Sobre o barulhento silêncio no Dia dos Pais

O ano era 2012: eu estava terminando a faculdade de jornalismo e com dúvidas sérias sobre que rumo minha vida teria a partir dali. Estava em um namoro desinteressante, perrengue de grana e muito cansaço por conta do livro que tinha acabado de escrever pra entregar na conclusão do curso.

Lembro que no final daquele ano a sensação de satisfação coletiva em minha casa reinava, isso porque eu ajudava a inaugurar a primeira geração da minha família a conseguir concluir o ensino superior. No churrasco daquele final de ano, lembro que meu pai conversava com o irmão (meu tio e padrinho Lecir) sobre o que tinha acabado de acontecer na minha vida. Reproduzo o que minha memória conseguiu guardar:

“Rapaz, de onde a gente vem, é uma benção nossos filhos estarem onde estão hoje. O Vinicius agora terminou a faculdade e se formou para jornalista, graças a Deus”.

Não tínhamos o costume de tirar fotos, mas nesse dia tiramos uma muito bonita, onde posamos um do lado o outro, sorridentes. Eu não sabia, mas aquela seria nossa última foto juntos. Em janeiro de 2013, ele teve um aneurisma cerebral (AVC) e ficou internado por duas semanas na UTI, de modo que acabou não resistindo e veio a falecer.

Lucas saiu de cena muito rapidamente, aos 52 anos e com muitos sonhos na cabeça. Lembro que antes da fatalidade ocorrer, ele contava com entusiasmo que muitas obras estavam surgindo (ele era pedreiro) e que, depois do sonho realizado de ter comprado o carro, a meta agora seria comprar algum pedacinho de terra onde nasceu, na pacata Desterro de Entre Rios, em Minas Gerais.

A fome de sonhar era potente, pois sua vida, assim como a de tantas pessoas que vêm morar em São Paulo, tinha sido muito dura. Com uma quarta série nas costas, ele vem para a capital paulista com minha mãe e revezou diversas profissões: pizzaiolo, caseiro em residências de pessoas ricas, até se encontrar em definitivo como pedreiro. Lembro que, quando trabalhava na pizzaria, ele me acordava quando chegava de madrugada com saborosos pedaços de pizza.

Remonto essas memórias porque acho importante não deixar seu insuportável silêncio se converter em remorsos que eu não devo sentir. Eu e meus irmãos fomos orgulho para ele e, com certeza, onde quer que ele esteja, ele olha por mim e por todos que o amaram.

Para mim o Dia dos Pais será sempre um momento de driblar sua ausência relembrando a magia incrível do nosso vínculo, como aquelas manhãs de sábado de sol onde ele me acordava cedo para irmos ao bar. Ele tomava cerveja e eu uma garrafinha de refrigerante. Ou então na vez que ele esqueceu de me buscar na creche e eu senti uma segurança incrível quando ele foi me buscar na casa da professora que tinha ficado comigo.

Por essas e tantas outras lembranças, eu o evoco com o coração cheio de saudades que se acalmam quando percebo o legado de seu amor em vida. Porque é isso que deve ficar sempre.

Que esteja em paz, seu Luquinha. Você viverá em mim para sempre.