Dan Rather virou Youtuber!

Em janeiro deste ano, os influenciadores da internet receberam um reforço de altíssima credibilidade. Nada mais, nada menos que um dos maiores âncoras da televisão mundial vivos virou youtuber. Do frescor de seus 86 anos, Dan Rather viu que esses tempos difíceis clamavam pela sua presença e na esperança de dialogar com os millenials resolveu voltar justamente para onde eles podem estar — a Rede.

“The News w/ Dan Rather” é uma parceria de sua News and Guts com o canal de youtube The Young Turks. O TYT é um canal alinhado aos progressistas americanos, que aposta em notícia para jovens na internet e recebeu $20 milhões de investimento no ano passado.

Em entrevista a CNN para anunciar seu retorno, Rather disse que sua principal motivação é a atitude hostil de Donald Trump contra a mídia — “eu fortemente sinto que quando um presidente continuamente ataca a imprensa, indivíduos e veículos específicos e chama a imprensa de inimiga do povo — ouça, temos que resistir”

Sobre estar agora no The Young Turks, Rather disse à Variety : “eu sempre acreditei na importância do jornalismo independente como o coração pulsante da liberdade e da democracia e, cada vez mais, importante e forte em nosso clima atual. Eu admiro o que caras como o The Young Turks faz para manter o jornalismo independente vivo, para falar a verdade para o poder e fazer os millenials ficarem interessados em política e notícias ao longo do tempo”.

O episódio de estreia em 22 de janeiro de 2018

O programa é semanal. É disponibilizado às segundas-feiras em horário um pouco anterior ao habitual dos telejornais de fim de noite — 17h30. Estreou em 22 de janeiro. Dura meia hora. Basicamente, o programa é Dan Rather olhando para a câmera e discorrendo por três ou quatro assuntos com muita pouca ilustração.

Chato? Talvez. Mas serve a um público que está cansado de tanta correria e precisa de mais análise e de ajuda para contextualizar esses tempos tão loucos… Rather fala sobre as notícias mais recentes e sobre outras que não receberam destaque nos outros veículos

Os números do canal? Modestos. Mesmo para a audiência do canal são pequenos. O primeiro episódio exibido desde 22 de janeiro tem 107 mil visualizações. O segundo tem 49 mil; o terceiro, 28 mil e o mais recente, 25 mil.

Ainda pouca gente está ouvindo os recados de Rather, mas o episódio mais recente ele encerra com uma mensagem essencial para quem está desesperado com estes tempos difíceis de autoritarismo que ele vê não só nos Estados Unidos, mas em várias partes do mundo. Ele conta que muitos jovens, com medo, o abordam para perguntar se este é o fim da democracia. Ele responde que não, que só será se não resistirmos. Ele vê o medo como um bom motivador para que as pessoas não se deixem cair no ceticismo, mas que se organizem e lutem.

Os três minutos e meio finais contem um recado importantíssimo
Several young people, both in the early 20s, stopped me in airports this past weekend to say — I’m paraphrasing here — “Mr Rather, we’re scared, downright frightened, with what’s happening in our country and to our government. Is this the beginning of the end of America as we and our forbearers have known? it is this how democracy ends to which I respectfully announce a better answer:
- No, we, as a people, as a society, as a nation, as a constitutional republic based on the principles of freedom and democracy are not falling apart at the seams are crumbling. We are going through a particularly perilous period in our history with anti-democratic trends increasing not only in our own country, but in many places around the world, whether this trend continues to grow or abates or withers away in the United States depends on how a majority of citizens respond now and in the months and years ahead. If enough citizens reject the current authoritarian assault on our institutions then the tide will turn, the ballot box will be the ultimate decider. Fear can be exploited and is being exploited rather success for now by the forces of authoritarianism, but fear can be a great motivator for citizens who are opposed for all of those Americans young and not so young who are fearful that our democratic system is near the end.
A gentle suggestion if you don’t like who is in power and what they’re doing don’t fret , don’t dither or descend into defeatism, take heart, get busy, be active, organize. There is a great battle underway for the soul of our country whatever side you’re on this is not a fight any of us should sit out. This is the moment. Now is the hour to stand and be counted with that I’ll leave you for this new cycle.

