Cuidado com o que você compartilha sobre o Zika Vírus na Internet

TODO conteúdo disponível na rede precisa ser avaliado pois muitos são aqueles que lucram com a desinformação.

Não se deixe enganar pela foto: o Aedes Aegypti prefere ficar dentro da sua casa mesmo. Fonte: Wikipédia.

Desde o ano passado inúmeras notícias têm circulado na rede a respeito da epidemia do Zika vírus nas cidades brasileiras e suas consequências. Quando a provável causalidade da doença sobre os casos de microcefalia foi anunciada, em novembro de 2015, tudo se intensificou e a quantidade de informação pela Internet aumentou exponencialmente. Foi assim que as teorias começaram a se multiplicar…

E não foram poucas. A vacina da rubéola com validade vencida e distribuída no Nordeste estava entre as primeiras. Mais recentemente houve a comparação do surto da doença aqui com outros países e a suposta ausência de casos de microcefalia nestes. Fechando o quadro, também afirmam que a Zika e a consequente nanocefalia teriam sido trazidas para o Brasil através de mosquitos geneticamente modificados. Da forma mais concisa possível, tentarei refutar estas teorias mais compartilhadas e alertar para os perigos do sensacionalismo viral.

A negação da correlação entre Zika e microcefalia como forma de atrair de leitores

Como primeiro exemplo do que digo me refiro a esta notícia cuja manchete acusa o governo de estar negando a correlação entre microcefalia e rubéola. Inúmeros são os sites que apelam para títulos chocantes e conteúdo raso afim de atrair cliques e audiência. Sempre bom lembrar que é através do número de visitas que as páginas arrecadam recursos financeiros. Neste caso, o erro é grosseiro: a nota do governo federal não nega que pode haver uma correlação entre rubéola e à má formação do sistema nervoso de crianças, até porque isto é consenso dentre a comunidade científica, mas esclarece que a vacina, quando aplicada, tem como público alvo crianças e mulheres grávidas não são vacinadas. De qualquer forma, a própria especialista da notícia, Rosana Richtmann, afirma não acreditar na ligação entre a rubéola com os casos ocorridos nos bebês de Pernambuco, apontado como um dos estados originários do surto. Não se limitando a isso ela foi uma das profissionais que assinou a carta de repúdio a este boato, da Associação de Médicos Brasileiros.

Recentemente foi divulgada a primeira contagem do número de casos de pacientes com Zika no Cabo Verde, concomitante ao crescente número de infectados na Colômbia, segundo país mais atingido. Como ainda não há prognósticos positivos para microcefalia nestes países, rapidamente foi vendida a moeda de que a correlação não existe, e, ainda pior: estaria por trás de tudo uma grande conspiração governamental. Não sou governista porém precisamos nos atentar aos fatos.

Comecemos pela Colômbia: Os primeiros casos colombianos foram registrados na cidade de Sincelejo, em Outubro de 2015, conforme registrado pelo ProMED. A doença rapidamente se espalhou, e agora (em 22 de fevereiro de 2016), são 37.011 casos da doença no país, incluindo 6.356 mulheres grávidas. Por mais que o número seja elevado, especialistas indicam que o diagnóstico para nanocefalia deva ser avaliado a partir da 16ª semana de gravidez para de fato identificarem a ocorrência. Ou seja: ainda não estamos dentro do prazo correto para sugerir, muito menos para afirmar com segurança, que tal correlação inexiste.

No caso de Cabo Verde abordarei estas duas notícias: uma pelo Ilisp e outro pelo Observador, ambas com mesma data (15 de fevereiro deste ano). A primeira é vaga, em apenas dois parágrafos se limita a dizer que foram identificados mais de 7 mil casos para Zika e nenhum de microcefalia até o momento. O segundo, mais esclarecedor, dá nomes aos bois: a declaração oficial do governo de Cabo Verde foi que estes montantes de casos ainda se enquadram como suspeitas e que, a partir de 15 de novembro, iriam acompanhar 140 grávidas. Destas, os primeiros bebês nascidos (não especificando os números) vieram ao mundo sem problemas. O governo cabo-verdiano reforça também que o acompanhamento das gestantes será feito até o final do ano. Afinal, sabendo-se o raio de chegada da doença no país (por volta de Outubro de 2015), são necessários meses a partir de então para se afirmar categoricamente qualquer coisa.

