O começo e o fim do Nirvana

No domingo assisti “Kurt Cobain, Montage of Heck”, documentário sobre o líder do Nirvana, que cometeu suicídio em 1994. O filme é perturbador, ainda mais para alguém como eu, um dos milhares de adolescentes que acabaram se tornando fãs da banda quando ela explodiu.

Choca conhecer a infância e a adolescência trágica de Cobain em Alberdeen, cidade pacata e melancólica do noroeste dos Estados Unidos, onde o menino hiperativo é rejeitado e expulso de casa pela mãe. Ele vai morar com o pai e a madrasta, mas o convívio é difícil e ele é obrigado a passar temporadas na casa dos avós até voltar à casa do pai, de onde é expulso definitivamente. Sem alternativa, vai novamente viver com a mãe. Nessa época passa a consumir maconha. O relato conservado em áudio sobre a primeira experiência sexual do garoto é pavoroso.

Uma das conquistas do filme é a de recorrer a animações para mostrar passagens da vida de Cobain registradas em gravações de fitas caseiras e em diários que ele manteve até o fim. Nesses documentos sabemos que o suicídio estava em seus planos desde muito cedo. Dói ver o amigo e baixista do Nirvana, Krist Novoselic, dizer que havia tantos sinais e que ele não foi capaz de ler nenhum.

O adolescente rebelde encontrou no punk rock a saída para os problemas, mas seria uma válvula de escape temporária. “Você está preparado para o que vem por aí?”, perguntou a mãe de Kurt ao ouvir pela primeira vez o clássico Nevermind, que, como é sabido, mudou a história do rock e projetou a banda para um patamar jamais imaginado ou mesmo buscado por seus integrantes. Kurt Cobain não estava preparado, a mãe sabia. Ele também sabia.

Com a fama veio o relacionamento com Curtney Love. O casal logo foi escolhido pela mídia como símbolo daquele momento e daquela geração, algo nos moldes de John e Yoko ou, mais próximo ainda, de Syd e Nancy (Curtney, aliás, tinha feito uma ponta no filme sobre o baixista dos Sex Pistols, Sid Vicious, que morreu após uma overdose de heroína).

Então a revista Vanity Fair fez uma reportagem sobre o cotidiano dos Cobain. No texto, Curtney era acusada de consumir drogas durante a gravidez da filha do casal. Quando nasceu, a imprensa disse que o bebê era viciado e teve que passar por um tratamento, o que foi negado pela família.

Os vídeos caseiros cedidos pela própria Curtney Love ao diretor Brett Morgen mostram o ambiente nada convencional da casa em que viviam, um lugar sujo, claustrofóbico, envolto em drogas e em manifestações artísticas. É tudo meio sombrio. Para quem ouvia o Nirvana e acompanhava a banda e a cena de Seattle (para mim o Nirvana nunca teve muito a ver com a “cena” de Seattle), é interessante ver como Cobain era a banda, como aquela moda e as apresentações agressivas, como o comportamento errático, ácido, irônico, apático e, vendo com distância, adolescente e desesperador, era o comportamento do próprio Kurt Cobain, que não sobreviveu à infância e à adolescência. E esse foi o começo e o fim do Nirvana.

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