I

A ambulância acelera agressivamente pelas ruas de Porto Alegre, os pneus fazendo poças d’água explodirem nos focinhos de cachorros abandonados e nos rostos de mendigos com bócio, coitados. O som da sirene repete seu choro angustiado — um tom abaixo e levemente mais lento que o da sirene policial — , como uma mãe exausta tentando desesperadamente ninar seu neném histérico. Com braços de estivador, dois enfermeiros preparam-se para reviver uma senhorinha, as pernas cheias de varizes escapando do vestido florido e balançando pra lá e pra cá a cada curva imprudente que a ambulância dá. O choque do desfilibrador ergue a idosa da maca qual uma possessão demoníaca e o enfermeiro balbucia algo como: “ê velha miserável”.

Paralisado por um tipo de apatia que só aparece consequente ao pavor, senta Benício, desempregado aos 35 anos, curvando seu corpo alto e magro num cantinho da ambulância, com um lenço da Oi amarrado no pescoço, empurrando seu óculos de Técnico de Informática (sem armação, sem graça) de volta para o topo do nariz a cada quebramolas atropelado.

O transe só acaba já na sala de espera, quando o médico sai do pós-operatório massageando as próprias mãos, a pele branca como seu jaleco. Olha ao redor e chama por um Benício, que levanta no susto e se mostra presente dizendo:

— Pode me chamar de Benny.

— Nós operamos sua… mãe? — as mãos ainda se esfregando, obscenamente brancas, meu Deus.

Benício concorda com a cabeça e um sorrisinho diplomático.

— Sua mãe sofreu um infarto agudo do miocárdio. Deu tudo certo. Ela respondeu bem aos tratamentos e está com quadro de saúde estável. Agora, para o registro médico dela, você pode descrever o evento que precedeu o acidente? Como foi?

E agora, Benny? Rapaz.

II

Benício aos 9 anos, o buço infantil carimbado com Fanta Laranja, senta no chão e assiste uma pegadinha no SBT: Ivo Holanda à paisana (sem chifre de diabo, chapéu de viking ou qualquer fantasia) caminha até a porta de uma padaria e grita:

— Corno!

Os clientes giram o banquinho no eixo cilíndrico para entender o que está acontecendo enquanto Ivo Holanda insiste:

— Você mesmo. Corno. Viado.

Quatro homens diferentes abandonam seus cafés com leite no balcão e correm atrás do ofensor, que prontamente pula na caçamba de uma camionete e desaparece vitorioso. Benício gargalha fascinado, na época ainda incapaz de intelectualizar os motivos, da ausência de engenho da pegadinha. Não havia narrativa, intenção, plot-twist, nada. Ivo Holanda era uma força da natureza causando desconforto e caos e danação e mal-estar.

Os anos foram passando e enquanto seus irmãos adotavam e abandonavam novos hobbies (fotografia; aquarela; contrabaixo; taxidermia; estudo de gênero etc), Benício seguia apaixonado por pegadinhas, década após década. A televisão aberta era seu DNA, sua essência vital. Benício colocava bombril nas antenas da alma. Foi aos 35 anos, sentado no chão revendo a pegadinha do taxista mal assombrado, que aconteceu:

— Benício, a gente tem que conversar — fala sua mulher em um tom solene de professorinha de Religião da quinta série.

— Me chama de Benny, não gosto de Benício — responde indiferente, sem tirar os olhos da tela.

— Por favor, escuta. Isso não tá dando certo — é sua réplica, cansada.

— Claro que tá! O taxista vai subir pra cobrar o dinheiro agora e vai descobrir que o cara já morreu. É um clássico. Daí vai ver o reflexo do cara no espelho — responde Benício, olho vidrado na tela da TV, rindo meio retardado. Tadinha dessa mulher.

— Nosso relacionamento, Benício. Ele não tá dando certo

Finalmente, Benício vira o rosto para sua esposa.

— A gente precisa se separar — sentencia ela, aproveitando a atenção do quórum mínimo.

Benício levanta e coça a cabeça. A mulher sorri. Benício não entende. “Mas antes de terminar, dá um sorrisinho pra lá”, explica ela apontando pro espelho. Os dois riem. É uma pegadinha! O Ivo Holanda aparece vestido de padre. “Essa foi por pouco, hein?”. É uma pegadinha! Benício faz uma mímica de quem limpa o suor da testa. É uma pegadinha! Ivo Holanda já amigo (mãozinha no ombro e tudo) segue a entrevista “Mas me diz uma coisa, o que você vai fazer com a sua vida? Jogar no lixo assistindo pegadinha?”. É uma pegadinha? Claro que não.

