Como se fala “pegadinha” em checo? | VIP

Por Rodolfo Viana, Revista VIP — 29/06/2011

Ninguém notou o rapaz de olhos puxados. Ele estava lá, com a câmera digital em riste, tentando achar uma brecha no meio daquele mundaréu todo. A galeria de desembarque do Aeroporto de Guarulhos estava apinhada de gente naquele 27 de fevereiro, todos se acotovelando para ver Juju Salimeni e seu escandaloso microvestido rosa. A gostosura dela dividia espaço com outras duas mulheres espetaculares, mas não tão famosas. Eram Michaela e Dominika, as checas que passaram semanas postando e tuitando que amavam o Brasil e queriam vir para cá, e que estavam prestes a ser celebridades graças ao Pânico na TV. O rapaz de olhos puxados apontava o foco avidamente para as três beldades, como se fosse qualquer transeunte mais safadinho. O que ninguém sabia naquele momento é que Vinicius Yamada era, por assim dizer, as checas.

Todos os posts, tuítes, vídeos e gostos de Dominika e Michaela foram meticulosamente moldados por Vinicius, coordenador de redes sociais da agência We. Sua missão: fazer com que as checas bombassem nas redes, sem que ninguém percebesse que se tratava de uma ação de marketing da cerveja Proibida, da nova cervejaria CBBP. Vinicius hackeou o IP de seu computador em São Paulo para que, se alguém rastreasse as postagens de Dominika e Michaela, fosse mostrado um endereço da República Checa. Ele se mudou para um flat na Alameda Campinas por dois meses para acolher as meninas, passando-se por um amigo brasileiro, enquanto elas estivessem no país. Ele foi a alma das checas na internet e a sombra delas em sua passagem pelo país.

“Ele é um monstro”, brinca Talita Alves, gerente de planejamento e social media da agência We. Se a ação da Proibida foi “marketing de guerrilha”, Vinicius foi o seu guerrilheiro mais empenhado, que “teve até a preocupação de tuitar de acordo com o fuso horário da República Checa”, comenta Piero Motta, VP executivo da agência We. Entrar no Pânico, garantem todos na agência, não estava nos planos. Eles trabalhavam com players — no jargão publicitário, pessoas e canais influentes que poderiam dar um boom nas checas. Ou seja, tuitavam para Vinny (aquele da música Heloísa, Mexe a Cadeira), davam bom dia para o Jota Quest, passavam link para o Neymar… Tudo para que esses players retuitassem ou fizessem um contato qualquer. “Eram iscas”, comenta Jader Rossetto, diretor de criação da We na época da ação da Proibida. Em um dos vídeos, citaram Sabrina Sato. O vídeo chegou à produção do Pânico. A isca estava prestes a ser abocanhada.

No dia 25 de janeiro, a produção do programa, por meio de mensagens privadas no Twitter, escreveu cinco recados para as checas. Vinicius estava a postos. A tensão aumentou na agência quando, em vez de uma entrevista ou algo parecido, os produtores do Pânico na TV revelaram que queria fazer um reality show com as meninas. Para não tropeçar nas próprias armadilhas, Vinicius e a equipe da We decidiram abrir o jogo — em parte. Dominika contou que se chamava Alicia Seffras, que era de Londres e não falava um “oi” em checo. Disse ter inventado a história toda porque queria conhecer o Brasil, mas não queria ver sua privacidade invadida. O pessoal do Pânico comprou a história.

A isca não só foi mordida, como foi degustada com calma, domingo a domingo. Desde que Michaela e Alicia chegaram ao país, o quadro “As Checas do Brasil” alçaram a audiência do Pânico, que vinha baqueando desde o fim de 2010, quando conquistava por volta de 6 pontos de audiência. Com as checas, chegou a 11.

João Noronha, presidente da CBBP, estava indo às nuvens. Sua cerveja, cujo lançamento será no começo de julho, estava no Pânico, programa patrocinado pela Skol e blindado pela AmBev.

