seguem nos silenciando, e agora?
um desabafo

Nós estudamos, escrevemos, pesquisamos, lemos muito e falamos mais ainda, mas nem sempre. De um tempo pra cá, eu mudei, e minha escrita também. Eu li mais, falei mais e me aprofundei em minha pesquisa. Mas uma coisa nós ainda não conseguimos mudar: o silenciamento. Semana passada, eu fui silenciado por um professor meu. Ontem, uma de minhas melhores amigas foi silenciada e desqualificada por uma pessoa que, até então, era muito importante para ela. Nós falamos muito e lutamos muito contra o silenciamento, mas seguem silenciando-nos, e agora? O que faremos?
Neste texto, eu não preciso falar na figura do narrador observador, porque eu falo por mim e de mim, portanto, da minha própria história. O uso do nós é no sentido da coletividade, uma vez que somos, e não somente eu.
Quarta-feira passada, aula de Biologia (estávamos falando sobre seres vivos e origem do ser humano). Fiz algumas questões ao professor e, não sei como, de repente, ele, um Doutor branco em Biologia, começou a falar de raça. Até aí tudo bem (ou não).
“Você é negro?” — ele pergunta, apontando para mim.
“Sim” — respondi.
“Se você é negro, eu também sou, já que aqui funciona por auto-declaração” — disse ele num tom irônico.
Fiquei pasmo. Sem reação alguma.
Tive minha identidade racial questionada e nem para respondê-lo eu servi. Fui silenciado. Fui questionado da pior maneira possível. Sempre falamos que vamos combater o racismo, mas racistas estão passando. Até quando? (Neste texto, eu não falarei sobre colorismo, o que é uma pauta que me atinge muito, e, por isso, me afastei da discussão.)
A desqualificação, por mais que isso esteja dado, é uma forma de silenciamento.
Minha amiga, em uma discussão (não vale citar o contexto inteiro aqui) com a tal pessoa citada no início do texto, foi atingida com a seguinte frase:
“Você vai falar sobre racismo na filosofia? Você não vai conseguir.”
Vale citar que o emissor dessa frase é um homem, um homem que acaba de silenciar e desqualificar uma mulher preta, preta e pesquisadora, preta e intelectual.
A silenciaram, e agora?
Produzimos conhecimento, escrevemos artigos, ocupamos espaço, pesquisamos, ocupamos a linha de frente, mas somos sempre alvo de silenciamento. E agora?
Confesso que a escrita deste texto foi (e tá sendo) um processo dolorido, falar sobre uma coisa que nos atravessa é sempre um desafio, mas é preciso ter coragem, afinal, como diz Audre Lorde: se esperamos em silêncio que chegue a coragem, o peso do silêncio irá nos sufocar.
E eu, enquanto homem preto que estuda e pesquisa, não posso permitir que continuem me silenciando. Por isso eu escrevo. Escrevo porque a escrita, ao meu ver (e no da Grada Kilomba também), é um processo de tornar-se, é através da escrita que eu encontro minha cura e torno-me o autor da minha própria história. E não mais o objeto (aquele que tem sua história contada por outrem).
Ler sobre silenciamento fez com que eu refletisse mais sobre essas situações e, infelizmente, entender que a luta contra o silenciamento sistemático das pessoas pretas não garante que não seremos mais silenciadas. Mas o movimento não pode parar. Conceição Evaristo acredita que nossa voz tem tanta potência que, quando falamos, estilhaçamos a máscara do silêncio. E eu acredito nisso também. Por isso escrevo.
Em breve, escreverei mais sobre Grada Kilomba, mas, no momento, sigo na maré contra o silenciamento, e esse processo nunca é fácil.
