Enterros e Aterros

Ou sobre a constante reconstrução da memória.

Cemitério Jardim Horto Florestal. Fonte: Google.

“Achei uma cigarra filhote”, disse pro meu primo. Ele me perguntou como diabo eu saberia que era uma cigarra filhote e não uma mosca, porque aparentemente ambas são quase idênticas. Respondi: “é que ela cantava”.

Os demais parentes chegaram logo em seguida, o enterro seria às 18 horas da noite, vide o canto da cigarra, que solta a voz pelo amanhecer ou entardecer. Disso eu já sabia, antes de chuvas elas também cantavam; aliás, chovia uma garoa fina. Minha avó já estava dentro da caixa que depois aprendi ser um caixão. Eu estava relativamente ciente da gravidade do que havia acontecido e relativamente conformado. Nem lembro das explicações que me foram dadas pelos mais velhos, eu só sabia.

A minha maior angústia mesmo eram as pinhas caídas pelo chão. Eu queria correr pra lá e pra cá mas as pinhas do cemitério eram gigantescas e inúmeras; e eu pensava que eram monstros de espinho grosso dormindo e/ou a espreita de sua próxima vítima. Acima disso, a minha avó seria sepultada numa capela que ficava muito depois do mar de pinhas. Apesar de paulista, cresci na baixada fluminense e nunca tinha visto isso em Nova Iguaçu. Como lidaria com naturalidade?

(Observação. A hipótese dos monstros talvez tenha sido estimulada pelo primo citado anteriormente.)

(Outro parêntesis. Meu avô seria enterrado, quase 10 anos depois, na mesma cova da minha avó. Abriram e trocaram a caixa dela para colocarem os restos mortais de ambos lado a lado. Nesta ocasião, meu tio, tio também daquele primo, resumiu o senso de humor da família em uma frase: “Alguém vê a marca deste sapato aí porque ele ainda tá em ótimo estado.” Todos riram.)

Retomando o quadro anterior, as pinhas gigantes do que vim a descobrir depois se chamar Jardim Horto Florestal me impediram de viver uma grande aventura desbravando túmulos. E de dar adeus à minha avó. Interpreto dessa forma a memória ou nunca vou saber até que ponto eu cria de fato na ameaça lenhosa.

Outra descoberta posterior foi que a cigarra que eu vi provavelmente era um cigarro; digo, um inseto macho. Porque apenas os machos cantam e isto faz parte de seu ritual de acasalamento. Que acontece durante períodos de chuva, embora sempre chova em São Paulo, o que pode confundí-los constantemente. Portanto, a poesia da memória anterior talvez devesse ser substituída por uma mosca dublando uma outra cigarra, cigarro, cantante.

Depois desta conclusão decidi que meu maço de Marlboro se queimou sozinho e a última cerveja da geladeira evaporou.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Vinícius Soh’s story.