João Tamborim e Maria Cuíca

“Pra fazer um samba com beleza
 é preciso um bocado de tristeza”
Vinícius de Moraes

De tão de repente, não deu tempo da caixa de guerra anunciar a confusão. Uma baqueta com as cores da bandeira do Morro de Trás acertou em cheio o ritmista da Querosene. As baterias suspenderam bruscamente o andamento. O clima ficou tenso, mas ninguém recuou. Não levou mais que uma pausa de poucos compassos para o couro comer generalizado. O surdo de primeira, que ironicamente entra sempre no contratempo, dessa vez se adiantou: deu uma tão bem dada no pandeirista abusado do Morro de Trás que voou platinela para todo lado. Os puxadores dos dois lados até tentaram um breque, mas o fuzuê já estava armado. A peleja só acabaria quando a pele dos instrumentos estivesse aberta, ferimentos expostos em desafinos, como sempre acontecia. A rixa entre p Morro de Trás e o Acadêmicos do Morro da Querosene vinha de outros carnavais.

João Tamborim era a joia mais preciosa do Morro de Trás. Herdeiro da velha guarda, ditava um samba requintado, subia a levada com graça e floreava com malícia cada solo. Suas rodas eram disputadíssimas, dessas que a gente implora: “Sol, pelo amor de Deus, não vem agora”. Sua fama era tanta que chegou até o asfalto: frequentemente João Tamborim era convidado para tocar na cidade. Bonito, ali Tamborim cantava, encantava e, apesar de não ser um bom partido, era bom partideiro — toda noite terminava em dueto.

Foi em uma dessas rodas de samba que ele encontrou sua rima perfeita. Maria Cuíca entoava um choro fascinante, com uma alegria tão triste que fez o coração de João Tamborim pular duas oitavas. Ela tinha aquela melancolia sorridente que só as mais puras composições têm. Era um boteco na Zona Sul e em um arranjo do Juca Agogô, que fazia as vezes de cupido, João Tamborim foi chamado ao palco para acompanhar Maria Cuíca. À primeira nota apaixonaram-se perdidamente. Cantaram Prazeres, se ofereceram Rosas e, para se fantasiar de antigos amantes, usaram Cartola. Tamborim e Cuíca atravessaram a noite como se ela fosse avenida — e amanheceram juntos na apoteose. Só de manhã, na iminência de uma nova composição, descobriram que ele era o herdeiro do Morro de Trás e ela a princesa do Morro da Querosene.

“Só mais um amor de carnaval”, procurava se convencer João Tamborim diante da impossibilidade daquele enredo. Porém, ah, porém!, era um caso diferente. Ao longo da semana, o coração de João deu paradinhas a todo instante. Sentiu seu peito apressado, seu corpo todo tomado e na noite de sábado decidiu se embrenhar no Morro da Querosene em busca de seu amor.

Como se escalasse uma partitura complexa, subiu o morro dedilhando cada passo com cuidado. Cruzou trechos dissonantes, prendeu a respiração em um sustenido e por um semibreve momento, teve certeza que tinha alguém em seu encalço. Perdido, improvisava caminhos quando de repente o cantarolar de um samba-canção lupiciniano o levou até a janela de um velho barracão de zinco. Maria Cuíca debruçada chorava as dores de um amor proibido. Era tão esplêndido o samba que Tamborim deixou que o canto invadisse seu peito e cravasse ali um estandarte, pelo qual jurou nunca desistir desse amor. Depois, anunciou-se com um assovio, pulou a janela com o consentimento de um sorriso e naquela noite o Morro da Querosene ouviu o samba mais bonito do qual se tem registro. Na manhã seguinte, casaram-se em segredo, em uma cerimômina testemunhada pelo padrinho Juca Agogô.

Porém, quando deixava o morro assobiando alegrias, João foi descoberto por parte da bateria da Querosene. O chocalho chiou alto quando descobriram seu caso com a princesa. Encurralaram-no e começaram a surrá-lo sem dó nem ré. Restava apenas se defender: enfiou a baqueta no couro do repinique adversário e o calou para sempre. Então fugiu, desesperado, ao som das juras de vingança.

O coro se espalhou. Os dois morros se prepararam para a batalha. Havia uma excitação geral entre os integrantes das baterias, mas entre os da velha guarda sabia-se que aquela marcha seguramente terminaria em tango. Para proteger sua joia mais preciosa, a família de João Tamborim arranjou para ele uma parceria longe dali, em uma gravadora paulista. Era isso ou morte certa. O problema é que Tamborim, sem sua Cuíca, preferia a morte certa — e Juca Agogô sabia disso.

O padrinho correu até o Querosene e expõs seu plano: Maria Cuíca fingiria quebrar sua própria haste e entraria em profundo remanso, fazendo parecer que calara seu interior para todo o sempre. Com sua “morte”, o morro pediria uma trégua em lamento e, nessa pausa, Tamborim e Cuíca poderiam fugir em um miudinho. Refrão ensaiado, foi exatamente o que ela fez.

Ao voltar para o de Trás, porém, Juca Agogô não encontrou Tamborim, que nessa cesura já tinha sido avisado da morte de sua amada. João vagou descompassado pela noite, como se nenhum canto o pudesse aliviar. Desolado, infiltrou-se no morro rival e deitou-se ao lado do corpo silencioso da princesa da Querosene. Entoou um último samba-exaltação e se despediu. Quando Maria despertou, João tinha sua própria baqueta cravada no peito. Até hoje, ao ouvir uma tristeza que balança, escuta-se o lamento inconsolável da cuíca.