O clima na agência ficava cada vez mais tenso. Pouco antes do Carnaval, Jader Rossetto estava diante de um bar nos Jardins, zanzando na calçada, tentando tapar com seu vaivém as duas grandes janelas do local. De fora, era possível ver Dominika e Michaela gravando chamadas da Proibida lá dentro. Com a notoriedade que elas haviam conquistado com o Pânico na TV, logo algum curioso avistaria as meninas, a cerveja… Jader queria evitar esse reconhecimento, assim como também queria se precaver. “Imagine: duas deliciosas no Rio de Janeiro, no Carnaval, com o Pânico. Para mim era claro que logo uma marca de cerveja ia falar com elas, propor que fossem garotas propaganda. Por isso, resolvi fazer o vídeo reserva antes que elas embarcassem”, explica.

Chegou um carro branco e apagou os faróis. Na carroceria, o logotipo da RedeTV. “Fodeu”, pensou Jader, suando frio, “fomos pegos.” O coração só voltou ao compasso normal quando Jader avistou uma repórter sair do prédio em frente ao bar, entrar no carro e sumir a distância.

No dia 5 de maio, Vinicius escreveu um e-mail para a agência: “Acho que o Pânico está desconfiado”, dizia. “Houve vezes em que a produtora do Pânico pediu para ver meu celular. Conversa informal, do tipo ‘ah, deixa eu ver a marca do seu celular’. Mas, mesmo assim, dava um frio na barriga”, lembra Vinicius. Por volta do dia 10 de maio, Noronha achou que era hora de ligar Michaela e Alicia à marca. Pegou o telefone e ligou para a Folha de S.Paulo oferecendo a bomba: as checas do Pânico são uma ação de marketing da Proibida. Ele próprio revelou a verdade, segundo documentos a que VIP teve acesso. O vídeo de Alan Rapp, diretor do Pânico, descobrindo que havia caído numa pegadinha ganhou a internet no dia 13 de maio. Sexta-feira 13.

O último episódio do quadro “As Checas do Brasil”, que seria exibido no dia 15, não foi ao ar. Ninguém falou mais nada sobre as meninas. Até hoje, ninguém da produção do Pânico comenta o assunto. Segundo um funcionário da RedeTV que pediu para não ser identificado, a ordem da emissora é justamente não falar sobre isso. O silêncio também é a posição da Skol, apesar de internamente na empresa existirem comentários de que a Proibida agiu mal intencionada.

A atitude da direção do programa de não se pronunciar pode ser um tiro no pé, pois blogs sugerem que o Pânico sabia de tudo. Rosana Hermann, por exemplo, que foi por quatro anos redatora do programa, escreveu em seu blog, Meu Querido Leitor: “Para mim é difcil acreditar que todos os escoladíssimos e geniais integrantes do Pânico caíram numa pegadinha”. Se eles são precavidos ou não, apenas quem trabalha internamente pode dizer. O que nós, telespectadores, sabemos é que a pegadinha das checas — intencional ou não — foi bem engraçada.

Cronologia da pegadinha Acompanhe os contatos realizados entre a produção do programa e as meninas

