Glória na manhã de São Paulo

Vinicius Galera
Aug 8, 2017 · 7 min read

Em uma manhã fria na cidade de São Paulo, o prefeito João Glória acordou contrariado. Não devido à temperatura, pois o quarto e de resto toda a sua imensa mansão no bairro dos Jardins eram aquecidos. O que ocorrera era que ele tinha tido sonhos ou pesadelos com o Partido dos Trabalhadores. Soerguido na cama, olhou para os móveis e para a janela do quarto, cuja cortina ainda não tinha sido aberta, e pensou: malditos petistas, que pesadelo! É provável que tenha pensado em voz alta, pois sua esposa, que àquela altura ainda não tinha despertado, acordou perguntando o que houvera. Ele resmungou qualquer coisa que ela não compreendeu e pulou da cama.

Educadamente, como de hábito, Glória deu bom dia aos empregados e desceu para a copa, onde seu café da manhã o esperava. Por algum motivo, ninguém trouxera ainda os jornais. Sentado à mesa, ele deu uma olhadela bastante impaciente, sem encarar as copeiras. Era na verdade uma bronca. As mulheres cutucaram-se de leve e uma delas saiu apressadamente para pegar os impressos. Glória leu as manchetes e vasculhou minuciosamente as primeiras páginas em busca do seu nome. Como não protagonizara nenhum ato ou evento no dia anterior, não encontrou, mas os primeiros cadernos traziam notícias ou artigos que remetiam à sua administração, que agora todos, a começar por ele, preferiam chamar de gestão.

Glória não era o seu sobrenome. Aconteceu que, quinze dias após assumir a prefeitura depois de uma eleição que venceu com facilidade, o novo prefeito implantou um plano de limpeza que devolveu a esperança à burguesia da cidade. Essa classe injustamente perseguida nos últimos anos parecia ver enfim concretizado o sonho de ver São Paulo tornar-se um lugar parecido com a ilha de Manhattan. Apesar dos milhares de edifícios e centros de compras com nomes em inglês e das expressões americanizadas que contaminavam o vocabulário e os negócios da cidade, eles achavam muito cafona comparações com Miami. Gostavam mesmo era de Nova York. Diante do alento trazido pelo novo gestor e à sonoridade de seu sobrenome original, o prefeito passou a ser chamado de Glória.

Naquele dia frio, por algum motivo obscuro possivelmente despertado pelo sonho, depois de fazer seus exercícios físicos Glória recusou o helicóptero, dispensou o motorista e os assessores e resolveu que iria trabalhar a pé. Não era um trecho tão longo de sua casa até a prefeitura. Bastava que pegasse uma reta na avenida Nove de Julho e logo estaria no Edifício Matarazzo, no Anhangabaú.

Os assessores, que desde cedo saçaricavam ao redor do prefeito, ficaram assustados com a decisão. Com certo temor na voz, alguém tentou dissuadi-lo.

– Sei o que estou fazendo — disse Glória.

Ainda com aquele comportamento estranho, o prefeito vestiu um agasalho cinza, um boné e óculos escuros, adotando assim uma espécie de disfarce, pois não queria ser reconhecido.

Quando os assessores se posicionaram com telefones celulares e câmeras para registrar a caminhada, veio a grande surpresa. Glória recusou a companhia e, consequentemente, a publicidade.

– Isso não está acontecendo — disse um dos assessores, incrédulo e em voz baixa.

– Prestem atenção. Eu não quero que me sigam nem a distância.

– Senhor prefeito, me desculpe, isso é uma questão de segurança que não pode ser decidida apenas por você — disse um dos homens que o rodeavam, quase imediatamente arrependido.

– É para isso que eu tenho seguranças — disse Glória.

– O senhor não vai então dispensá-los?

– Não é necessário — disse o prefeito fazendo parecer que tinha dito o contrário.

