ATÉ QUE O FIM

Ela silenciou a mesa com os cotovelos. Os braços trancaram-lhe o peito como uma peça de ferro que trava uma porta; o rosto foi puxado violentamente para o lado, lado qualquer que fosse, pois seus olhos não se fixavam em um, apenas refutavam cruéis e indiferentes a situação exposta. Quando ficava nervosa, não travava os molares; ela rebaixava e adiantava seu maxilar, como um animal que ameaça sua presa com os caninos inferiores. Então, calava-se afiadamente até que tudo saísse como queria — hoje, foi o bar lotado e o atraso do serviço que desencadearam o rito pavoroso. Ele conhecia cada ato: nem os cotovelos sobre a mesa e os braços cruzados frente ao peito, tampouco os olhos fugidios e o maxilar canino, nada disso lhe era novidade. Ao longo dos dez anos passados ao lado dela, desde que ele se acostumara à essas cenas, só uma coisa lhe foi indesvendável: nesses momentos de raiva, no que ela pensava? Quando a situação repelia sua cabeça e ela se virava drasticamente, onde ia sua mente? Isso ele jamais descobriu. E hoje estava cansado demais para arrombar-lhe o peito trancado a ferro.

- Faz tempo que a gente não sai, só nos dois, pra um bar, assim.

Haviam combinado no começo da semana, estavam curiosos para experimentar os petiscos que tornaram o lugar famoso. Como ouviram que o bar vivia constantemente cheio, combinaram de chegar cedo. Mas a reunião de última hora, o chefe, o trânsito, aquele semáforo que é muito rápido, aquela vaga inexistente, a cidade que já não dá mais, tudo isso fez com que esperassem trinta minutos por uma mesa. Sentaram-se na calçada, mesa alta encostada em uma mureta. O começo de noite estava quente e, assim que se sentaram, pediram dois chopes ao garçom que desviava sua bandeja com duas porções de coxinhas e três caipirinhas dos chamados expansivos dos clientes impacientes.

Ela não respondeu.

O cotovelo, os braços, a cabeça, o silêncio. Desenganado, ele olhou ao redor. Atrás dela, uma mesa servia de palco para dois casais encenarem carinhosas acusações domésticas: sou eu que lavo a louça lá de casa!, se deixar, no fim de semana não tem um prato para comer; e banheiro, gente?, ele tem mais produto de beleza que eu. Ao lado, de pé atrás da mureta, três colegas enfadonhamente engravatados comentavam sobre uma tal de Luciana do jurídico. Algumas mesas adiante, duas amigas confidenciavam alegremente sobre algo que a primeira apontava no celular. Virou-se; atrás dele, um homem gordo marcava sua excêntrica risada com leves tapas na mesa, despertando ainda mais gargalhada no grupo com quem estava. Um música saía das pequenas caixas de som presas sob o toldo, mas era identificável em meio ao burburinho alegre do bar. Ele se voltou para ela puxado por um último fio de ilusão, mas aqueles olhos cor de mar, que tanto já haviam lhe despertado, eram agora apenas olhos. Foi quando ele percebeu o vazio. Teve vontade de chorar.

Por dentro, esta oco. Encarando a revelação, apoiou-se na mureta e ouviu o eco de um sentimento derradeiro que reverberava dentro de si. Algo daquele relacionamento ressoava dentro dele, mas o que se ouvia era tão fraco, tão distante. Percebeu-se recheado de ausências. Tinha-se apagado qualquer traço de paixão por ela. É claro que a amava, desejava-lhe o bem. Mas onde estava esse sentimento? Onde? Queria enxergá-lo, tocá-lo, mas ele ouvia apenas o eco e não encontrava a fonte do que ecoava.

Não, não iria desistir. Aprumou-se valente em seu interior e partiu por uma busca das pontes que os ligavam. Vasculhou os gostos em comum, escavou as memórias compartilhadas e tirou o pó dos gestos de carinho cotidianos. Ao avistar com clareza essas pontes, se lançou sobre elas com a avidez dos aventureiros descuidados. Então sob seus pés sentiu as cordas se romperem e tudo se desfez. Os dois lados pareciam ter se distanciado demais e já não haviam conexão capaz de ligá-los. Despencou sobre o nada.

- Ó o chope do casal!

Era o garçom, que depositou os dois copos na mesa e saiu. Ela se voltou para frente, ele se recompôs na cadeira.

- Finalmente. — Ela falou.

- Até que enfim. — Ele respondeu.