Ao meu amigo morador do mundo

Uma chuva bem fina e bem chata molhava a Rua Augusta naquela noite de sábado. Paramos no mercadinho chinês da Peixoto para comprar duas garrafas de vinho, um litro de cerveja e um maço de Minister. O ser humano precisa de mais alguma coisa para ser feliz?

Começamos o ritual ali mesmo. Goles de cerveja revesados com alguns de vinho. Um esqueiro. Um cigarro. Um esqueiro. Um cigarro. Um brinde aqui. Uma cambaleada acolá. Um abraço. Uma risada. Um gole de vinho.
 
Começamos a descida da Augusta até a Roosevelt. Uma peça de alguns amigos nos esperava num bar ou alguma coisa assim, eu não sei. Quem sabe de alguma coisa essas horas?

Nos encontramos no caminho. Não o via há tanto tempo e ele parecia o mesmo. Continuava pequeno e gordinho, com uma barba grisalha e uma boca desdentada. Parecia aquele personagem vilão do Mickey, o Bafo, só que numa versão anã. Notou minha camiseta do AC/DC e começou a cantar “Highway to hell”, num inglês perfeito que eu não sabia que ele tinha. Demos risadas, o vinho foi compartilhado. Como eu gostei daquele cara. Ele sabia de tudo. Conversamos sobre todas bandas de Rock dos anos 80. Acabamos com um vinho ali mesmo.

Chegamos na bendita Roosevelt. A peça não tinha começado ainda. Ia ter um atraso de duas horas, mas quem se importava? Outro vinho foi aberto. Celebramos. A essa hora da noite, meu amigo já estava bêbado. Descansava largado na porta de uma loja fechada.

Dessa vez foi ele que me encontrou. Sentou-se do meu lado e eu fiquei feliz em vê-lo. Minha felicidade aumentou ainda mais quando vi que ele tinha uma marmita de alumínio lotada de batata frita, bacon e queijo cheddar. Me senti abençoado. Ele estava magro, os ossos do ombro estavam à mostra e seu rosto parecia uma caveira pintada de marrom. Um bigodinho loiro tingido pela mãe lá em Paralheiros dava um aspecto engraçado à sua cara feia.
Pediu um cigarro e eu cedi. Pediu um gole de vinho e eu cedi. A nossa amizade só fortalecia. Alcoolizados começamos a compartilhar histórias e batatas fritas. Os celulares roubados eram trocados lá no viaduto Santa Ifigênia com os pretos senegaleses ou, sei lá, angolanos. Tinha acabado de roubar uma menina burra com um celular grande, um Iphone no metrô da Sé. O dinheiro foi o bastante pra comprar umas pedras e aquela batata frita com bacon. Meu amigo dormia encostado. Outros chegaram. Pediram cigarros e eu cedi. Pediram goles de vinho e eu cedi. Meu amigo dormia encostado. 
Os outros me olharam e fizeram sinal de silêncio. Um deles, pintado de malícia, começou a mexer no bolso e na mochila do meu amigo. Estes não eram meus amigos. Levantamos violentamente. Eu saquei meu canivete. Meu amigo distribuía chutes e empurrões. Os outros puxavam a mochila. A batata frita tinha sido esquecida.

Até que meu amigo infla os pulmões cheios de fumaça e berra:
 “ELES SÃO MEUS AMIGOS!”.
 A briga foi cerrada. Meu amigo pediu desculpas durante a nossa fuga. Os outros riam e amaldiçoavam nossos passos largos.

A noite não estava perdida, só começava, então fomos atrás da peça de teatro. Compartilhamos um cigarro assustado antes de entrar. Não entramos. Os ingressos — que ingressos? — tinham esgotado. Foda-se. Subimos até o mercadinho chinês de novo, o vinho tinha acabado.

Mais um vinho comprado. O cansaço já mostrava sua cara e o metrô só iria abrir dali a 3 horas. Sentamos na frente de uma outra loja fechada. Compartilhamos melancolicamente o derradeiro vinho. Meu amigo pegou no sono.

Estávamos sentados lado a lado. Já não confiava tão cegamente neste meu amigo. Bebíamos o vinho suavemente . Entre um gole e outro, compartilhamos o último cigarro do maço. Um bombardeio de perguntas. A principal foi: “Você usa crack?”. Assustado ele me respondeu “claro que não, mano”. Acreditei.

O vinho descia docemente pelas nossas gargantas. Já eramos melhores amigos de novo. Ele ostentava um boné preto com alguma coisa escrita em inglês. Era muito alto e mesmo sentado ainda era maior que eu. Me contou da vez que foi visitar sua filha de 7 anos que ele não via fazia meses. Ela, assustada com a aparência mórbida do pai, perguntou: “Papai, por que seu olho não brilha?”. Choramos. Meu amigo e eu, encostados na loja fechada, chorávamos por causa da chuva, por causa da sua filha, por causa do Iphone, por causa da batata, por causa do AC/DC, a peça, a chuva, o cigarro, o vinho, a chuva, os dentes.

Meu amigo dormia. Meu amigo morador do mundo chorava. Meu amigo comia batata frita. Meu amigo morador do mundo bebia vinho comigo. Meu amigo estava perdido no mundo mas ainda morava nele. Entre albergues e portas de lojas, ele chorava tristemente comigo.
Ou era eu que chorava com ele.

Cidade linda
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