Para onde caminha a indústria da moda?

Das perguntas que faço sobre a área que escolhi, essa é a que pulsa com mais frequência dentro de mim. Mesmo inserido no mercado de trabalho e finalizando o curso de graduação, ainda não compreendo o fluxo das coisas. Aliás, estou longe disso.

Entendo que toda a profissão carregue seus estereótipos, assim como qualquer papel desempenhado por nós. O problema é a intensidade e relevância desse tipo de rótulo na moda. Lembrem-se: quanto mais brilho, mistério e hierarquia (principalmente se imposta por um viés econômico) mais camuflado está o lixo.

Aqui vai um mini-micro-manifesto de um estudante de design de moda que realmente se importa com a área:

Eu não quero seguir tendências.
Eu não quero saber o nome de todos os estilistas.
Eu não quero bombar meu instagram com looks do dia.
Eu não quero trabalhar em grifes.
Eu não quero ir a todas as fashion weeks.
Eu não quero andar com pose elitista.

Eu quero me preocupar com o desenvolvimento do design de moda, sim, e falo agora de moda como expressão individual. A imagem que temos corresponde ao meio de nos comunicarmos e apresentarmos no mundo. A roupa é pele e não venha me dizer que tem o objetivo de apenas “cobrir as vergonhas”. Não!

Roupa é remédio. Roupa é proteção. Roupa é impressão-expressão. Roupa é troca.
Pasmem, moda não é roupa, entretanto, roupa é parte do amplo universo da moda.

Entendam: o design de moda é pouquíssimo reconhecido no Brasil.
Na universidade, realizamos pesquisas com rigor, afinal, a área ainda está em processo de experimentação — isso mostra uma não estagnação de seu sistema. Aspectos como moda-expressão, sustentabilidade, slow fashion e os outros mil, igualmente encantadores, que permeiam a moda são sentidos, vivenciados e empregados ao curso de moda.

O problema mesmo é o mercado de trabalho, tradicionalista ao ponto de declarar tais conceitos como utopias.

As grandes indústrias da “moda” (lê-se fast fashion) brasileira, dominadoras do mercado, fazem o contrário do que somos ensinados:

Não há perenidade nos produtos — a roupa comprada hoje é descartada em um mês de uso.
Não há preocupações sustentáveis — reflita sobre o processo de lavagem dos jeans, por exemplo, desses que todo mundo encontra numa multimarcas por sessenta reais.
Não há tanto cuidado assim com processo de desenvolvimento, construção de fibras e, muito menos, terceirização. O importante é ver a novela e produzir logo, antes que as peças venham da China extremamente baratas e a confecção imploda em resíduos têxteis outra vez.

E, por último, a moda afável, correta e apaixonante não é para o bolso de todos. Se eu me estender nesse assunto, o pensamento do texto tomará um caráter político que, sinceramente, não é meu objetivo.

Está na hora de a moda nos mostrar e nos fascinar com o que é possível, nos propiciar o imperativo moral de mudar cada aspecto da produção e da nossa segunda pele. Acredito firmemente que a humanidade sabe o que fazer quando conhece a tarefa que tem em mãos. (FLETCHER E GROSE, 2011)

Minha meta é encontrar uma maneira de contribuir com a tão-querida-moda. Àqueles que se aproximam da área, faço deste texto um apelo: não se conformem. Aos que compartilham das preocupações aqui clamadas,

nademos contra a corrente.