— Hein, é isso? Vai jogar sua vida no lixo assistindo pegadinha? — repete a mulher, os olhos, mesmo sendo só dois, expressando: impaciência, mágoa e ansiedade.

— Isso é uma brincadeira? — Benício ainda coçando a cabeça.

— Não, nem tudo é uma brincadeira. Só essa tua vida que é uma piada.

III

— Nossa, ela disse isso?

— Sim. “Só essa tua vida que é uma piada” e saiu batendo a porta.

Benício divide uma mesa de quatro lugares com Moisés em um restaurante completamente vazio. Metade das opções do buffet já não estão mais disponíveis. Um relógio digital na parede marca 15:03.

Puta que la miséria, foi bom — confessa Moisés meio admirado.

— Como assim “foi bom”? Minha mulher me abandona, me chama de piada e “foi bom”? Como assim “foi bom”? — Benício larga o garfo e acaricia a própria barba como método anti-stress.

— Não, é que, pô, ela falou assim na hora, sabe? Tu falou “é brincadeira” daí ela já ligou a trilha de pensamento e pô, juntou brincadeira, piada, vida. E saiu na hora. Foi um pensamento bem rápido. Eu não conseguiria pensar em algo rápido assim — explica Moisés numa voz tão calma que ao mesmo tempo é adorável e revoltante.

— A gente podia construir um monumento pra ela, né? Uma estátua do cérebro dela. Vamos fundar um centro de neurologia em homenagem a ela — Benício responde, uns pêlos da barba caindo na mesa e no prato.

— É que, pô, por exemplo. Quando minha mulher me deixou, ela falou assim “Você tem essa cabecinha de um moleque de 13 anos”. Aí depois eu fiquei remoendo e podia ter dito “E tu que tem o corpo de um”, por que ela tinha, né? — explica Moisés, gesticulando o tradicional gesto pra indicar que uma mulher não tem peito algum.

— Ela tinha pouco, né? — Benício com os olhos cerrados, conjurando na memória o corpo da esposa do amigo.

— Tinha nada — Moisés dá uma garfada afobada pra dissimular que não apenas achava lindo quando a mulher deitava de costas e seus seios desapareciam quase inteiramente, como também não passava um dia sem sentir saudade. Engoliu amargurado e continuou: — E ela tava me largando por esse advogado. Ela falou assim “Ele tá terminando um relacionamento de 10 anos por causa minha. É um ato romântico que você nunca ia ser capaz”. Mulher adora falar isso “ai, ele largou um relacionamento de dez anos pra ficar comigo” como se fosse muito difícil. O cara tá casado há 10 anos, qualquer coisa remotamente divertida vai ser melhor que o casamento dele. Ela coloca na cabeça que até aquele momento ele era um esposo devoto, apaixonado e a presença dela abalou tudo. Dez anos. Ele largava o casamento por um pote de sorvete napolitano. Quero ver alguém largar um relacionamento de um ano por outra pessoa, isso eu quero ver. Eu deveria ter falado isso pra ela.

— Não falou na hora?

— Ah, não deu.

— Falou o que daí?

— Eu tava saindo do banho. Eu tinha esquecido de levar toalha pro banheiro. Daí ela falou assim, na lata. Aí eu comecei a chorar, né? Aí fui ficando nervoso, ela foi falando, daí vomitei ali.

— Em vez de responder com algo inteligente, você se vomitou pelado? — Benício se certifica que ouviu certo.

— É. Mas foi bom. Eu acho que quanto mais traumatizante a experiência que tu passa pelado, melhor ser humano tu vira, sabe? — justifica Moisés, como sempre fazia. Havia essa dinâmica pré-estabelecida onde Moisés seria o advogado da derrota sempre que adentravam (e frequentemente adentravam) um nível de intimidade e troca de segredos que mais parecia um Super Trunfo de fracassos.

— Uma vez a polícia me parou de moto e eu fiquei nervoso e fui soltar um peido, de nervoso mesmo. Aí acho que eu me caguei um pouco. Fiz um pouco de cocô na calça. Aí de vez em quando eu tô com a autoestima muito lá em cima e lembro daquele dia pra dar uma balanceada — joga Benício.

— Mas tu tava andando de moto pelado? — joga Moisés.

— Ah, não. Eu tava vestido — derrapa Benício.

— Bom, daí é outra coisa. Outro ponto da psiquê — ganha Moisés.

