NAS ÁGUAS DO TEU AMOR

Recorrentemente ou não, lembrei dos nossos sorrisos, e, como todo dia com aquela cara de dia de pensar em nós, chovia.

Voltei no tempo e me veio à memória o ambiente de sequidão onde eu vivia antes de conhecer você. O coração ressecado, as emoções áridas, a escassez, o calor insuportável que revezava com as noites o choro glacial provocado pela solidão gélida. Lembrei da névoa densa que embaçava os meus dias e das lágrimas que derramei secretamente. Foi então que você entrou em cena.

Lembrei-me do tempo em que o céu parecia irritado e, de repente, esvaziou-se das águas com o máximo de força que pôde. E como se não bastasse, convidou ainda o vento, a umidade e o frio para complementarem o enorme despejo. Tudo isso numa velocidade que até os ponteiros do meu relógio acharam difícil de acompanhar. Chuvas torrenciais, quase um dilúvio, águas que desabaram copiosamente. Aquelas eram águas de boas-vindas. Eu ainda não sabia, mas eram ÁGUAS DE AMOR, do teu amor.

Impetuosas, caíram sobre mim, penetraram o solo seco do meu coração, percorreram todos os caminhos disponíveis preenchendo o máximo de cunhais que conseguiram. Que atitude hostil! Quem sabe o comportamento daquelas águas refletisse um desejo íntimo de escoar. Entretanto, ainda assim, foi de uma hostilidade incomum! Sem permissão prévia, sair debruçando assim em minhas calhas, jorrando por meus declives, molhando minha vida e enchendo de infiltrações as paredes da minha existência. Que invasão era aquela na minha liberdade de sentir?

Aquelas gotas! Porque não formavam apenas chuviscos?

Aquelas chuvas! Porque não se manifestaram como meras garoas?

Todavia, foram estes abusos líquidos que alagaram meus sonhos de uma felicidade que me parecia filtrada de tão pura. Foi aquele gotejar que ensopou minha alma de novas esperanças. Um dilúvio que inundou minha vida do sentimento mais singelo que, até então, eu não conhecia: O AMOR.

Foi facílimo submergir em teus afagos apesar da incursão abusiva, dos impedimentos alheios, da força dos raios, relâmpagos e rajadas de trovões que tentavam impedir o nosso envolvimento gradativo. O vento tomou o lugar da brisa, e, rijo, uniu-se à correnteza medo-amor recém formada tentando me arrastar pra longe quando, na verdade, perto de você era onde eu queria estar.

Depois de aprender com o tempo a ter meus sentimentos irrigados, iniciei minha trajetória aquática pela orla da tua vida. Me despi de antigos conceitos e me vesti de coragem. Desentupi meu coração dos entulhos do passado e mergulhei no teu mar. Lá, flutuei nas tuas ondas, me lavei dos traumas, me enxaguei das antigas crenças e enxuguei o sofrimento que a solidão havia me causado.

Embora submerso nas ÁGUAS DO TEU AMOR, a disciplina ainda me permitia vir à tona, vez por outra, mas a imersão era tão atrativa e envolvente que eu não queria voltar. Era a primeira vez em toda a minha vida que falava mais alto em mim o desejo de me afogar. Sem ter noção de que estava apaixonado, eu tentava ignorar suas palavras enquanto você ia, lentamente, borrifando em mim pequenos jatos de um amor ainda inconsciente.

Lembro que você insistia em disfarçar o que sentia usando termos como “adorar”, “consideração”, “carinho” para denominar o que já havia se estabelecido profundamente em nós. No entanto, de forma precoce e quase involuntária, entornava em mim aquele amor que escorria pelas gárgulas da minha emoção, encharcando todos os outros sentimentos que eu tinha.

A emoção linda que só sabia respingar em forma de acanhadas gotículas encontrou reciprocidade e manifestou-se como um manancial. E foram aquelas ÁGUAS DE AMOR que formaram ambientes oásicos no meu deserto interior e perpassaram por todos os aquedutos do meu ser. Então, amenizou-se o frio, derreteram-se as geleiras formadas pela solidão ártica.

Dos córregos, cachoeiras com quedas absurdamente altas, as águas outrora rasas, agora cada vez mais profundas, verdadeiras fontes espalhadas por todos os cantos da minha alma. E, para cada reatar, uma nova nascente.

Então, você partiu. E hoje, daquelas águas só me restam as lágrimas que imploram por você. Uma ausência que eu jamais pensei que seria tão insuportável, sobretudo depois de tanto tempo. Sim, eu estou no auge da minha saudade e o que me resta?

Apenas nadar por aí, pelos aquários da vida. Ousar um mergulho em algum outro oceano de possibilidades. Melhor será se não forem tão profundos. Só assim, eu não corro o risco de querer me afogar novamente.

Melhor do que ninguém, Deus sabe que o que eu queria mesmo era voltar aos teus rios, às piscinas térmicas do teu coração, passear pelas tuas baías, golfos e reservas. E, nem que fosse pela última vez na vida, molhar meus pés outra vez nos teus riachos, nas águas das praias tuas, nas ÁGUAS DO TEU AMOR.

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