Era de frango mas com sabor de bacon
Quando a décima-quinta pessoa chegou, senti que não tinha mais necessidade de levantar para dar um abraço de boas-vindas e entreguei o cumprimento com um tapinha nas costas e um beijo na bochecha, preguiçoso porém sincero. Não queria ficar muito tempo distante da cerveja. As pessoas aqui na cidade tem essa mania de se abraçarem quantas vezes se encontram e naquela noite minha natureza estava lá no interior, onde ninguém se abraça. No outro dia, apareceu um textão no Facebook falando da importância do abraço e do contato entre as pessoas, a princípio achei que era uma indireta elaborada, mas deixei pra lá. Voltando pro bar, aniversário de uma amiga poetisa e lésbica, eu estava disposto a passar a noite inteira com ela mesmo que alguém ameaçasse um sarau.
Começou uma menina contando da vez que comprou massa pronta de petit-gateau mas pôs na forma grande de bolo e a coisa virou um brownie. Era pra outro aniversário e o aniversariante só comeu por educação. Achei graça e quis entender a burrada, ela me explicou que queria dar pro cara e por isso fez o primeiro bolo da vida. Nada mal, falei. Ela disse que ao menos garantiu a trepada e desistiu de fazer bolos. Mas taí um artifício bom pra conseguir sexo. Trouxeram um bife à parmegiana nesse meio tempo, era tão grande que deu pra alimentar a boiada toda. Não aceitei pra me concentrar na cerveja, foi nessa hora que senti uma primeira pontada vindo ali da saída do intestino. Não deve ser nada.
A conversa então se dividiu entre quem falava de arte, teve um pessoal lá que fez uma casa de residência artística perto de uma cachoeira. Ótima desculpa para viajar e fazer surubas, pensei. Pensei, mas não falei, pois estava na outra metade da conversa, que era sobre a Dilma Rousseff e suas chances de voltar à presidência. Eu não queria estar em nenhum dos dois colóquios, acho que ninguém queria pois sugeriram um karaokê. No caminho, senti a segunda pontada e entendi o que meu intestino queria.
Poucos minutos depois, estávamos nós, agora um grupo de dez enfileirado numa escada pra conseguir acesso ao lugar. Comecei a pensar na quantidade de pessoas que teria de abraçar lá dentro, mas fui interrompido pelo porteiro pedindo a identidade. No espaço onde já foi o apartamento pra uma família com um, dois filhos, estavam umas 200 pessoas. A sorte é que o quintalzinho é preservado e comporta mais umas 100. Era karaokê, mas nenhum de nós se arriscou a cantar. Uma moça entoava o hino de Alcione “Mas tem que me prender…..” e a assembleia respondia “teeeeem” como se fosse o amém daquela igreja às avessas.
Encontrei uma amiga jornalista cujo hobby é andar com gays a tiracolo, dessa vez ela estava com dois, um conhecido meu e outro com cara de louco. Abracei os três. O cara de louco me deu um belo aperto na cintura a ponto de eu pensar: “Há quanto tempo não sou tocado assim por um homem?”. E realmente fazia muito tempo. Pensei ter condições físicas para investir no rapaz. Mas não tinha, havia algo dentro de mim chamado cocô que começava a ocupar um belo percentual do meu cérebro a ponto de não permitir que mais nada acontecesse. Segui minha patota pro quintalzinho e lá fiquei tentando esquecer: 1. o rapaz 2.o cocô. Uma menina veio puxar assunto com “te conheço de algum lugar” e descobrimos que eu conhecia o pessoal que morava com ela. “Engraçado a gente não ter trombado antes”. “É, muito engraçado”, respondi. De onde eu estava, avistei quatro pessoas que me adicionaram sem motivo aparente no Facebook, o que me levou a longos minutos de angústia: devo cumprimentar ou não? Optei pelo não quando deixamos o bar para seguir para outro estabelecimento. Na saída, um rapaz gordinho passou a mão no meu cabelo com carinho. Nos olhamos.
No terceiro bar já éramos sete (eu bem quis que fôssemos seis pra dizer “Éramos Seis” como no livro, mas infelizmente éramos sete). Encrustado numa esquina de pouco valor comercial, o lugar é desses que fica aberto 24 horas. Desiludido do amor e das funções gastrointestinais (eu só queria ir pra casa me aliviar, mas faltava coragem), me entreguei a uma fatia de pizza que dizia ser de frango mas era puro bacon, o que não me fez infeliz, pelo contrário. Tracei a gordura assistindo a uma briga na porta de um táxi. Uma pessoa entrava e saía enquanto a outra gritava sem parar. Não dava pra entender mas estava divertido. No fim, a pessoa de fora montou na janela do carro e tentou partir pendurado mas desistiu metros depois. Do lado de dentro das minhas tripas, outra batalha se desenrolava sem previsão de desfecho. Um dos amigos dessa turma, não da turma das minhas entranhas, mas do pessoal da pendenga do táxi, veio se juntar a nós e explicou a situação: “É que o gay não quer deixar a irmã ir embora, aí o gay tentou impedir o táxi de sair.” Tentei problematizar um pouco, mesmo sendo madrugada: “Por que você chama ele de ‘o gay’?”. “Porque ele é gay e a menina é irmã dele”. Desisti para o bem de todos. O menino puxou uma cadeira, passamos a ser oito. Era um rapaz bonito e também era gay. Eu podia me dar bem naquela noite, mas como vocês sabem, nessas horas o instinto e o intestino falam mais alto.
Bem pensei estar a ponto de ir embora, mas ninguém queria arredar o pé. Nem eu da minha promessa de durar a noite toda, pois para quebrá-la teria de inventar uma desculpa menos esfarrapada que ir ao banheiro. Um moço aracajuano que nos acompanhava perguntou se a noite em BH era sempre agitada assim, então lhe contei da primeira vez que fui àquele bar e um cara quebrou uma garrafa na cabeça de outro. Ele riu bastante, enquanto eu orava pra que outro incidente daquele encerrasse a noite e me permitisse fazer as pazes com o banheiro. E não é que o Deus dos botequeiros me atendeu? Um homem com jeito de machão e bolsinha feminina arranjou uma treta com um morador de rua, os dois de garrafa de vidro em punho. Eles rosnaram e rodaram cada um com sua arma. Alertei a mesa: vamos nos levantar lentamente e afastar, no que todo mundo foi muito solícito, mas ninguém arredou muito pra não perder o espetáculo. Antes que alguma das garrafas entrassem em ação, o garçom se meteu na briga e arrancou os litrões das mãos dos brigões, dando fim à batalha. O morador de rua saiu contrariado e criticou a bolsinha do colega machão. Saí são e salvo e ainda gritei “homofobia” pra crítica ao acessório e para qualquer ato do tipo que eventualmente estivesse ocorrendo. Entrei correndo no carro antes que a briga refluísse. O resto da noite você pode imaginar, mas não precisa.