E assim, se te enxergarem, chegado,
mesmo que desconheçam teu real estado,
terás colhido um verso contra o que em ti resistia.
O banco de concreto, de azul chicoteado,
o ônibus, sempre no caminho, velho aposentado,
o bicho de carga aleatório, de costas para o santuário.
Não, nada disso ainda é poesia.
A cidade também não o é.
A cidade, até há pouco, nem sequer existia.
Não até o atrevimento no beco rabiscado
ou o pouso no eco da ordem dos passos.
Não até o toque do reparar, em todo seu significado.
Certa hora, soube-se de alguém que olhou para o banco dessa praça
e, como quem furta, cedeu ao desejo vindo de lugar além do cansaço,
que pudesse sentar, largar a mochila e nunca mais arredar dali,
até as eras secarem, ou virar um com o chão ou o sol não mais resistir.
Noutra feita, esse mesmo indivíduo
foi visto a caçoar de um ônibus maltrapilho,
mas o que ninguém jamais se dera conta,
era que ele consigo ria
da placa presa ao para-brisa, que dizia
“PROIBIDO PEGAR CARONA”.
Outra vez esse sujeito, em sua desfaçatez,
viu um menino oculto, de camisa verde-e-amarela,
que acariciava a testa de um jumento estacionado
no meio daquela praça da capela de sinto tombado.
Foi aí que, então, com eufórica alforria,
ao virar a esquina, o ser solto pensou,
“este fruto silente. Isso, sim, é poesia!”
