma possibilidade de acesso. Agora o tempo, estudar, transitar, me permitiu entender qual era esse processo histórico que eu estava vivendo ali e como me organizar para combater esse processo histórico também. É muito doido isso e eu acho legal a forma como a galera vai entendendo isso e vai criando novos formatos para combater.

11. Ricardo Gallo
Condenado à morte (Três Estrelas) com certeza foi um dos livros mais legais que li no ano passado. Nele, Ricardo Gallo, jornalista da Folha, destrincha quem foi Marco Archer, o brasileiro condenado à morte na Indonésia. Um livro curto, ágil, mas muito bem escrito e dono de uma pesquisa impecável. Gallo desvenda ao mesmo tempo boa parte da personalidade do personagem e todos os pontos que convergiram para que ele não escapasse da pena de morte no exterior. A conversa com ele foi demais.

Você se encontrou com o Marco pessoalmente só uma vez, certo? Qual foram suas impressões desse encontro?
Eu o encontrei mais de uma vez, nos dias em que estive na prisão com ele, em 2010. A impressão é que o Marco tinha um comportamento incompatível com a crueza da vida que levava. Ele parecia sempre animado, alto astral, como se estivesse em liberdade. E tinha imenso orgulho da fuga que havia empreendido — dizia que rendia um filme.

12. Ruvan Wijesooriya
Já teve ano em que entrevistei mais gringos. Em 2015, o Ruvan foi o único cara que entrevistei em inglês. Basicamente: o fotógrafo foi até uma escola no Afeganistão produzir um anuário escolar. Trampo incrível.

Você teve algum retorno das crianças? Se passaram quatro anos das fotos, o que elas comentaram?
É muito perigoso e um pouco difícil ir até lá. Para esta viagem eu tive ajuda da Roots of Peace, uma instituição sem fins lucrativos da Califórnia que ajudou a construir a escola. Toma muito tempo, dinheiro e organização voltar lá e não estou em condições para isso. Fui capaz de mandar as fotos de volta para os estudantes, o que foi uma parte importante e crucial do projeto, mas perdi o contato de onde eles estão, já que a maioria vive em condição de pobreza e tem limitados recursos de comunicação, fora a questão da língua.

Extra: YouTubers 
Os Youtubers conquistaram de vez o mundo em 2015. Ou seja, agora quase todo mundo sabe quem é a Kéfera, por exemplo. Foi de olho nesse movimento que criei uma série de entrevista com youtubers. Entre nomes grandes e nomes menos conhecidos, falei com muita gente: MariMoon, João Gordo, Tavião, BRKsEDU e mais…

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