#RIP galo da casa com quintal grande

O galo da casa com quintal grande que fica ao lado do meu prédio morreu. Mas não tenho certeza que ele morava, apenas desconfio. Imagino que ninguém criaria um galo num apartamento. Eu nunca o vi, se é isso que quer saber. Apenas escutava o seu carcarejo todas as manhãs. Sete e pouco ele começava a cantoria. Era afinado até. Mas, de uns dias pra cá, ele se calou. E eu tenho sentido falta.

Ele era de longe o meu melhor despertador. Teve um tempo que eu acordava com a sinfonia de gritos e barulhos de um canteiro de obras. Depois o prédio ficou pronto e foi a vez de um vizinho que adorava furar paredes. Sofri um pouco com ele. Por último foi o galo. Mas com ele era diferente. Nunca fiquei bravo com o seu canto. Gostava.

Reprodução/ Internet

É que carcarejo e galos lembram minha infância. Eu jogava bola na rua driblando os galos e as galinhas que ciscavam por ali. Minha mãe que adorava. Dizia ela que, onde tem galos, cobras não chegam. Não sei se isso é verdade. Às vezes apareciam algumas por lá. Os galos deviam estar dormindo na hora.

Esse galo provocava a minha paz. Talvez, mesmo sem perceber, o seu canto tinha um antídoto contra o cansaço da cidade grande que entrava pelos meus ouvidos, ainda sonolentos. E eu nem percebia. Precisei do seu sumiço para entender tudo isso. Acho que, no fundo, no fundo, aquele galo alimentava a minha esperança de um lugar mais humano pra se viver.

Descanse em paz, galo da casa com quintal grande. Meus ouvidos já sentem sua falta.