Sobre ser esquisito.

Ser esquisito é normal?

Eu sempre fui meio esquisito. Não, eu não sou como esses caras que sequestram crianças e amputam todos os membros, pra ter uma real doll, nem tiro a pele das minhas vítimas para vestir por cima da minha num ritual ao deus Satã, nada disso. Talvez excêntrico seja uma palavra melhor, ou diferente.

Fui criado pela minha mãe, e com a minha irmã, quatro anos mais velha, em apartamentos pequenos. Nunca tivemos luxo e nunca foi necessário. Lembro claramente de mamãe dormir em um colchonete para que os dois filhos dormissem na beliche, por ANOS. Mamãe tinha uma pequena confecção, que basicamente servia para pagar as contas. Nunca viajamos, nunca tivemos carro, nunca estudamos em escolas particulares. Não tinha luxo e nem muitas opções. Mas acho que nunca reclamamos desse cenário, nem minha irmã, nem eu. A nossa criação foi boa, com boa educação, dentro e fora da escola. Nunca tive pais abusivos e nem ausentes. Sou um clássico filho dos anos 80, com pais que trabalhavam muito até tarde, fazendo sacrifícios pela família. Nunca tive um Super Nintendo (na verdade só tive dois videogames, da CCE, um top game e um turbo game, que aceitava cartuchos japoneses e americanos!)… Mas mal podia jogar, pois “estraga a TV”. Nunca tive um Maximus, meus brinquedos eram meus Comandos Em Ação e meus bonecos do He-Man, que, inclusive, tinha vários! Uma caixa de sapato repleta de bonecos e alguns veículos de combate (como a lancha Guarda Costeira) espalhados pelo quarto. Cobra de Ferro, Snake Eyes, Destro, He-Man, Stratus, Aríete, Esqueleto… foram os responsáveis pela minha diversão solitária, mas volta e meia encontrava algum amigo para bolarmos missões imaginárias com dezenas de bonecos.

De fato, minha diversão mesmo era quando podia me sentar solitário e em silêncio para ler e reler as minhas dezenas de gibis da Mônica, Cascão (meu preferido) e do Cebolinha, ler contos de mitologia, os quinze volumes da Enciclopédia Conhecer, os livrinhos da Coleção Serelepe e todo o tipo de revistas que tivesse em casa, sobre qualquer assunto. Com oito anos comecei a ler Monstro do Pântano e também me interessei pelos quadrinhos do Menino Maluquinho, do Ziraldo. Mas mamãe não gostava que eu ficasse “desperdiçando” meu tempo com leitura: ela queria mesmo é que eu fosse lá pro Aterro do Flamengo pegar sol, correr e jogar bola. Desnecessário dizer eu odiava fazer isso e sempre dava um jeito de voltar logo pra casa. A estratégia da minha mãe de tentar me transformar no filho atleta nunca funcionou. Nunca funcionaria… Olhando agora pra trás, acho que ela não estava preparada para ter um filho nerd: ela sempre quis o filho atleta, que nunca teve. Ao invés disso teve o filho esquisitão, que pirava com Viagem Ao Mundo dos Sonhos, De Volta Para o Futuro, Viagem Insólita, Jiraiya, Changeman… Que preferia ver Piranhas Assassinas ou Pague Para Entrar e Reze Para Sair, ao invés de ver o “filmão” da Tela Quente. Que ouvia Metallica, Sepultura, Guns e Iron Maiden, ao invés de curtir o novo do Legião Urbana. O filho que nunca teve time de futebol e que nunca se interessou por Ayrton Senna ou que não via motivos para acordar cedo no domingo para ver qualquer corrida que fosse. Acho que hoje ela entende e já se conformou.

Mad nº67 — Editora Record

Lembro claramente do meu primeiro contato com a pop culture, com a MAD nº 67, em 1990, com Gremlins na capa. Lembro de quando escrevi e desenhei meu primeiro gibi “Machadadas do Terror”, mais ou menos na mesma época. Lembro de jogar RPG na sala de aula com amigos como eu, que faziam o dever rapidão pra poder continuar a campanha do D&D importado que jogávamos traduzindo no dicionário. De jogar Spellfire na escola. De amar filmes e quadrinhos de terror. De ir ao Castelinho do Flamengo ver Cosmos, do Carl Sagan na videoteca. De me maravilhar com a Comic Mania, em 1994, quando conheci pessoas como eu, quando conheci o Ota ao vivo (meu primeiro ídolo – posteriormente conheci também o Ziraldo) . De ir ao show do Ratos de Porão e Sepultura, no Imperator, em 1996. De sempre ser esquisito. Hoje em dia todo mundo é meio estranho. Pop culture está em todos os lugares, virou moda, se incorporou ao mainstream (amém!) e faz parte da vida de todo mundo. Eu ainda não deixei de ser esquisito, mas é meio louco ao mesmo tempo ficar feliz de encontrar pessoas como eu e ainda assim sentir um certo ciúme por todo mundo conhecer aquelas coisas que só eu conhecia.

Quando penso que um dia eu posso ter filho(a), sempre penso como seria bacana que ela fosse “esquisitinha” também, que tivesse seus próprios gostos particulares, seus tesouros escondidos, ao invés de seguir a modinha. Uma Vandinha, ao invés de uma Barbie. É interessante e assustador pensar nisso, pois sei quanto é importante para as novas gerações o lance de ser aceito e fazer parte de um grupo e imagino que pais de hoje em dia passem por esse dilema diariamente: o meio termo deve ser extremamente difícil.

Com esse excesso de informação todo mundo sabe tudo e talvez eu tenha perdido tudo que me fazia diferente e especial, de certa forma. Acho que preciso arrumar outras esquisitices…