História do tempo em que não existia Facebook ou Alegria e Delírio

Tinha esse vizinho da minha avó, Devair, que era um entre tantos filhos de família liderada por pai alcóolatra. Além dele, tinha o mais velho, cabo de polícia e gay, uma moça que só andava de bicicleta em pé e um mais novo, que seguia os passos do pai. Devair era diferente, migrou pra São Paulo no fim da adolescência e fez algum dinheiro por lá. Quando vinha passar férias trazia roupas compradas no Brás, comida, brinquedo pras crianças e panelas pra mãe. Por algum motivo, desistiu de prosperar na capital e voltou pra casa, e é aí que começa a história de verdade.

Devair passou a viver num mundo à parte, como se a realidade de casa não fosse suficiente. Ele andava nas ruas mostrando cartas que recebia de uma paixão mal-resolvida em São Paulo, uma mulher apaixonadíssima que fazia planos quando se reencontrassem. Os dois passaram por momentos felizes na cidade grande, passearam no parque, tomaram sorvete, pensaram em fazer filhos e ensaiaram algumas vezes. Mas sabe se lá o que aconteceu, ela pode ter encontrado outro ou ter morrido. A verdade era que quem escrevia as cartas era Devair, que não apenas criava o enredo, como se dava ao trabalho de ir ao correio para postar a carta que receberia dali a alguns dias, com alguma surpresa.

Tanto quanto receber cartas, as férias também eram momento de alegria e delírio para Devair. Ele esticava até a praia pra descansar, mesmo quando estava desempregado. Voltava dali a uns dias, com bronzeado tenso e histórias pra contar, que provavelmente escrevia nas respostas para as cartas dele mesmo. Mas ele também não ia à praia. Passava dez, quinze dias, um mês dentro de casa, de preferência nos fundos tomando sol para reforçar a cor. Fico pensando se numa dessas viagens ele conheceu outra moça, passou a trocar cartas com ela e desfez da amiga antiga. Para quem via de fora, a vida de Devair era movimentadíssima.

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Originally published at autofriccao.wordpress.com on January 11, 2012.

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