A inconsistência sensacionalista também recorre às proporções diferenciadas. Explico: no Brasil o número de casos de Zika vem sendo estimado entre 500 mil e 1 milhão e quinhentos (como esta excelente matéria da BBC enumera, assim como também esclarece sobre a dificuldade de se chegar a esse número). Ainda que estejamos com esta gigantesca quantidade de casos, aqui foram apenas confirmados 462 casos de microcefalia (notícia de 12/02/2016), sendo que somente em 41 destes a correlação já tenha sido comprovada. A proporção dos números não mente: ainda que tenhamos muitos mais casos da doença, o diagnóstico definitivo da Zika é alcançado com muitas dificuldades, além do acompanhamento correto das grávidas em grupo de risco ser extremamente limitado. Portanto, se é complicado aqui, porque seria diferente nos demais países?

Por outro lado: o Legado da Copa

Não foram os mosquitos geneticamente modificados nem os agrotóxicos que causaram o surto de Zika no Brasil, muito menos foi incompetência dos Nordestinos terem espalhado a doença pelo país. A possibilidade mais real é de que o Zika foi um legado da Copa do Mundo mesmo. A sepa do vírus presente aqui é asiática e o grande montante de turistas lá pelo Nordeste que provavelmente colaborou para sua disseminação. Só para dar um exemplo, o Japão jogou em Natal e no Recife, justamente capitais dos dois primeiros estados onde foram identificados surtos da doença.

Eu entendo que a teoria meio X-men pareça sedutora, e isso não quer dizer que mosquitos geneticamente modificados sejam de completa segurança, como Helen Wallace, diretora da rede GeneWatch UK, diz na página 22 deste artigo aqui. (A GW monitora iniciativas em ciência e tecnologia baseadas em alteração genética.) Contudo, às vezes a resposta mais simples é a resposta correta e coerente.

Sintetizando a fórmula do boato e o cuidado que devemos ter com toda e qualquer informação compartilhada em rede

A origem dos boatos em geral vem partindo da correlação entre os agentes citados e a microcefalia, porém totalmente deslocados de contexto. Primeiro, doenças como toxoplamose, citomegalovírus e rubéola podem também causar a condição neurológica. Porém não há registro de suas respectivas vacinas sendo agentes causadores desta. Segundo, de fato ainda não se identificaram casos de microcefalia nos demais países atingidos por epidemias relacionadas à dengue. Só que às vezes há outra explicação plausível para estes fatos. O baixo número de grávidas com acompanhamento e a recência da doença em Cabo Verde e Colômbia são explicações mais razoáveis que as oferecidas pela nebulosidade do sensacionalismo.
EDIT: além dos que já citei, estão falando muito sobre outras duas nações africanas como exemplos de países epidêmicos sem microcefalia, a Uganda e a Nigéria. Aqui, a alta mortalidade infantil e a ausência de registros de nascimento na África explicam o ocorrido.

Todo editorial sabe que a grande comoção em massa sobre determinado tema gera um maior interesse e curiosidade da população, que consequentemente irá clicar e compartilhar conteúdos relacionados. Todo editoral sabe muito bem que a parcela de pessoas que irá comparar fontes, ler a matéria com atenção e buscar a informação mais precisa é mínima. Inclusive porque o mar de opções e fontes de informação na Internet é extenso e tortuoso, e, se você não tem o mínimo contato com a área em assunto, é difícil saber por onde sequer começar.

Talvez o meu tom dê a entender que eu torça para que novos casos de microcefalia se multipliquem e seja comprovada a sua correlação com o vírus Zika de vez. Meu sentimento é justamente o contrário: eu desejaria muito que o quadro fosse diferente. Afinal, doenças similares à dengue se espalham facilmente por países de clima tropical e a preocupação deve e precisa ser grande.

O alerta adicional que eu tento expressar aqui é que precisamos buscar a quantidade de informações mais corretas possíveis, porque o desespero fácil por respostas prontas nos leva a espalhar meias-verdades ou completas mentiras. E há um mar de endereços virtuais ansiosos por lucrar em cima disto. Lembro que aqui falamos de saúde, portanto, todo cuidado é pouco. O desleixo com a informação, se massificado, pode causar tragédias. Tragédias ainda maiores do que a já em presente curso: a morte do jornalismo científico.

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