  • 27/1: @programapanico manda 5 DMs para @weluvbrazil. Explica que “o pânico é o programa onde trabalha Sabrina Sato”, pede para elas escreverem para Alan Rapp e pede sigilo.
  • 28/1: Marina Moyses, produtora do pânico, mandou dois replies para @weluvbrazil. Neles, pede para que as checas entrem em contato com ela por Twitter ou por e-mail.
  • 30/1: Daniel Peixoto, o Alfinete do pânico, manda e-mail para as checas se apresentando e pergunta quando e por quanto tempo elas ficarão no Brasil. Ele menciona o desejo de fazer um reality show com elas. É a primeira vez que as checas — na verdade Vinicius — respondem. Dizem que pretendem visitar o Nordeste e pedem mais detalhes do reality. Alfinete explica como será o quadro — “duas ou três horas de gravação por dia” — e se oferece para pagar viagem e hospedagem.
  • 31/1: Marina novamente escreve para as checas, agora por Facebook. Cita o reality que o programa deseja fazer com elas e pede um número de telefone.
  • 3/2: acontece o primeiro Skype entre as checas e o pânico. Com Alfinete e Alan.
  • 9/2: o pânico mostra interesse em filmar a cabeça do reality em Praga. As meninas estavam em Londres e desconversaram.
  • 11/2: conversa por telefone com o Pânico. As checas e Marina. Devido à insistência do pânico de gravar em Praga, as checas falam algumas verdades: que o nome de Dominika é Alicia, que ela é inglesa… Como estava começando um relacionamento, queria disfarçar o desejo de vir para o Brasil do namorado. As checas falaram ainda que tinham um amigo em São Paulo, Vinicius, que as hospedaria no Brasil.
  • 15/2: Marina escreve no Facebook pedindo tamanho de pé e outras medidas das checas. E avisa que elas vão desfilar no Carnaval ao lado de Gisele Bündchen.
  • 17/2: Marina mandou mensagem no Facebook confirmando agenda das checas dentro do Brasil — viagens e itinerários.
  • 23/2: Marina manda cinco mensagens — duas por Facebook e três por e-mail — cobrando uma data de chegada, a companhia de voo e um número de celular. Aqui, Marina já passa a chamar Dominika de Alicia. As checas, em contrapartida, pedem um cronograma detalhado sobre o que de fato o Pânico deseja gravar.
  • 24/2: Marina manda mensagem com todo o cronograma, que inclui São Paulo (aeroporto e trânsito no dia 28 e Rua Augusta no dia 1º), Rio de Janeiro (prova de fantasia no dia 3 e desfile na Sapucaí no dia 5), Salvador (trio elétrico no dia 8), Fernando de Noronha (nos dias 18 e 19) e Recife (nos dias 20 e 21). Esse cronograma seria mudado nos próximos dias.
  • 26/2: Marina mandou e-mail e mensagem no Facebook pedindo para Michaela e Alicia gravarem um vídeo da partida — a casa, dirigindo até o aeroporto, embarcando… “Você não precisa mostrar que é em Londres, não se preocupe.”
  • 27/2: as checas chegam ao Brasil e são escoltadas ao Pânico, ao vivo. Já Vinicius segue para o flat alugado na Alameda Campinas. Lá é a suposta casa dele, onde hospedará as checas. Março: acontecem as gravações.
  • 26/3: Michaela e Alicia deixam o Brasil. 3/4: vídeos começam a ser exibidos no Pânico.
  • 13/5: a Folha publica reportagem e vídeo com a revelação: checas do Pânico são uma ação de marketing da Proibida.
  • 15/5: data marcada para a exibição do episódio final do reality das checas. Com a revelação dois dias antes, o Pânico não colocou o vídeo no ar.

Ísla (ou seja, “números” no checo do tradutor do Google)

Cifras e índices mostram os resultados surpreendentes das meninas da proibida antes e durante o Pânico, e a queda após a revelação As checas ficaram 82 minutos no Pânico. Cada inserção de 30 segundos custa R$ 180 mil. Convertido em valor publicitário, o período de 1 hora e 22 minutos corresponde a R$ 29,5 milhões, valor que equivale a 84 vezes o orçamento da ação, estimada em R$ 350 mil.

Em 8 de maio (última mensuração realizada antes de a verdadeira história ser revelada), os 27 vídeos das checas haviam superado a marca de 1 milhão de views. Até o dia 21 de fevereiro (última mensuração antes de as checas entrarem no Pânico), este número estava em 568 mil.

Desde a criação do perfil no Twitter, em 10 de dezembro de 2010, até o primeiro episódio do reality no Pânico, as checas conquistavam em média 228 seguidores por dia. Enquanto o quadro “As Checas do Brasil” estava no ar, a média subiu para 2,5 mil seguidores por dia. Mas, nos cinco dias finais até o fechamento desta edição, houve perda: 121 seguidores por dia, em média.

Tags: cerveja checas Pânico na TV Proibida


Originally published at vip.abril.com.br.

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