A PRAÇA MOVEDIÇA

J. Torres
J. Torres
Nov 3 · 1 min read

Não tenhas pressa no achar de que tudo é poesia,

espera a barca bater no outro lado,

atracar sob o anoitecer, oriunda de quando dia.


E assim, se te enxergarem, chegado,

mesmo que desconheçam teu real estado,

terás colhido um verso contra o que em ti resistia.


O banco de concreto, de azul chicoteado,

o ônibus, sempre no caminho, velho aposentado,

o bicho de carga aleatório, de costas para o santuário.


Não, nada disso ainda é poesia.

A cidade também não o é.

A cidade, até há pouco, nem sequer existia.


Não até o atrevimento no beco rabiscado

ou o pouso no eco da ordem dos passos.

Não até o toque do reparar, em todo seu significado.


Certa hora, soube-se de alguém que olhou para o banco dessa praça

e, como quem furta, cedeu ao desejo vindo de lugar além do cansaço,

que pudesse sentar, largar a mochila e nunca mais arredar dali,

até as eras secarem, ou virar um com o chão ou o sol não mais resistir.


Noutra feita, esse mesmo indivíduo

foi visto a caçoar de um ônibus maltrapilho,

mas o que ninguém jamais se dera conta,

era que ele consigo ria

da placa presa ao para-brisa, que dizia

“PROIBIDO PEGAR CARONA”.


Outra vez esse sujeito, em sua desfaçatez,

viu um menino oculto, de camisa verde-e-amarela,

que acariciava a testa de um jumento estacionado

no meio daquela praça da capela de sinto tombado.


Foi aí que, então, com eufórica alforria,

ao virar a esquina, o ser solto pensou,

“este fruto silente. Isso, sim, é poesia!”

J. Torres

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