Um texto sem eu

Hoje eu abri o Medium e todos os textos continham “Eu”.

Tornar evidente o outro, sem esperar nestas rodas de ciranda, uma prenda se quer. Não é curioso como estamos fartos e vazios ao mesmo tempo? Com barrigas cheias de “si”. Cheias de veneno…Já não comemos com gosto. Já não comemos com felicidade e alegria.
A impessoalidade da vida é como um milagre no fim de tarde: Você só percebe quando o universo conspira. Ao andar por essa rua de noite, já não notas, nem se lembra do que houve. És efêmero, futuro velho.

Quando sentar para escrever, faça o favor de não ser egoísta. Teus pensamentos não interessam ao bêbado do outro lado da esquina, muito menos ao jornaleiro que ás quatro horas da manhã leria teus versos em cordel, nem a dona de casa que, por um impulso amoroso, compraria teu livro para amar sozinha.

Ela com certeza sabe da brevidade da vida. Sabe que ao pó voltará e será levada para longe, para um distante profundo, assim como a complexidade de tua alma. A prolixidade destas linhas é para lhe fazer refletir com veemência que a condição de existir é não olhar para si. Pois teu sentido está fora. Tua casa está em outro planeta, em outro sistema solar, em outro paraíso, onde Adão, por pensar em Eva, come o fruto indigno, onde Abraão ainda leva o filho ao altar de Deus. Isso é amor, isso é egoísmo divino, o único permitido. A faca seria suja com sangue inocente, sangue do pai correndo no filho. Sangue de um no outro. 
No final das contas todos somos imolados pelo simples fato de que em nós corre aquilo que os anjos não possuem. Ser sanguíneo. Se alegre, mas não se vanglorie. Você continuará vindo do pó.
Não escreva em primeira pessoa na tabuleta da praça, pois és um entre vários. És um pronome perdido em um mar de verbos. Estes dançam em meio ao discurso público — Sou, estou, sinto, minto, sofro, torço.

O que tens de tão importante para o mundo ? Nada que outro não tenha. Enterre esta soberba, cubra tua cabeça com terra e espere teu destino. Aprenda: O amor só é verdadeiro quando lhe adoecer o corpo e confunde a mente. Contudo só é benéfico quando é perene. Amas como um nostálgico que não viveu e nem viverá esta maravilha. Pare de escrever agora e pense. 
Se imagine fora de si e projete nesta oca carcaça o que há de pior nesta existência. Agora compare com o cosmo. Vê? Tu não é tão importante assim. Por isso volto a rogar, não escreva somente sobre você.

Vinícius Sales