O portão se abriu e Glória então partiu pelas alamedas dos Jardins até chegar à avenida Nove de Julho. À paisana, a cerca de cinco metros três seguranças o seguiam. De vez em quando algum pedestre apressado parecia reconhecê-lo, apesar do disfarce. Quando escolheu a vestimenta, pensou nas críticas que diziam que a cidade era cinzenta, mas a escolha não foi uma provocação, uma vez que não queria publicidade. Fosse fazer uma caminhada midiática certamente vestiria amarelo, as cores do país que tanto amava e que ambicionava um dia poder gerir.

De repente, da janela de um ônibus parado no corredor ele ouviu um grito:

– Aêe prefeeitooo!

Glória deu um sorriso tímido, mas imediatamente suas feições se contraíram. Como me reconheceram, pensou? Podia ser só impressão. Seguiu caminhando, não sem admirar as novas lixeiras que sua administração havia implantado e as guias das calçadas agora pintadas de branco.

Perto do túnel, Glória teve que tomar uma decisão. Ou se afundava anonimamente na poluição durante algumas centenas de metros ou subia a ladeira e cruzava a avenida Paulista com o risco de ser reconhecido. Sabia que se fosse assim seus adversários vermelhos diriam que ele estava promovendo alguma ação de marketing, por mais que nem mesmo ele soubesse por que, desde que saíra de casa, estava agindo de modo diferente naquele dia.

Ele estava pensando nessas coisas quando, ao cruzar o último acesso dos carros antes do túnel (ainda não decidira se entraria), um ciclista que subiria a ladeira esbarrou no prefeito de um modo que não o atingiu totalmente, mas que tornou impossível que ele permanecesse de pé.

Glória balançou para um lado, balançou para outro, perdeu o equilíbrio e, num reflexo, buscou um apoio que não existia no ar até que finalmente se estatelou no chão. No embalo, o ciclista fez menção de subir sem prestar-lhe socorro, mas optou por voltar.

Uma senhora que passava correu para ajudar aquele homem em trajes esportivos que tentava se colocar de pé enquanto os carros que pegavam o acesso desviavam dele. Ela entregou-lhe o boné que ele, atordoado, tentava encontrar. Glória colocou o boné na cabeça imediatamente. Os seguranças se aproximaram, mas o prefeito disfarçado os encarou firmemente, disse que estava bem e fez sinal para que ficassem longe.

Quando o ciclista chegou perto, pediu desculpas, mas disse que o homem estava errado por não olhar para atravessar a rua. Foi imediatamente rebatido.

– Seu petista safado! — disse o prefeito.

– O que é isso? O senhor está bem? — perguntou o rapaz, sem reconhecê-lo.

– Como estaria? Você tem que ter mais cuidado. E aqui não é lugar de bicicleta.

– Ora, como não? — perguntou o ciclista, ainda preocupado com a aparente recuperação imediata daquele homem. — É lugar de que então?

Glória não respondeu diretamente, apenas mandou que o ciclista fosse embora.

– Agradeça por eu não mandar te prender — gritou, quando o ciclista se afastava.

Já com a segurança proporcionada pela distância, o ciclista gritou:

– Velho maluco do caralho, vai tomar no seu cu!

Glória se enfureceu com a injúria:

– Petista mal-educado! Vá pedalar com a Dilma! Com o Lula!

A mulher, que ainda estava ali, assustou-se com a aparição repentina dos ex-presidentes no diálogo.

– O senhor está bem mesmo?

– Estou, minha senhora. Muito obrigado — respondeu secamente.

Depois seguiu a caminhada adentrando o túnel. Àquela altura, o joelho direito queimava. Manquitolando, o prefeito seguiu adiante. Mas o que mais lhe doía não era o joelho e sim o fato daquele maldito ciclista ter lhe chamado de velho. Não era a ofensa do palavrão o que doía e sim a condição que quase fora esfregada em sua cara. Se estivesse perto me cuspia, pensou, enojado. Tenho apenas 59 anos. Velho é a vovozinha.

