O que as pessoas leem no transporte público

De todas as manias chatas que eu tenho, a pior de todas sem dúvida alguma, é a de fazer listas. Um desejo desnecessário de listar coisas que eu gosto e que não gosto. Já fiz listas de muitas coisas: álbuns favoritos, filmes favoritos, desenhos favoritos, melhores linhas de ônibus de São Paulo, os piores semáforos que eu conheço, os 100 melhores jogadores de futebol que vi jogar, melhores sensações no corpo, entre outras. A lista que dá o título deste texto foi a que mais me deu trabalho e a que mais me atormentou.

Durante dois meses de puro ócio de 2016 acompanhei o que meus companheiros de ônibus e metrô folheavam entre as catracas e paradas solicitadas. Esticava o pescoço e forçava os olhos para tentar identificar o autor ou alguma palavra da capa, as vezes conseguia visualizar apenas um trecho do livro e buscava no Google para ver se encontrava o título da obra (muitas vezes sem sucesso). Fiquei muito surpreso e feliz com alguns resultados. Entre obrigatórios de vestibulares e partes de sagas, pude encontrar alguns livros de estudo de sociologia e um bonito gosto por romances.

Leitora desconhecida com um livro desconhecido.

Esta mania começou num dia em que eu estava no Itaú Cultural da Avenida Paulista e vi uma leitora muito concentrada enquanto esperava o início de um show. Ela lia um livro grosso, sentada num canto, enquanto muitas pessoas do lado de fora fumavam e bebiam vinho, parecia que não havia nada à sua volta, uma concentração agradável. 
Uma cena tão inusitada naquele espaço, uma cena tão rara de se ver nesses novos tempos que decidi listar todos os livros que eu via serem lidos.

Passageiro lendo “A tormenta das espadas” de George R.R. Martin

No dia primeiro dia de setembro do último ano, comecei portanto, a prestar atenção no que era consumido nos ônibus e metrôs da minha rotina. Comecei a fotografar os leitores mas descobri que era muito mais fácil apenas listar (e muito menos invasivo). Encontrei coisas interessantíssimas como “Anarquistas, Imigrantes e o Movimento Operário Brasileiro” de Sheldon Leslie Maram, a livros religiosos e de auto ajuda, como “Philia” de Padre Marcelo Rossi. Os dois meses que a lista teve vida coincidiram com os meses entre vestibulares muito concorridos, não foi difícil ver passageiros com semblantes preocupados lendo “Vidas Secas” de Graciliano Ramos e “Mayombe” de Pepetela. Sagas de Rick Riordan, J.K. Rowling e R.R. Martin, muito populares, foram vistas também — livros muito pesados para serem equilibrados entre as barras amarelas das lotações rumo à Barra Funda.
Um caso especial, foi quando vi um garoto, julgo que tinha uns 15 anos, que lia “A Revolução dos bichos” de George Orwell. Ele deixava escapar sorrisinhos cada vez que seus olhos iam e voltavam nas páginas. O ônibus balançava muito e ele de pé, perdido dentro da história de Napoleão e Bola-de-neve.

Decidi dar um fim na listagem no final de novembro. Aquilo estava me fazendo mal. Eu embarcava no ônibus e já caçava alguém com um livro. Quando visto, tentava me aproximar e praticamente fazia um contorcionismo para ver o título e o autor. Vagava pelos vagões articulados da linha amarela do metrô xeretando o que os passageiros liam. Me sentia triste quando via um livro de capa preta sem nenhuma informação. Me sentia feliz quando via mais de um leitor num ônibus só. Um maluco.

Porém alguns fatos eu pude perceber nestes 2 curtos meses de lista: livros são cada vez menos vistos nas mãos dos brasileiros. A educação e o investimento em alfabetização no Brasil são pífios, isso acarreta em pouco interesse dos leitores e transforma os exemplares físicos em objetos elitizados e de difícil acesso. Ler não é um hábito cultural, quem lê é quem está nas escolas ou que está - ou quer estar - nas universidades. As obras vêm sendo engolidas pelos celulares e acabam sendo deixadas de lado — como Luís Fernando Veríssimo disse num texto certa vez, os livros estão deixando de ser fonte de conhecimento e estão virando meras peças decorativas. É belo e muito esperançoso ver pessoas com eles nas mãos. Num mar de celulares e fones de ouvido, um livro se transforma num objeto de resistência e uma passagem para outro mundo.

Lista do que as pessoas leem completa:

•Todo dia — David levithan (Jd. guarani)
•Philia — Padre Marcelo Rossi (Linha verde)
•O último homem da terra — Autor desconhecido (Linha verde)
•A tormenta das espadas — George R.R. Martin (Morro Grande)
•Diferenças e desigualdades na escola — Marília Pinto de Carvalho (Vila Mariana)
•Nossa Senhora do Perpétuo Socorro — Autor desconhecido (Vila Mariana)
•A Revolução dos bichos — George Orwell (Jd. Vista Alegre)
•Memórias sentimentais de João Miramar — Oswald de Andrade (Linha amarela)
•As provações de Apolo — Rick Riordan (Linha amarela)
•Equador — Miguel Sousa Tavares (Linha amarela)
•A espiã — Paulo Coelho (Linha vermelha)
•Como encontrar e manter bons funcionários — Joan Brannick e Jim Harris(Estação Barra funda)
•Mayombe — Pepetela (Brasilândia)
•Terra Sonâmbula — Mia Couto (Linha verde)
•A inteligência e o cadafalso — Albert Camus (Terminal Lapa)
•O navio das noivas — Jojo Moyes (Linha verde)
•Tempo é dinheiro — Autor desconhecido (Barra funda)
•O Suicídio — Emile Durkheim (Barra funda)
•Por um momento apenas — Bella André (Linha azul)
•Diálogos com o anjo — Gitta Mallasz (Linha azul)
•Harry Potter e a Ordem da fênix — J.K. Rowling (Estação barra funda)
•O intangível da situação — César Souza (Linha verde)
•Os limites da publicidade — Autor desconhecido (Morro Grande)
•A dimensão sonora da linguagem audiovisual — Angel Rodriguez (Linha verde)
•Augciue e Eu: Três histórias extraordinárias — Rachel Agavino (Linha verde)
•Vidas secas — Graciliano Ramos (Terminal lapa)
•The enigma — Alan Turing (Linha verde)
•Vidas secas — Graciliano Ramos (Linha Verde)
•Fábulas de Esopo (Linha verde)
•Anarquistas Imigrantes movimento operário brasileiro — Sheldon Leslie Maram (Terminal Lapa)
•A grande transformação — Karl Polanyl (Penteado)
•Eram os deuses astronautas — Carl Segan (Terminal Lapa)
•O poder da espiritualidade — Willliam Sanches (Linha azul)
•Maldita Palavra — Chuck Palahniuk (Linha verde)
•A vida está a sua espera — Eliana Machado Coelho (Vila Mariana)
•O herói perdido — Rick Riordan (Linha verde)
•A meta — Jeff Cox (Terminal Lapa)
•Clash of Rings — Tolkien (Terminal Lapa)
•A grande mudança — Floriano Serra (Linha verde)

*texto iniciado dentro de uma lotação Barra Funda.

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