Burocracias Contábeis

A história não contada de J.R. & Associados


José Roberto tinha uma ideia. Recém formado em Direito, sonhava em abrir uma empresa, em abrir seu próprio escritório de advocacia. Imaginava ter dois andares inteiros em um prédio comercial, com diversas pessoas trabalhando para ele, colocando suas metodologias em prática no dia-a-dia. Tinha até o nome em mente. J.R. & Associados, e apenas J.R. para os mais íntimos.

Sonhava com J.R. bem para o futuro… Lá pelos quarenta talvez? Definitivamente depois de ter se consolidado um bom advogado. Afinal, para abrir um escritório precisaria de experiência de vida e de recursos para manter o escritório, e fazê-lo crescer.

Comentou com um amigo, formado em Administração. A sugestão que recebeu era de abrir junto com ele esta empresa dos seus sonhos. Namorou a ideia por uns dois anos, e certa vez, sem querer, foram a um contador, e este iniciou o processo de abertura da empresa.

A burocracia dos processos atrasava cada vez mais, e quando já se passavam três meses com a abertura do escritório ainda pendente, José Roberto se deu conta de que o processo estava realmente rolando para que ele tivesse seu próprio escritório, junto com aquele amigo lá de Administração que ele só conhecia tinha quase três anos.

Ligou para o seu contador.

O processo de abertura ainda está acontecendo? Positivo. Então cancela. Quero cancelar.

Seu contador grunhiu ao telefone. Cancelar? Depois de tanto empenho nesse processo. Depois de diversas alterações contratuais e mudanças no ramo de atividade. Não podemos cancelar. A essa altura é proibido cancelar essa abertura.

José Roberto ficou receoso. Achava segura cancelar a ideia logo no inicio, mas já que um especialista da área havia o advertido, achou melhor deixar para lá.

Com quatro semanas, um outro colega que estudara com ele em direito veio comentar que estava trabalhando em um ótimo escritório, e no meio da conversa ouviu o caso da — a então existir — J.R.

Ah. É melhor você cancelar isso logo! Dezesseis semanas de abertura rolando aí, e quando abrir vai fazer o quê? Você não tem nome reconhecido, não tem verba pra manter. Eu sei que esse é o sonho de todo mundo, e a ideia que quase todos têm, mas se você a fizer agora, só vai fazer mal pra você, para a empresa que esta por existir, e até para o seu amigo de administração.

Depois de seis meses, nada da abertura sair. Em uma reunião com o contador para entender a demora, José Roberto e o seu, então, sócio entraram em uma discussão.

— É melhor cancelar isso. — O que? Desistir da ideia? — É, desiste agora e a gente monta depois. Quando você já tiver mais experiência em administração e eu em direito. — Ora, isso não existe, essa ideia veio agora, então ela tem que existir agora. — Mas você não sabe como é. Eu que sou formado em direito que vou ter que aguentar tudo. Vou ter que fazer todo o processo de crescimento da empresa, trabalhar com tudo… Você vai só administrar. — Ei! Não menospreza a minha contribuição não. Nós somos sócios igualitários. — Tá, desculpa, não quero diminuir, mas espero que você entenda que exige mais de mim do que de você. Não quer tirar o seu crédito e a sua contribuição, mas é o meu nome na empresa, e eu decido o que fazer com ele. — Não. Essa empresa é maior do que você, ela vai existir mesmo que você não queira. — Mas ela não vai ter futuro. É bom desistir agora que ela ainda nem começou. — Como você sabe? Já começamos a fazer a divulgação, a imprimir papeis timbrados, a fazer os talões de nota, criamos toda a identidade visual. Seria um pecado jogar fora. — Mas seria melhor ter a empresa no futuro, quando tivéssemos mais condições de mantê-la e fazê-la crescer. — Não. Começou agora, vamos continuar.

Com esse clima de desigualdade, José Roberto sentiu-se injustiçado. Era seu nome, ele deveria ter o direito de fazer o que quiser. Procurou a justiça, mas não a encontrou. Não haviam leis que o amparassem. Foi atolado de burocracias de contabilidade que o obrigaria continuar com a abertura de sua empresa, mesmo que isso causasse sua falência pessoal.

Finalmente, depois de nove meses o processo foi liberado e J.R. ganhou vida.

José Roberto já não era mais amigo de seu ex-sócio amigo de administração. Não conseguia evoluir profissionalmente pois tinha que cuidar de sua empresa, que conseguiu se manter nos primeiros anos, mas a falta de estrutura e experiência de ambos seus sócios, e o ambiente hostil dentro da empresa, devido a rivalidade e discórdia no processo de abertura, condenou o destino de J.R. ao fracasso, e a sua eventual falência prematura.

José Roberto estava morto profissionalmente. Jamais conseguiu outro trabalho na área, pois seu nome foi perdido com a empresa. O seu ex-sócio facilmente montou uma empresa em outro ramo, já que não foi muito prejudicado com a falência de J.R. & Associados.


Essa história é apenas um exemplo dos milhões de advogados que, por burocracias contábeis, são obrigados a abrir seus escritórios de advocacias, mesmo que tenham dado inicio ao processo por acidente.

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