Os garçons almoçam em outra mesa e a moça da limpeza contagia o restaurante com um cheiro de produto de limpeza.

— É boa a comida aqui, né? — fala Moisés sinceramente, mesmo errado. A comida não é boa. Seus padrões que são baixos. Mastiga e continua, de boca cheia: — E é livre também, né? Dá pra repetir o quanto quiser.

Moisés tem uma beleza decadente, como um jóquei clube que fechou suas portas ou um casaco de pele todo puído e desbeiçado devido ao uso repetitivo. Ícones de sofisticação que já tiveram seu tempo de glória e hoje são uma foto pixelada do que um dia representavam. Caso não bastasse a careca franscicana no topo de sua cabeça, Moisés, hipnotizado por um dentista ardiloso, havia colocado aparelho dentário aos 35 anos. Benício secretamente preferia assim: no começo da amizade, quando Moisés era, parafraseando a opinião unânime das meninas do colégio, puta-que-pariu-o-homem-mais-bonito-do-brasil, Benny sentia vertiginosas ondas de insegurança. Saíam para jantar os dois juntos e ele fazia uma viagem astral, assistia de cima a dupla e se sentia o camponês de unha encardida e fuligem no rosto que havia sido convidado para um banquete com o princípe. Hoje estudava esse homem adulto usando bermudão camuflado e tênis Reef e, ainda incapaz de se enxergar superior, sentia-se pelo menos empatado. Moisés não percebia nada disso e nem fazia ideia que seu beijo, popular na adolescência pelo aroma de Halls preto, hoje em dia tinha sabor de Bib’sfiha.

IV

Deitado no sofá acometido pela letargia pós-almocinho, Benny não tira da cabeça que o fim do relacionamento foi um sinal, um marco de sua insatisfação geral com sua vida. Oscilando mecanicamente entre as abas de três redes sociais diferentes, — o dedinho anelar sem aliança valsando no trackpad do seu notebook, o bracinho encolhido como um Tiranossauro Rex ou um bebê de Talidomida — repete como um GIF a noite anterior: Daiane elencando por horas os motivos para o relacionamento acabar, a voz num fluxo tão constante que caso Benício fizesse um beatbox pareceria um rap. Seus olhos fixados no “keep it simple” em fonte cursiva escrito no peito da blusa do pijama da esposa, a frase que a Renner tão aleatoriamente serigrafou agora parecia debochar da situação, da sua vida. Era estranho ouvi-la apontando tantos defeitos seus, ainda mais para Benício que havia se tornado viciado na piedade feminina, uma droga gostosa, perigosa e tão viciante que às vezes sozinho em casa ele falava “tadinho do Benny” fazendo uma voz fininha. Daiane com o pescoço teso e os músculos das costas contraídos de tensão não conseguia acreditar que sua vida conjugal se resumia nessas duas palavras: dor muscular.

— Repeti três vezes o prato, que infantilidade — diz Moisés de perfil na frente do espelho da porta do guarda-roupa. Ele é desses amigos que segue você até em casa depois do almoço. Contrai e relaxa a barriga e conclui: — Mas, na real, se desse eu pegava sobremesa com prato de sopa.

Benício ignora e tenta pensar nos momentos ruins do relacionamento: as brigas constantes, a co-dependência, as infidelidades e a ridícula tentativa de abrir o relacionamento (ideia que ele suspeita ser de um colega de meditação de Daiane, organizador de uma oficina sobre amor livre, chamado Ygor, ou, como Moisés preferia, “Professor Poliamor”), mas nada parece funcionar e o cérebro, num golpe baixíssimo, insiste em só permitir o acesso aos momentos bons: as piadas internas, o conforto da encoxada não-sexual com as pernas mais entrelaçadas que nó de marinheiro, as noites em claro falando groselha e, naturalmente, todos os cheiros que ela trazia para o apartamento (shampoo, rúcula, suor, Olimpëa by Paco Rabbane). Os cheiros invadindo seu apartamento agora seriam o da vizinha com três cachorros, do vizinho maconheiro. Sentiria Benny novamente a agradebilíssima fragância de “mulher tomando banho” escapando por debaixo da porta do banheiro?

