Blocos Que Eu Vivi (Parcial e pré Carnaval com Pérolas e Tambores)

Esse ano resolvi manter um diário de Carnaval para deixar registradas as experiências durante os dias de folia. Na tentativa de ser fiel ao que vivemos decidi ser o mais espontâneo e errante possível nos relatos. Não tem muita regra, vai ser pensar no que aconteceu e vomitar palavra entre um bloco e outro enquanto espero a próxima cerveja gelar.

Pérola da Guanabara (30/01/2016)

Noventa e nove por cento aperto, sufoco, perrengue, mas aquele 1% que faz tudo valer a pena. Se tu tiver sorte. O boato era que o bloco começava em alto mar e a primeira leva iria na barca de 8h30, que nos levaria da Praça XV até Paquetá, destino do bloco. Chegamos 8 e 20 na esperança de que pegaríamos o bote deste horário. Doce ilusão. Carnaval não é pra principiantes, um dia disse um filósofo aí. Garoteamos e pagamos o preço de uma hora de aperto até conseguir, de fato, entrar no curral que nos garantiria um lugar em alguma barca de fato, que à esta altura já era a de 10 da manhã. Nossas definições de suor foram atualizadas.

Depois disso foi só amor, ou quase. O pessoal do Pérola confirmou o desfile muito em cima da hora (aparentemente) e haviam pouquíssimos ambulantes na ilha vendendo cerveja (o que geralmente não costuma acontecer). E agora? Deviam estar uns 67 graus de sensação térmica e éramos um grupo de 10 cabeças com muita sede. A única possibilidade de um final feliz alcóolatra era entupir de gelo a mochila térmica que eu levava e gelar umas cervejas compradas quentes… missão dada, missão cumprida.

O Pérola estava disperso mas na hora que chegou no famoso “Coreto” a magia aconteceu pra valer. A galera se agrupou ao redor e fez a festa. O repertório era extenso demais para explicar aqui, mas rolou de marchinhas à Steve Wonder. Os mais adaptados ao inferno térmico que se meteram no meio do coreto de fato para ver a banda de perto curtiu talvez um pouco melhormente. O que importa é que a ilha estava em estado de transe e ainda no caminho de volta das barcas surgiram mais uns dois blocos irreconhecíveis pra quem já estava doido. Ainda faltando mais de uma semana para a data em calendário oficial, Paquetá já era o Carnaval.

Tambores de Olokun (ainda em 30/01)

Seria necessária muito mais antropologia do que sou capaz para definir o que é o Tambores. Um híbrido de maracatu com levada de Candomblé que tem uma preocupação consciente dos elementos religiosos e estéticos com os quais trabalham. Este ano teve uma importante homenagem à Adriano, dançarino do bloco assassinado ano passado enquanto voltava pra casa. Sua mãe carregava flores e uma oferenda à Iemanjá, aniversariante na terça feira seguinte, seria e foi feita ao fim do bloco.

Pela minha pessoal experiência e memórias afetivas com as religiões do Candomblé e da Umbanda, tenho sinceras dificuldades de definir o que sinto de fato durante as apresentações do Tambores. O que dá pra dizer é que se flerta ali não apenas com uma festa de Carnaval mas também com uma celebração religiosa e, consequentemente, política, de afirmação, não isenta de auto-crítica. O próprio bloco admite que apesar de estar entrecortado pelas tradições afro, tem em sua maioria membros brancos. Esperamos que seja uma questão de tempo para o quadro se balancear.

Ao final do desfile aconteceu a oferenda à Iemanjá, como previsto, à beira da Baía de Guanabara. O ritual, aqui religioso, ao final foi aplaudido. Algumas pessoas não entendiam e conversavam durante o acontecimento dando a migalha de sua atenção de fato apenas na hora de bater palma. Mal sabiam que aquilo não estava sendo feito para receber aplausos, não era um espetáculo. O que poderíamos ter feito, no máximo, era oferecer nosso contemplamento sincero.

Ofereci a rosa branca que me deram à beira da água para Iemanjá, relembrando uma antiquíssima memória sinestésica que nem lembro quem me ensinou (provavelmente minha mãe). A forma correta de se fazê-lo é estender, com as duas mãos, a rosa, no momento que a onda vem, para, em seguida, a própria onda levar de volta. Como se a deusa aceitasse seu oferecimento e levasse consigo. Virei as costas, espantado com a memória inesperada, e vejo logo ao meu lado um sujeito arremessou sua respectiva rosa no mar, de qualquer jeito, praticamente de costas, já se virando e caminhando para a direção oposta, aparentemente mais interessante. Iemanjá que lhes perdoem, eles não sabem o que fazem.