Carta aberta a uma certa Joana

Cada vez que eu me sinto estúpida, patética e ridiculamente sozinho lembro de você sentada na varanda, na rede, encarando o décimo primeiro cigarro do dia, olhando alguma distância que eu nunca tive coragem — ou vontade o bastante de superar o medo — de perguntar.

Toda vez que eu erro, e erro de novo, e de novo, sobretudo quando eu podia ter feito ou sido algo e alguém melhor, eu lembro de você também. Mas lembro porque tenho ainda culpa de quando você me pediu a canção que eu nunca lhe dei. Procrastinar é um dos maiores defeitos humanos. Imagino aqui sua voz, que não carregava julgamentos e culpas, mas que me realisticamente falaria: “você sempre foi esse bicho teimoso. Lembro do dia que se cortou e tem até hoje aí aquele caco de vidro na pele, cicatriz”. É, mãe. Pode ver. No pé esquerdo, até hoje, vidro e cicatriz.

Mas cada vez que reconsidero minhas noções de saudade sincera e vejo pessoas conhecidas de vista ou completos estranhos sorrindo ao me encontrar na rua, exclamo, poxa! eu nem sabia que você me conhecia. Eu nem sabia que você me gostava tanto assim: vejo você nesse gesto. Cada vez que ao lado de uma irmã ou um irmão (desses que o caminho traz pra gente) causo outro sorriso: arrepio, olha você aqui de novo. Sentada comigo no chão da 28 pra uma cerveja, um samba e um desabafo, ou perdida na madrugada escura e fria da Augusta cheirando a cigarro! sempre me acompanhando através dessas outras companhias. Dedico-lhe cada piada quase científica (sobre como os pombos incomodam menos no inverno, por exemplo). Dedico-lhe cada brinde, mesmo que não diga em voz alta, mesmo que eu esqueça de brindar. Você me ensinou a ser só mas também a ser o contraponto: junto.

Essa procura que não para. Por algo que seja minimamente verdadeiro. Feito uma goteira capaz de romper não apenas a pedra dura mas o solo abaixo, a rocha sob a rocha, até poder se evaporar no núcleo quente de magma que recheia o planeta. Herdei essa busca também. Você me ensinou a viver assim ou pelo menos a ficar irritado e deixar de ser inerte e tentar de novo, e de novo, inferno! Inferno! Se eu lhe dissesse que a casa está mais ou menos arrumada você não acreditaria. A gota d‘água chegou ao magma? Porranenhuma, mas parei de fumar. Essa é a boa notícia que tenho pra lhe dar hoje. Quero também enviar uns rabiscos. Se tiver uma caixa postal aí em cima me passa o número através de um sonho.

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