Na presença do Rei

Peripécias de um mundo em demolição.
Volto-me para a angústia diária,
Para o sentimento alheio,
Retorno para a casa da alma.

Este é o palácio construído pelo eterno.
Em cada corpo reside um.
E nele,
Poucos são os que desbravam seus cômodos,
Raros são os que chegam na sala do trono.

Nela quero estar,
Nela quero me ajoelhar,
Sentir o frio mármore,
Sentir o peso de cada pilastra,
Quero render graças.

Desço até lá,
Desço por que é necessário.
Desço por que serei confrontado,
Com Ele e comigo.

Em volta os santos cantam.
Em um único coro celebram a chegada do Rei.
A chegada de uma existência imanente.
Que é o eixo do mundo,
Do meu mundo.

Hoje é o dia do julgamento,
É o dia de morte,
É o dia que a justiça dele cairá sobre meus ombros.

A clemência não me foi negada.
Sussurros em meu ouvidos gritam:
Não suplique!
Não suplique a este falso Rei.

Qual Rei é o certo?
O rei do Eu?
Ou o Rei dele?

De certo que nenhum,
Mas é o Rei que é.
O que independe da minha vontade,
Da minha louca interpretação.

Este nobre de sangue azul irá me julgar,
Me dividir em dois,
Pois pecados cometi,
Pois crimes pratiquei.

Mente perturbada,
Assolada por demônios.
Criados por mim
Sim, por mim.
Nenhum Lúcifer me seduziu.

Me joguei neste abismo,
Por vontade própria,
Com a lucidez de um louco,
Pequei docemente,
Agora encaro minha criação.

Os santos param a cantoria,
Cochicham sobre mim.
Estranhamente me olham,
Mas não criticam.

Acorrentados por barbante,
Me imagino rasgando esta existência.

Que recaia sobre mim a justiça que for!
No fim isso é o que importa,
Convicto estou,
E aceito este fardo.

Um homem chega e me lê meus crime.
Sua lista não é grande,
Mas é verdadeira e sucinta.
O cinismo é posto como meu crime hediondo.

Novamente há burburinhos entre os santos,
Eu,
Nada falo,
Apenas sinto.

O homem que me acusa possúi minhas feições,
Tem minha cicatriz
E meu sotaque,
Porém não sou eu.

O Rei nada fala,
Não se abala,
Apenas olha com indefença,
Apenas escuta.

Não tenho defensor,
Nem alguém a quem chorar,
E por que haveria de ter?
Um condenado ja é condenado.

A alma aguenta uma eternidade,
O corpo não.
Por isso me alegro com o fim da acusação.
O Rei dará sua sentença.

Com seu cetro de ferro,
Ele aponta para mim.
Com seu olhar,
Denuncia meus feitos.
Porém não há raiva,
Nem ódio.

Em seus olhos vejo o meu constrangimento,
Em seu falar vejo o amor.
Por que me tratas assim?
Por que me constranges?

Ouço um cântico vindo de sua boca,
Contudo não entendo
E luto para decifrar,
Com todas as forças grito,
Mas estou mudo.
Com todo meu ar esperneio,
Mas ninguém escuta.

Assim é alma de um condenado,
Assim é o homem,
Desde o pó,
Até voltar ao pó.

Desesperado para viver,
Desesperado para entender,
Ansioso para desvendar os mistérios sagrados.

Desisto de lutar e persistir,
Não me atrevo a entender tal coisa,
Por isso me entristeço,
Por isso me deprimo.

Mas o cântico para,
E voz do Rei é audível novamente.
Elas eram doces,
Eram gentis.

Como um filho que escuta o pai,
Ouço sua sentença,
Ouço seu discurso
E me alegro.

“Serei salvo?”
Que este dia seja louvado”

O Rei abandona seu cetro,
Desce de seu trono,
Se aproxima de mim
E se pôe a sorrir.
Como uma criança,
Ele abre um largo sorriso.
Suas mãos encostam em meu rosto
E me passam a paz.

“Ó doce paz”

Em sua sincera feição,
As lágrimas caem sob o rosto,
Lágrimas de perda,
De sangue.

Seu corpo sangra
Sua coroa vira espinhos 
E suas mãos são perfuradas.

Ele porém,
Não deisa de sorrir,
Não deixa de me olhar,
Nâo deixa de se compadecer de mim.

Sou cegado pelo terror.
Me recuso a olhar tal sofrimento.
O acusado sou eu,
Por que ele está em dor?

Abro meus olhos
E vejo,
Enxergo o que seria de mim
Vejo a atrocidade tomando forma.

O justo foi crucificado,
O inocente foi morto.

Os barbantes que me prendiam,
Se converteram em correntes,
Grossas e pesadas.
Porém elas caem…
Caem e me libertam.
Me ponho a chorar,
Minhas lágrimas nao podem ser contidas
E meus soluços não podem ser calados.
Me encontro ajoelhado sob a cruz.

Um santo,
Um homem iluminado pelo divino,
Me adverte:
“O preço foi pago,
Vá pecador!
Vá e não voltes a pecar…
Mas se pecar,
Lembre-se Dele.”

Vinicius Sales