Do amor da sua vida.

Se eu morresse agora, eu seria o amor da sua vida.

Em todas aquelas tardes em que não andamos de mãos dadas pelas ruas, nas manhãs de inverno com a cama vazia, nos restaurantes que não conhecemos juntos.

Se eu morresse agora, certamente seria o amor da sua vida.
Quando você imaginasse o que poderia ter sido diante de tudo que não foi.
Quando suspirasse palavras de amor, sem nunca poder dizê-las.
Quando desenhasse viagens sem sair de casa.

Eu seria o amor da sua vida se eu não existisse mais, assim, de repente.
Porque somos bons em inventar memórias quando não arriscamos o suficiente para vivê-las.

Quando a vida se vai, ela leva consigo o risco.
De toda dor que poderíamos ter sentido. 
Leva o riso. E também as possibilidades.

Se eu morresse agora, eu seria o amor da sua vida quando você fechasse os olhos, debaixo do chuveiro, com as luzes apagadas.
Quando você desse uma risada assistindo um filme sem companhia.
Quando você parasse por um instante, numa tarde atarefada.
Levaria comigo todos os momentos que a gente poderia ter vivido. 
E pra você eles seriam cada vez mais bonitos, dia após dia.

Se eu morresse agora, você pensaria nos meus convites, os mesmos que me negou em vida. Diria em voz alta tudo que seu coração sente e esconde. Dividiria comigo a angústia que carrega sozinha.

Se eu morresse agora, talvez nunca te dissesse que não acredito que exista momento certo para que coisas extraordinárias possam acontecer.
Nunca poderia dizer que o mais bonito de se estar vivo é percebê-las, no instante em que elas nos pegam de surpresa.

Se eu morresse agora, eu não poderia dizer de novo o quanto acho tolice acreditar que existe pessoa certa em momento errado. Assim como pensar que se pode ter a pessoa errada no momento certo.

Se eu morresse agora, o momento certo passaria a existir, como se ele estivesse estado ao nosso lado todos os dias, esperando ansiosamente a sensibilidade de ser notado.

Se eu morresse agora, ainda assim não seria o fim.
Porque somos as marcas que deixamos nos outros. 
Sempre seremos as memórias que gostariam de ter vivido com a gente.
No verdadeiro fim, somos a vida que gostariam de ter tido ao nosso lado.