As canções da Toca

Foto: Mindu Osder

No final dos anos 1990, em Bauru, costumávamos passar horas tocando violão na república em que morávamos, a Toca Roxa, referência à cor da fachada da nossa primeira casa, e depois a Toca Rosa, pois nosso segundo endereço se avizinhava de um saudoso bar tocado por um casal simpaticíssimo e amigo, seu Odil e dona Rosa.

O repertório era composto basicamente por música brasileira, mais ainda a nordestina. O destino reuniu naquelas duas casas cinco meninos que sabiam (ou achavam que sabiam) tocar violão. Na verdade, apenas o Renato conhecia bem o instrumento. E havia o Guilherme, que não tocava, mas participava quando não estava trabalhando. Fora ele, ninguém trabalhava. Éramos vagabundos.

E que sessões fazíamos Renato, Pedro, Alex, Mindu, Guilherme e eu, fora os convidados e os penetras constantes, todos sempre bem recebidos. Quanto Alceu Valença, Zé Ramalho e Djavan. Quanto tempo bem desperdiçado. Quanta saudade.

As histórias da república são inúmeras e algumas quase impublicáveis. Como diz o Alex, fosse hoje seríamos todos presos. Ainda assim, recentemente a Susana criou no WhatsApp um grupo que reúne a turma de Rádio e TV da Unesp de 1997. Ali podemos reviver fatos lembrados e esquecidos, além de resgatar acontecimentos registrados apenas na memória do outro.

Foi assim que a Priscila nos falou do Mauricio, que passou rapidamente por Bauru, mas deixou um bonito depoimento sobre como as canções de Belchior mudaram sua vida.

Desse modo, vai-se construindo uma memória coletiva, cheia de falhas e de graça, fiel mais ao nosso sentimento saudosista do que aos acontecimentos propriamente. Isso deixa nossa história mais bela (durante muito tempo disse a mim mesmo que iria transformá-la num romance).

É curioso notar que, em meio a tanta música nordestina e fora aquele depoimento esquecido do Mauricio, Belchior não tenha dado as caras em Bauru. Pelo que me lembre, ele não só não era considerado cult como também era tido como démodé e até cafona naquela época. Azar o nosso.

Aí, ninguém sabe como, passaram-se vinte anos desde que entramos na faculdade. De férias, aceitei o convite de uma grande amiga daquele e de outros tempos, a Susana, e vim conhecer o estado que ela escolheu para viver, o Rio Grande do Norte, onde se casou e formou uma família tão linda quanto ela.

Hoje, aqui na Praia da Pipa, em um restaurante precisamente chamado Espaço Nordestino, um violonista e um baterista revivem todo aquele repertório da Toca. Alceu, Zé Ramalho, Geraldo Azevedo etc. Curiosamente, também eles não tocam Belchior. Azar o nosso.

Há um livro de J. C. Coetzee em que, depois de citar uma sinfonia de Sibelius, ele diz com espanto que quem fez aquilo foi um de nós. E, se um foi capaz de fazer, é como se todos também fôssemos.

Aqui, ouvindo novamente aquele repertório, tenho certeza. Fomos nós que fizemos essas canções. (Pipa, 10 de março de 2017)

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