Blocos Que Eu Vivi (A quase Sexta e o Sábado de Prata Preta)

A sexta de Carnaval nasceu e morreu prematura. Todos nos reuniríamos rumo ao Embaixadores da Folia mas, antes de dar o primeiro pontapé de abertura de trabalhos, correu o boato: a Guarda Municipal estava escoltando o bloco que, acostumado a varar a madrugada, teria de terminar à meia-noite em ponto. Haveria um grande baile, gratuito também, nos arredores do CCBB, o plano B da galera: o Bailão da Ouvidor. Só que não. Também foi cancelado forçosamente pela GM. E a mesma situação ocorreu com o Brejeiro, e outras festas e blocos, inclusive na Zona Sul. Parece que, das nossas possibilidades, a única que vingou foi o Bagunço. Pena que só descobrimos tarde demais que aconteceu e que foi lindo.
Carnaval tem sempre desses momentos, que você pensa que se fosse um jogo de vídeo-game que você já conhecesse a próxima fase cê faria certas escolhas diferentes para ter um sucesso ainda maior nas empreitadas e zerar com recorde de pontos. Ficar em casa, dormir cedo e encarar o Truque do Desejo, no sábado de manhã no aterro, altura do Museu da República, foi uma dessas escolhas erradas que fazem a gente querer voltar atrás. Não que a banda não estivesse divertida, mas o som estava baixo. Um clássico recorrente de Carnaval. Pra piorar, a sensação de estar ouvindo uma roda de pagode tocada por não pagodeiros nunca é a ideal (antes fossem pagodeiros de facto).
Desistimos e caminhamos sentido Lapa afim de filar um almoço e um pouco de ar-condicionado. Não, antes de desistirmos tentamos o Puta Que Paris, daí sim desistimos vez. Pronto, a próxima etapa aconteceria na Praça da Harmonia, na “nova” porém velha, boa e há muito tempo pouco desbravada região portuária. Porém, para nossa pouca praticidade, o acesso rumo estes cantos estava mais difícil do que nunca desde que a Prefeitura cortou quase todas as linhas de ônibus municipais que se deslocam até lá (para se ter noção, os busus mais próximos que cortam as adjacências da praça em questão são veículos intermunicipais tentando retornar à Central). Teoricamente o tal do VLT vai suprir essas necessidades, mas eles resolveram cortar os ônibus 4 meses antes deste bondinho pós moderno começar a funcionar. Faz sentido? Não, mas a missão foi atravessar o Túnel João Ricardo, aos pés do Morro da Providência, e xingar cada taxista que se recusava a fazer o trajeto (por ser “curto demais”).
Finalmente nos arredores da Praça da Harmonia, já na Sacadura Cabral, após misteriosamente tomarmos o caminho menos prático entre uma coisa e outra, esbarramos com o Desculpe o Transtorno, bloco de marchinhas e mpbs que veio vindo desde a Rua Acre, onde encontramos conhecidos e amigos. Contudo o prato principal era o Prata Preta e ele não estava mais na praça. Nada que não fosse resolvido pelo ato de seguir os sentidos, os instintos… ou simplesmente por perguntar para alguém (que claramente estava, digamos, no bar da esquina desde manhã cedo) por onde o bloco havia ido.
Assim encontramos o Prata Preta, nos fundos da Rua do Propósito, vindo da Conselheiro Zacarias e descendo a Leôncio de Albuquerque. E que festa faziam. Uma onda de gente e vida veio a nossa direção e o dia que até agora estava morno (e fazia muito calor, não se enganem), ferveu de vez. Os gigantes bonecos, característicos do bloco, desciam a ladeira; os moradores, já cientes da alegria, saiam à porta e ofereciam copos e baldes da água pros descarados que pediam; a rua, ainda em obra por conta do atraso da tal da “revitalização” da zona portuária perpetrada pela Prefeitura, marcava de poeira cinza claro os pés de todos os foliões (não que alguém se importasse com isso.) “Sempre houve vida aqui”, é o que diz cada uma dessas esquinas aos ouvidos mais atentos.
Após mais uma interdição do trânsito, o curto porém intenso cortejo se instalaria na Praça da Harmonia novamente, onde, do coreto, faria mais uma hora de marchinhas, sambas essenciais, uns eruditos e outros mais modernos, com umas licenças poéticas aqui e acolá. Uma multidão ainda maior estava instalada na Praça, gastando toda energia que tinham ainda pra gastar. O inexplicável clima foi temperado pelos confetes e serpentinas disparados por uma espécie de extintor de incêndio, que coloria de vez a praça, para alegria da garotada. Crianças, aliás, compareceram em peso. Fantasiadas, inclusive. De Chiquinha, de Chaves ou de robozinho do Star Wars.
Seguíamos rumo à Praça Tiradentes (mais uma vez), e fomos escoltados, até a esquina da Rua Camerino, pelo o que nos pareceu ser uma parcela deslocada do Super Mario Bloco. Fazíamos a transição entre diferentes fases sob a trilha sonora mais indicada o possível. Os encontraríamos de novo umas 2 horas depois, na apresentação da Fanfarra (sim, mais uma, mais duas!) Black Clube e dos Siderais, atrás do IFCS. Parece que estavam a caminho de lá mas se perderam um pouco no trajeto. Normal, essa região da cidade é meio misteriosa mesmo. Assim, quase uma Macondo.