Fomos ao Vale do Silício saber como eles hackeiam seus governos por lá

Quem acompanhou a #HackersNoVale viu que, no mês de julho, o Núcleo Digital fez uma viagem para o Vale do Silício e ao Sul da Califórnia para conhecer algumas iniciativas americanas que trabalham com engajamento, participação e ativismo através do desenvolvimento software com o intuito de aprimorar a democracia do século 21.

São Francisco, aqui vamos nós!

Visitamos o Nation Builder, o Code for America, Digital Democracy, San Diego Regional Data Library, Price School of Public Politics e o gabinete de Dados Abertos da prefeitura de San Diego, ainda em desenvolvimento — projetos, empresas e programas que procuram otimizar a transparência de dados, as demandas da sociedade em rede e estimular uma melhor compreensão das políticas públicas com a ajuda do desenvolvimento de software.

Núcleo encontra Nation Builder no sul da Califórnia

Neste relatório, iremos analisar algumas características próprias dessas organizações e buscaremos mostrar, também, diferenças entre o trabalho deles e das iniciativas brasileiras.

Menos ativismo político e mais organização civil

A diferença mais nítida entre essas organizações supracitadas e as brasileiras é o tipo de ativismo que disseminam. Os americanos, talvez por terem um espírito mais neoliberal que o brasileiro, têm uma cultura de organização menos voltada para o Estado. Percebem um problema e procuram solucioná-lo juntos, mas sem indagar se a solução deveria advir do poder público. Aliás, ao contrário: preferem fazer por si mesmos, sem comunicar com o governo. O que pode ser interessante e denota um pragmatismo, uma cultura “maker” admirável. Por outro lado, entretanto, não fazem questão, ao que parece, de “hackear” a política, de modificar aspectos dos sistema, educar a sociedade e ajudar a criar um “senso crítico” que mude, efetivamente, paradigmas de governo. Por vezes parece que eles se utilizam dessas iniciativas para resolver um problema comum, mas que não fazem questão de mudar a cultura de um modo geral.

Campus da Calpoly, a faculdade politécnica da Califórnia

De todas as iniciativas que visitamos, a única que pareceu incluir na agenda formas de mudar o comportamento político foi a Digital Democracy, uma plataforma de monitoramento e controle social sobre representantes da Califórnia criada pelo Instituto de Tecnologia Avançada e Políticas Públicas da faculdade politécnica de San Luis Obispo. A plataforma funciona como um buscador de assembleias e audiências públicas, permitindo ao usuário pesquisar temas de seu interesse que estão sendo discutidos pela Assembléia Legislativa do seu Estado.

Segundo Christine Robertson, uma das diretoras do programa, a única maneira de mudar a cultura política é intensificar esse tipo de cobrança. Afinal, os representantes têm egos muito frágeis, voláteis, e irão prestar contas à sociedade quando forem expostos, concluiu. Talvez a explicação para este projeto ter uma vontade política diferente dos demais esteja na estrutura de sua equipe. Ele é dirigido por um ex-senador e antigos assessores de governo, o que talvez seja essencial, no caso americano, para a compreensão e vontade de mudança desse universo.

Mas esse não parece ser o objetivo geral das organizações visitadas. Ao conversar com Eric Bloosom, diretor do San Diego Regional Data Library, por exemplo, notamos essa característica pragmática e menos questionadora do sistema. Ele é um engenheiro de software que faz relatórios sobre questões sociais de San Diego a partir dos dados disponibilizados pela prefeitura a pedido de jornalistas e organizações sem fins lucrativos. Disse que há vários dados abertos na web, e que “não adianta ficar brigando com o funcionário público para querer mais dados, e sim usar os que estão aí”. Faz sentido, em parte, uma vez que a ideia é produzir informação e divulgar os dados disponibilizados. Mas, por outro lado, falta vontade política de questionar por que, por exemplo, eles não abrem outros dados.

Organização de encontros

Essas inciativas conseguem desenvolver seus projetos com rapidez e eficiência por conta do modelo de organização que propõem. O Code for America em São Francisco, por exemplo, promove encontros semanais chamados Civic Hack Nights que envolvam necessariamente o desenvolvimento de algum produto para aprimorar a qualidade de vida local de seus participantes.

Code for San Francisco promove encontros semanais para desenvolver projetos cívicos

O Nation Builder faz almoços e happy hours voltados para metodologias de trabalho e operacionalização de projetos. É produtivo e eficaz, porque estimula a criação de produtos, ao mesmo tempo em que une pessoas que advogam pela mesma causa. É algo que dá ritmo e vida a projetos que, se não tiverem um acompanhamento, podem cair facilmente no ostracismo.

O escritório do Nation Builder fica em Los Angeles

Dificuldades semelhantes

Pensando em nível de governo, eles parecem ter dificuldades semelhantes às nossas com relação à abertura, transparência e prestação de contas via web. Sempre que explicávamos que temos dificuldades de instituir uma cultura web no governo na tentativa de aprimorar nossa democracia, ouvíamos que eles padecem do mesmo mal. O que nos levou a concluir que talvez o ritmo dos nossos governos — no que tange a sua presença na Internet e a intenção de abertura para essa modernização — estejam na mesma página.

Interesse na América Latina

Percebemos, também, que há um interesse geral voltado para o que estamos fazendo no Brasil e região. Alguns foram mais a fundo, como o Nation Builder, ao propor um compartilhamento de conteúdo para divulgar nossas iniciativas — um programa voltado para a América Latina em especial.

Sentimos, entretanto, que falta um pouco mais de conhecimento geral sobre a América Latina — algo muito característico ao se falar em Estados Unidos, uma cultura tão fechada em si mesma.

Financiamento

Campus da Price School for Public Politics

Esses projetos são em geral financiados por Fundações e Universidades, o que é algo recorrente e cultural nos Estados Unidos. Lá as instituições se preocupam em financiar projetos de cunho social. Também conseguem verba vendendo um software como um serviço, como o faz, por exemplo, o Nation Builder, ou através de prestação de serviços, como o San Diego Regional Data Library.

Conclusão

Depois de 15 dias de viagem, diversas visitas e reuniões, notamos diferenças significativas entre o trabalho das organizações americanas e brasileiras que trabalham com desenvolvimento de software e ativismo. Eles, mais pragmáticos, se preocupam em trabalhar demandas sociais locais, seja de uma cidade, bairro ou grupo específico. Nesse sentido, não parecem questionar o modus operandi do governo e exigir a sua abertura e transparência; no entanto, conseguem produzir muitas benesses sociais em pouco tempo, uma vez que se comprometem para fazer projetos saírem do papel. Sentimos falta de uma veia questionadora, que exija mudanças operacionais do sistema, mas ao mesmo tempo nos admiramos com sua capacidade de desenvolver as ideias que se proporcionam a fazer.

Um dos muitos morros de São Francisco

Para deixar nossa experiência mais interessante, contamos com ajuda dos membros do HackersNoVale, um grupo formado no Telegram de troca de ideias e informações sobre o Vale do Silício. Foi muito importante contar com esse processo colaborativo e, daqui pra frente, esperamos que ele se fortaleça cada vez mais.

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