Quando chegou do outro lado do túnel, viu os belos chafarizes da avenida sem qualquer morador em situação de rua ao redor. Pensou que, apesar dos ciclistas comunistas, a cidade estava ficando realmente linda como queria o seu programa de governo. Não vou deixar um ciclista me abalar, pensava enquanto caminhava a passos ora firmes, ora trôpegos devido à ferida no joelho. A calça estava manchada de sangue.

Já perto da Praça 14 Bis, viu diversos mendigos vivendo em paz como se estivessem nas varandas ou nos quintais das casas que não tinham. Pelo menos não estão na Luz. Como o PT foi permitir que a situação dessas pobres pessoas chegasse a esse ponto? E ainda dizem que tiraram brasileiros da miséria. Acabaram com o Brasil, isso sim!

– Ei, tio! — disse um moleque — Paga uma quentinha pra mim?

– Quentinha?

– É, tio. Tô com fome — disse o menino, e emendou rapidamente: — O senhor está bem? Tá branco…

– Estou, menino. Procure um Bom Prato.

– Ei, você não é o prefeito? — o menino perguntou.

Glória riu e fez um gesto para o menino se afastar.

– Olha o prefeito aqui! É o prefeito João Grória! — o menino começou a gritar.

Meu Deus, pensou Glória. Os seguranças novamente se aproximaram. E com eles os mendigos da praça que, apesar do sol, permaneciam envoltos em cobertores de algodão cru.

Então começou um alarido de gente falando e pedindo e cobrando. Reclamavam da guarda civil metropolitana, queriam cobertores, queriam comida, queriam abrigo.

– Dá esse óculos aí pra mim, véi! — disse um deles.

Glória ficou exasperado. Quando foi proteger o rosto, alguém tomou-lhe os óculos talvez pensando que o prefeito fosse fazer uma doação. Os seguranças o cercavam para que não fosse agarrado pela pequena multidão formada ao seu redor. Culpa do PT! Isso é culpa do PT, pensava.

– Tirem-me daqui! — ordenou, aos gritos.

Um veículo que ele não sabia que estava lá se aproximou e o prefeito entrou, aterrorizado.

– Quero uma limpeza dessa área. Essas pessoas não podem ficar aqui — disse, quase ainda gritando e já dentro do carro.

– Calma, prefeito. Se acalme, por favor.

– Calma é o escambau! Não me peça calma! — explodiu o prefeito.

Então um dos assessores que ocupava o banco do copiloto tomou coragem e finalmente disse que tinha gravado tudo.

– Você gravou? — quis confirmar o prefeito.

– Sim, senhor prefeito.

– Onde está?

O assessor entregou-lhe o celular. Glória tomou o aparelho nas mãos e perguntou se aquilo já tinha sido enviado para alguém.

– Claro que não, senhor prefeito.

Então ele apagou o vídeo e ordenou que assim que chegassem à prefeitura preparassem o set de filmagem. No novo vídeo, Glória atacava os ciclistas, a pobreza gerada pelo PT e relatava o que vira na Praça 14 Bis, valorizando o fato de ter ido para lá sem assessores, exatamente como o cidadão comum e de bem que no fim das contas ele era. Aquele foi um de seus melhores momentos.

Nas semanas seguintes, quando um morador de rua começou a frequentar o noticiário com óculos Gucci que supostamente pertenceram ao prefeito, Glória aproveitou para contar histórias de suas andanças anônimas pela cidade necessitada. Gravou um vídeo em que trocava óculos com o morador de rua e foi ainda mais enaltecido pela burguesia e pela classe dominante da cidade de São Paulo.

Vinicius Galera

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Jornalista e escritor, autor do romance Linha Verde (2015, esgotado) e do blog Coisas Próximas (coisasproximas.blogspot.com)