não, o fim do orkut não me deu saudades de ter 10 anos a menos. e também não tô pagando de legal com um papo “(ui) sou retrô digital”.
óbvio que eu não entrava no orkut há anos. no fim das contas, a notícia do encerramento não vai mudar em nada minha rotina. minha tristeza tem mais a ver com uma visão pessimista da nossa evolução digital.
explico. (vai demorar, mas, vá, tu tem um tempinho nesse domingo chuvoso e sem copa, né?).
boa parte da lógica de funcionamento do orkut era baseada em conversas de um para um e de um para grupos.
a maior experiência de uso da rede estava nas minhas conversa com um outro amigo. uma terceira pessoa podia “entrar” nesse papo, mas de forma bastante linear ou passiva. isso acontecia nos scraps e nos testimonials, basicamente.
uma segunda maneira de se conectar no orkut era através das comunidades. em resumo, nos organizávamos por nichos de interesses. a possibilidade infinita de interesses humanos se materializava em zilhões de comunidades (desde as mais nonsense até às mais úteis).
bom, isso vocês sabem. vocês estavam lá se questionando o que precisavam fazer pra ser 100% sexy.
o que de verdade significa o fim dessas funcionalidades?
uma pasteurização das nossas conversas, dos conteúdos, dos relacionamentos.
ao contrário do facebook, twitter e youtube, o orkut era uma puta ferramenta digital de construção de laços. o testimonial era uma carta pública, uma recomendação, uma materialização digital da importância do relacionamento real.
não posso entrar no perfil daquela minha colega de trabalho e fazer um depoimento dizendo o quanto eu amo o jeito que ela ajuda a todos com simpatia e bom humor (e desculpa por ter sido grosseiro contigo naquela reunião). muito menos mostrar para todo mundo o quanto meu amigo é o maior parceiro pra todas as cervejas (kkk que trago aquele na ferrugem lembra?1).
isso não tem no facebook. tudo se vai, se
desfaz, é consumido pelo feed.
uma vez eu criei a comunidade “Ninguém me liga de Glasgow: por qual motivo ninguém está enjoado e cansado de tudo e resolve me ligar de Glasgow?”. uma piada muito interna que brinca com uma citação, tão glamourosa que chega a ser irreal, trecho de Super Truper, do Abba. uma piada que alcançou 75 membros. 75 pessoas entenderam essa piada (bem sem graça, na verdade) e, ao se assinar como participantes, compartilharam comigo a visão de, ei, Abba, vocês são mesmos uns loucos, hein!
outro exemplo: as comunidades de times de futebol. antes as informações rolavam naquele espaço nichado, e, por isso, mais rico de ensinamentos — só entrava e discutia na comunidade do grêmio quem estava muito afim, né, vamos combinar. hoje, todo mundo tem uma opinião sobre o choro do thiago silva.
por favor, não me entenda mal. todo mundo PODE ter uma opinião sobre o choro do thiago silva. o problema é que as funcionalidades das redes sociais de hoje nos levaram pra uma onda em que todo mundo DEVE ter uma opinião sobre isso. aí, aquela minha colega de trabalho tão querida e bem humorada vira uma chata que não para de compartilhar vídeo do neymar caindo e dizendo: “GANHA MILHÕES E CAI ATÉ PRA COMEMORAR”.
a conversa de um pra um, que se agigantava em conteúdo nos fóruns (lembra de encontrar só no orkut aquela discografia completa com link pra download?), hoje, desaparece em um número de likes. bye-bye trocas de mensagens emocionais e verdadeiras. afinal, um testimonial era pra ficar a vida toda, ou pelo menos até ela desaparecer da página inicial do perfil do seu amigo.
no facebook as funcionalidades de disseminação imperam. por mais que haja grupos e chats, mark preza bem mais pelo boca a boca do que por ferramentas que aproximam as pessoas para sedimentar laços.
o RT, o like, o share ajudam na construção oposta de relacionamento via digital. é a construção de massificação. nada que é nichado ganha 10000 likes, nem 2000 RTs. e, quanto mais massificado, mais pasteurizada a mensagem.
sem querer entrar nas questões de mercado, posso dizer que estamos trocando a globo pelo facebook. a diferença é que a globo produz conteúdo. o facebook faz as marcas e as pessoas produzirem por ele. e ainda transforma isso em uma missão carregada de valores positivos, “estamos dando voz às pessoas” — e ganhando milhões com propaganda.
é claro, existem outros tantos pontos positivos nesse papo de disseminação, voz para todos e etc. aqui até vale lembrar: o mais mágico da internet é que ela é o que as pessoas fazem dela (aprendi com a Barbara Nickel isso).
só começo a me questionar se essa máxima ainda vai valer por muito tempo. espero que o adeus seja só pro orkut.
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