Coragem!

Dan Rather sucedeu Walter Cronkite — o criador da função e maior âncora de todos os tempos — na bancada do CBS Evening News em 1984. Ficou durante vinte e quatro anos na bancada daquele que era o telejornal de maior audiência da TV americana.

A função de âncora apareceu com Cronkite . O âncora acumula duas funções — a de apresentador de telejornal , mas principalmente, a de editor-chefe. Pode-se dizer que é o editor-chefe que virou apresentador e não o contrário. Diferentemente da maior parte dos apresentadores de tv atuais, o âncora tem o domínio do telejornal não porque apenas leu as laudas, mas sim porque ele escolheu e hierarquizou as notícias, escreveu a maior parte das cabeças que ele vai ler, participou do planejamento daquele dia e ainda eventualmente escolheu o que comentar. Há muita confusão nesse conceito. Neste momento na tv aberta brasileira somente William Bonner pode ser chamado de âncora.

Outro fator valioso para quem quisesse virar âncora era a experiência e a credibilidade adquiridas com o trabalho de repórter. No caso de Rather, ele se destacou muito na cobertura do assassinato do presidente Kennedy. Isso impulsionou sua carreira e o levou a ser o correspondente da CBS na Casa Branca. Depois, em Londres e no Vietnã. Antes de ir para a bancada, cobriu o governo Nixon e seu impeachment.

Cronkite encerrava sempre o jornal com a frase “Isto é o que é” (“That’s the way it is”). Rather tentou então achar outro bordão. Em 1986, tentou a palavra “Coragem!” , mas foi muito ridicularizado. (Mal sabia ele que o Chico Pinheiro ia usar a mesma palavra quando assumiu a bancada do elitista “Bom Dia Brasil”). Acabou usando por quase duas décadas o encerramento “Isto é parte do nosso mundo nesta noite” (“That’s part of our world tonight.”)

A sua despedida da bancada em 2005 é emocionante:

Nós compartilhamos bastante nestes 24 anos que nós nos encontramos em cada noite, e antes que eu diga “boa noite” esta noite, eu preciso dizer obrigado. Obrigado para os milhares de maravilhosos profssionais do CBS News, do passado e do presente, com quem tive a honra de trabalhar nestes anos. E um profundo e sentido agradecimento, para todos vocês, que permitiram que entrássemos em suas casas ; foi um privilégio e sempre tratamos isso a sério.
Logo que virei âncora, eu, por um breve momento, encerrei os jornais com a palavra “Coragem”. Eu quero voltar a isso, numa forma diferente: para uma nação que ainda sofre com o que aconteceu em 2001 , e especialmente para aqueles que se encontram perto dos eventos de 11 de setembro; para nossos soldados, marinheiros, aeronautas e mariners, em locais perigosos; para aqueles que enfrentaram o tsunami, e para aqueles que sofreram com desastres naturais e precisam encontrar motivação para reconstruir; para os oprimidos e aqueles que sofrem com dificuldades financeiras ou problemas de saúde; para aqueles colegas jornalistas em lugares em que mostrar a verdade significa se colocar em risco; e para cada um de vocês, Coragem.
We’ve shared a lot in the 24 years we’ve been meeting here each evening, and before I say ‘Good night’ this night, I nee d to say thank you. Thank you to the thousands of wonderful professionals at CBS News, past and present, with whom it’s been my honor to work over these years. And a deeply felt thanks to all of you, who have let us into your homes night after night; it has been a privilege, and one never taken lightly.
Not long after I first came to the anchor chair, I briefly signed off using the word, ‘Courage.’ I want to return to it now, in a different way: to a nation still nursing a broken heart for what happened here in 2001, and especially to those who found themselves closest to the events of September 11; to our soldiers, sailors, airmen and marines, in dangerous places; to those who have endured the tsunami, and to all who have suffered natural disasters, and must now find the will to rebuild; to the oppressed and to those whose lot it is to struggle in financial hardship or in failing health; to my fellow journalists in places where reporting the truth means risking all; and to each of you, Courage.
For the CBS Evening News, Dan Rather reporting. Good night
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