Mas principalmente, ele não teria com quem assistir pegadinhas. Ao ver pegadinhas, Benício e Daiane tinham uma coreografia Caco Antibes&Cassandra ensaiada: ele efusivo, ela moderada. Ele rindo propositalmente das partes mais infames, ela também — mas contida, contrariada, como se estivesse numa partida de Jogo do Sério. Benício tomava como desafio, como seu principal objetivo, fazer Daiane (uma mulher sisuda, o tipo de mulher que, em vez de ser cuidada pela mãe, cuida da mãe; crítica de arte, leitora de Hölderlin, interessada na “investigação filosófica acerca da origem das nossas idéias do belo e do sublime”) rir da mais boba das bobices.

Deitado na cama, embrenhado até os cabelos na nostalgia, Benício fala:

— Tem uma pegadinha do SBT. Do Ivo Holanda. Ela é assim, eles pegaram uma tela muito adesiva e colocaram na calçada, como se fosse parte do chão. As pessoas iam passar e os sapatos delas grudavam. Elas caíam. Uma hora um menino vai passar e seus dois tênis grudam e saem do pé dele. Ele passa vários minutos sentado no chão de pé descalço, todo grudado, tentando calçar os tênis. No momento que ele consegue, no primeiro passo para sair, os tênis escapam mais uma vez e ele fica descalço de novo. É mais ou menos assim que eu me sinto. Eu tento fazer algo melhor mas não consigo porque tô grudado no chão e toda luta pra calçar os sapatos é em vão, porque eles vão cair do meu pé de novo.

Nossa. Moisés também ficou “nossa”.

— Mas é uma boa pegadinha, o WiFi tá pegando meio mal aqui, mas deixa eu ver se carrega — Benício dissimula, mais para ele mesmo do que para o Moisés.

V

Aquela madrugada, já sozinho em casa, Benício passou em claro numa perigosa mistura de pegadinhas no YouTube e textos de empreendedorismo digital. Intercalava pegadinhas dos anos 90 com artigos de jovens de 16 anos ganhando milhares de reais mensalmente com vídeos na Internet. Decidido a não se acomodar (uma civilização que transformou “se acomodar” em uma expressão pejorativa só pode estar fadada ao sofrimento), Benício decide que vai ganhar dinheiro. “esse ano vamo ganhar dinheiro”, manda por mensagem pra Moisés. Se você procurar “esse ano vamo ganhar dinheiro” no histórico de conversa deles, você encontrará 76 resultados. São 7 da manhã e Benício caminha até a padaria do bairro sentindo-se revigorado pelo vento matinal e começa a ruminar aquelas digressões que só uma noite em claro, sóbria e em casa proporcionam. Você sente uma clareza muito grande, o tipo de clareza confiante que só pacientes mentais atingem, e começa a traçar planos profissionais, amorosos, pessoais, familiares. Tudo com muita certeza, tudo bem óbvio, você que era cego e não via. Benício decide que vai fazer pegadinhas. “Vou viralizar, vou enriquecer”. Pegadinhas na Internet.

Aproveita que a mãe está vindo visitá-lo naquela tardinha e prepara o apartamento: deixa a porta semi-aberta, vira o sofá de cabeça pra baixo, tapa o nariz e a boca com uma bandana da Oi, tira um cutelo da gaveta da cozinha e se esconde no corredor. Posiciona o celular para filmar e, olhando diretamente na câmera, explica:

— Essa é a pegadinha dos Von Richthofen.

E percebe ao falar que até o nome da pegadinha era uma referência ao seu antigo relacionamento, uma piada interna: ele mais moreno, mais bugrinho, mais humildinho, vivia sentindo que a família de Daiane, uma menina muito branca, muito rica, com olheiras e um humor instável, olhava desconfiada para ele, como se Benício fosse ser o irmão Cravinho da Suzane Von Richthofen deles.

Numa sincronia que não existe na vida real, sua mãe entra na porta (como o porteiro a deixou passar sem tocar o interfone? Como ela foi aparecer logo depois dele apresentar a pegadinha ao vídeo? Eu não sei) e olha boquiaberta para a sala, incrédula, em câmera lenta. Benício salta de dentro do corredor, gritando um AAAAAAAAAAAAAAA e balançando o cutelo no ar. A velha, coitada, nem grita, nem se mexe. Larga as sacolas de plástico bom (uma da C&A, uma de um freeshop do Chuí, plástico grosso, não aquele mole de mercado) no chão, leva as duas mãos ao peito e cai dura, ao lado dos potinhos de comida que escaparam das sacolas.

