Só o que resta

A perfeição é imaterial e qualquer tentativa de evocá-la nesta realidade a tornará nula.

Isto seria um texto sobre o amor — aquele que, quando não dito, tange o universo dos perfeitos. Embora, por tentar aqui dizê-lo, fará parte da ilusão. Claro, comprometo-me a relatar o pouco que percebo; mesmo que, por amor, já esteja muito influenciado.


O amor pode ser vislumbrado por correntes filosóficas, mas é impossível encaixotá-lo: ele é, paralelamente, niilista, solipsista e empírico. Quando correspondido, enlaça corpos em uma espécia de ritual, guiado pelo conceito Junguiano de Sincronicidade.

A tendência sensorial é a de formatar, concretizar, moldar. Por outro lado, o amor reside em uma poesia nem escrita, nem entoada. Um quote do filme Her, de Spike Jonze, emoldura esse clichê em diálogo:

Samantha: It’s like I’m reading a book… and it’s a book I deeply love. But I’m reading it slowly now. So the words are really far apart and the spaces between the words are almost infinite. I can still feel you… and the words of our story… but it’s in this endless space between the words that I’m finding myself now. It’s a place that’s not of the physical world. It’s where everything else is that I didn’t even know existed. I love you so much.

Tenho para mim que esse tal “espaço-entre” é o próprio amor e, nele, moram as ideias — elas estão brincando entre mundos, conectando opostos, germinando morte e esgotando vida, tudo junto. Talvez só desse jeito para arriscar um entendimento sobre o amor, no fundo das metáforas.

A superficialidade se coloca frente ao sentimento na gangorra das definições e enuncia, para ele, palavras falhas como leve ou simples. Aliás, para cair em contradição, basta tentar isso: ditar modos de amar àqueles que amam. No entorno dessas afirmações, programam-se padrões de relacionamento (os socialmente aceitáveis). O longa metragem The Lobster, de Yorgos Lanthimos, levanta, em meio à distopia, uma crítica a tais matrizes.

The Lobster (2015)

O enredo lembra um ensaio de Saramago; pauta-se num porvir onde, segundo a lei, adultos não podem ser solteiros. As relações mostradas no filme são condicionadas por códigos similares aos nossos — a diferença está na hipérbole, que torna a narrativa grotesca e a usa para atingir a moral de um sistema totalitário.


A própria beleza do amor já é princípio de subordinação: o amado tem poder sobre quem o ama, afinal, depende dele para seguir amando. Dentre caminhos, histórias sobre o amor vagam entre maneiras de amar e ser amado. Provavelmente foi como nasceu o soneto que tenho como favorito, La Danza, de Pablo Neruda:

No te amo como si fueras rosa de sal, topacio
o flecha de claveles que propagan el fuego:
te amo como se aman ciertas cosas oscuras,
secretamente, entre la sombra y el alma.
Te amo como la planta que no florece y lleva
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores,
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo
el apretado aroma que ascendió de la tierra.
Te amo sin saber como, ni cuándo, ni de donde,
te amo directamente sin problemas ni orgullo:
así te amo porque no sé amar de otra manera,
sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.

E também, o monólogo de Sarah Kane inserido na peça Crave, transcriado no curta abaixo:

Desmedidos, amantes buscam ceder o si mesmo e navegar por outra carne, outro sangue, outra ossada. Ainda assim, ao abrir dos olhos, se veem obrigados a encarar o fato de que continuam vivendo em si. Contudo, o amor é sinestésico: beijos são experimentados em simples trocas de olhares e, através de abraços, indivíduos inteiros são teletransportados para onde quer que seja.

Uma vez li, de autor desconhecido, que “só o amor e a morte mudam todas as coisas”. Noutra, me foi esclarecido, “love finds a way”. 
Em termos absolutistas: amar é só o que resta.