O dia em que fui infiltrado num Corinthians x Palmeiras

vinícius nunes
Feb 23, 2017 · 4 min read

Tarde de quarta feira, dia 22 de fevereiro, muita chuva em São Paulo. Árvores despencando, ruas alagadas, metrô mais lotado que os blocos de carnaval e eu a caminho de Corinthians - Itaquera, ver o Derby centenário.
O ônibus que pego todos os dias na ida e na volta da faculdade, passa na frente do estádio do Palmeiras, o Allianz Parque. Na noite de segunda-feira, passando por aquele colosso, tive uma espécie de epifania pensando no clássico de quarta-feira. Eu deveria estar naquele jogo, eu deveria apoiar mesmo não podendo, eu queria porque queria. Tive a ideia — desajuizada, segundo minha mãe — de comprar um ingresso no dia seguinte. Convidei e fui recusado por todos os amigos, que achavam que aquilo era uma loucura.
Deve-se saber que desde abril de 2016, após uma série de brigas entre torcedores palmeirenses e corintianos, o então Secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, junto da FPF e do Ministério Público, determinou que todos os clássicos no estado de SP deveriam ser de torcida única, isto é, apenas torcedores agraciados pelo “fator casa” poderiam ver o jogo no estádio.
Essa decisão se prolonga até 2017 e ela que tornava a minha ideia mais maluca. Eu, dentre 30 mil loucos corintianos, seria o único palmeirense, impossibilitado de cantar o hino do meu time, vibrar, torcer e demonstrar qualquer tipo de emoção. Depois de quase 2 horas de fila da loja “Poderoso Timão” na Rua Augusta, comprei o ingresso mais barato.
As horas que antecederam o clássico foram difíceis para mim. A escolha do disfarce e a postura que eu deveria tomar quando saísse de casa deveriam ser perfeitas. Tomei o ônibus sentido Palmeiras-Barra Funda. O clima lá estava insano. Centenas de corintianos uniformizados, cantando, batendo nas muretas e jogando bombas nos trilhos. Centenas de passageiros comuns, apenas querendo voltar para suas casas e olhando covardes para a multidão alvinegra. Seguranças do metrô, imóveis e sem poder fazer nada. Celulares testemunhando o pandemônio.
Itaquera é um bairro distante, nunca tinha ido tão a fundo da linha vermelha do metrô. Dei sorte de sentar na janela e pude ver a paisagem mudar ao longo das 18 estações e 44 minutos que passei dentro do penúltimo vagão. Em torno do estádio não existe nada, além da estação de trem e metrô. Apenas um estádio branco e brilhante, com uma iluminação tão forte que olhando no horizonte e tomando o estádio como referência, os terrenos atrás pareciam ser iluminados pela luz do dia.
Devo confessar que é um estádio muito bonito. O interior com seu piso de mármore e um escudo do Corinthians de 8 metros mostram uma excelência que me incomodou. O SCCP sempre foi um time que utiliza o estigma de ser o “time do povo”. Não ver o povo ali representado e saber que os injustos preços do ingresso e o horário ridiculamente tarde para uma partida de futebol, afastam o torcedor comum do estádio, me deixou com um gosto amargo na boca.

O Shopping Clube Corinthians Paulista.

A grande provação do dia estava para começar. Subi até as arquibancadas e pude ver o campo. A torcida já cantava, já fazia um barulho ensurdecedor, a acústica do estádio é realmente impressionante. Me sentei perto de um casal, eles conversavam sobre um amigo em comum que não pôde ir ao clássico por causa do trabalho. A minha frente um torcedor gigantesco, com uma tatuagem gigantesca em suas costas gigantescas, com os dizeres “eu nunca vou te abandonar”. Do meu outro lado, um outro torcedor. Calado, fumava um cigarro preto, roía as unhas e parecia tão nervoso quanto eu — gosto de imaginar que ele também era um palmeirense infiltrado.
Durante 90 minutos tive que me segurar. No lance que Keno, depois do famoso Cucabol, chutou uma bola que raspou no travessão, tive que segurar o grito. Mordi a língua para não rir quando Gabriel foi expulso injustamente. Chutava a minha cadeira a cada lance errado do Palmeiras. Xingava o árbitro a cada vez que meus companheiros corintianos xingavam também. Vaiava quando Dudu tocava na bola (na minha mente eu estava cantando “Dudu Guerreiro”).
Veio uma substituição e veio o atacante Jô para o Corinthians. Achei engraçado a reação dos torcedores a minha volta. Uns gostaram, uns não gostaram, uns odiaram, mas todos aplaudiram o camisa 7. O corintiano gigante da tatuagem disse “É agora, c…”. E foi. Aos 42 minutos do segundo tempo, 38 segundos depois de ter entrado e aproveitando uma falha de todo o time do Palmeiras, Jô rolou pelas pernas de Fernando Prass e fez o gol. Eu fiquei estático por causa do gol. Todos comemoravam, todos se abraçavam, o estádio estava fervendo, alguém acendeu um sinalizador lá na arquibancada norte, senti uma bandeira tocando o meu braço. 5 segundos de inércia já eram suficientes. Numa manobra que deixaria “Os Infiltrados” com inveja, abaixei a cabeça, coloquei as mãos no rosto e fingi rezar.
Fiquei triste, claro, mas não unicamente por causa do gol, senti tristeza por eu ser o único torcedor triste enquanto todos estavam felizes. Uma tristeza potencial.
O Derby Centenário foi sem dúvida um dos dias mais difíceis da minha curta vida. Segurar o choro e segurar o riso não é saudável. Segurar sentimentos nunca foi fácil e nesse jogo eu me senti mal diversas vezes. Porém, posso dizer, que foi uma das experiências mais legais que tive até aqui.

Palmeiras, meu Palmeiras, meu Palmeiraaas…

vinícius nunes

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Estudante de Jornalismo, fã do Tim Maia e Palmeirense. Escreve algumas coisas.

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