Voou cutelo pra lá e celular pra cá, enquanto Benício, apavorado, ligava pro 192, sacudindo a mãe. Carregou-a no colo pelos quatro lances de escada e entrou na ambulância, suando, olhando pro chão, olhando para os enfermeiros, olhando para os pés, para a sala de espera, para as outras pessoas, sentindo o tênis do pé esquerdo levemente mais apertado que o direito e não conseguindo deduzir se o que o incomoda é o pé apertado ou o folgado. Seu celular parecia pesar oitenta quilos em seu bolso. Ele estava com medo de assistir ao vídeo, de abri-lo pra deletar, de tocar no celular. “Eu fui fazer uma pegadinha e matei minha mãe”, era o único pensamento que ele conseguia ter, a única construção semântica que sua cabeça permitia construir. Às vezes achava que ia conseguir se distrair com outra coisa, se perder em alguma digressão, e caminhava apressado na direção desse novo pensamento apenas para dar de cara numa transparente redoma de vidro, sentir uma cordinha o puxando pela cintura e voltando ao “Eu fui fazer uma pegadinha e matei minha mãe”. Enfim, o médico apareceu mirando o prontuário.

— Sua mãe sofreu um infarto agudo do miocárdio. Deu tudo certo. Ela respondeu bem aos tratamentos e está com quadro de saúde estável. Agora, para o registro médico dela, você pode descrever o evento que precedeu o acidente? Como foi?

— Ela subiu quatro andares de escada, carregando peso, a mãe tá velhinha já, acho que foi isso — mentiu Benício instantaneamente, sem nem pensar, olhando nos olhos do médico por cima dos óculos.

VI

S ó seria permitido visita no dia seguinte, mas Benício não queria ir pra casa, para o palco da tragédia. Ainda evitando tocar no celular, foi caminhando até a casa de Moisés num estágio lisérgico da privação de sono (não dormia há 34 horas). No caminho, viu um jovem (imagino que jovem, era mais uma silhueta) escalando na mão um prédio de onze andares, com uma naturalidade sobrenatural. Chegando lá em cima, a Silhueta tira — não sei da onde — um spray e começa a pichar. Ao terminar a letra K da pichação “Nóis fuma beck”, seu corpo escorrega e cai do décimo primeiro andar. Benício assistiu de longe a multidão se reunir em volta do corpo quando um mendigo com bócio e a cara molhada d’água se aproxima e fala:

— Tenho uma boa e uma má notícia. A má é que ele morreu ali, bailou, e, man, as redes sociais vão entrar num debate insuportável sobre gentrificação, ocupação do espaço público, a tomada da rua. A boa é que Deus existe e há vida após a morte — o mendigo conclui, mendigando ao contrário e botando 25 centavos na mão de Benício.

Ainda segurava a moeda entre as mãos quando tocou o interfone da casa de Moisés. Relatou suas últimas horas e os dois saíram juntos para consumir as bebidas álcoolicas da pior qualidade: a cerveja de milho esquentando junto com o latão que passavam um para o outro. Se individualmente eles já eram destrutivos, juntos se tornavam um Megazord da ruína. O comportamento adolescente, pontuado pelo riso alto e desesperado, se deu por oito horas seguidas: esbarrões, ofensas, barulho; aquele tipo de histeria medieval que não era pra existir mais. Benício e Moisés caminhavam abraçados com a intimidade que apenas amantes e irmãos têm, inticando com tudo que é cidadão que viam pela frente. Sentaram com estranhos: um latifundiário diagnosticado com câncer de próstrata; um “poeta maldito” em crise de meia idade tentando organizar um menage a trois pelo celular; uma turma de cinco bixos do curso de medicina — esses últimos dado momento receberam a breve atenção de duas meninas de uma mesa ao lado e todos seis ao mesmo tempo tentaram falar algo interessante para impressionar as meninas, culminando num som semelhante ao de uma baleia cachalote morrendo.

A noite encontrou seu fim com Benício implorando para dormir com Daiane, a voz débil, alimentada de culpa e remorso e álcool e insegurança e o medo da sua vida ser aquilo, estourando chiada no interfone. A expressão facial de bêbado de Benício tinha traços de um paciente psiquiátrico (a boca escancarada, a baba nos lábios) e de um preto velho incorporando um exu (a maldade no olhar, a violência ao gesticular). Resignada, Daiane desceu pra abrir a porta, o mesmo pijama “keep it simple” agora se escondendo sob um sobretudo marrom. Benício subiu as escadas sentindo que tinha muito o que falar, a angústia, a saudade — iria explodir verborragicamente. Todavia, bastou deitar na cama para pegar no sono muito rápido, em menos de dez segundos. Como se Benício participasse de uma perseguição e fugisse, apavorado, da vida real.

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