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Minicontos sobre famílias e o Natal

Era Natal e aquela mesa estava farta outra vez. O bacalhau reapareceu, a passa surgiu, a castanha brotou e o pavê foi relembrado. Os presentes foram comprados e estavam debaixo da árvore de natal. As crianças não entendiam muito bem aquilo — tudo bem parecido como era no meu tempo. Mas uma coisa havia mudado: a história. A história dos meus antepassados estava perdida, assim como o real significado daquela festa. Lembro dos meus avós e o respeito que tínhamos por eles. O Natal era alegrar os mais velhos e agradecer; já que por meio deles poderíamos estar vivendo aquele momento. Hoje na mesa a atenção é dividida com o celular, os presentes devem possuir marca e cada um só quer se promover naquele ambiente. Em pouco tempo falamos de quem não veio e esse é sempre um momento que todos concordam e tem algo a falar. Poderíamos ligar para ele e dizer que sentimos sua fala, mas preferimos dizer o quão ele era ingrato e se afastou da família. Nenhum presente era bom o bastante, era sempre algo que quem comprou se presentearia, mas não importava o gosto outro. O prazer é comer bastante e sair com algum presente bom. …


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Rômulo saiu de casa. Ele precisava respirar e sair daquele cubículo chamado de quarto onde ele se aprisionava toda vez que queria paz. Dividia a casa com o pai amável e a madrasta acomodada. Às vezes seus momentos de paz são apenas momentos entre guerras em casa. Ele não sabe como o seu pai se sujeita a esse casamento. Ele ainda não sabe, mas ele tende a seguir isso. Toda critica acumulada agarra a sua personalidade e o molda para ser igual ao seu antigo herói. “O relacionamento é um abuso, é doar… doar… e um dia não receber nem 10%” — dizia ele, ao analisar toda aquela situação. Do outro lado, sua mãe também tinha um relacionamento — outro que ele não entendia o motivo. O que ele mais queria era ver os dois juntos, mas esse era um sonho antigo — outro que não seria realizado. Ora ele se relacionava com alguém parecido com a sua mãe, ora ele se tornava o seu pai. Faz um tempo que ele decidiu não ter filho — não gostaria de gerar outra criança nas mesmas condições dele. Faz um tempo que ele decidiu não se casar — não queria aquele futuro que acompanhava por anos em casa. Faz tempo que ele decidiu não acreditar nas pessoas, nas paixões e nas comédias românticas da sessão da tarde. Rômulo era uma boa pessoa, mas tinha se tornado tudo aquilo que ele não queria. …


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Gustavo completava 2 anos de terapia. Ele estava no meio de sua sessão onde o tema era relacionamento amoroso. Havia 2 anos do término do seu último namoro e ele estava totalmente sem esperanças. Não conseguia se relacionar por muito tempo, buscava na internet a solução para a sua timidez — falar com várias o fazia pensar que era um sucesso. Ele quase não marcava encontros, tinha medo do futuro e esperava algum sinal que alguma dessas conversas merecessem ir para frente. Ainda se culpava pelo antigo relacionamento e pela sua incapacidade de se adaptar a um relacionamento a dois. Sua inflexibilidade e autocrítica o desafiava a cada dia. Nessa sessão ele acabara de chorar. Há tempos se questionava o motivo de não acreditar mais em relacionamentos e de fugir quando as coisas pareciam ruins. Quando aparecia uma briga, ele já pensava: isso não vai dar certo. Mas hoje ele descobriu que isso é só uma repetição de comportamento dos homens de sua família. Seu pai também havia desistido de se relacionar com a sua mãe e, de certa forma, também dele. Gustavo amava tanto o pai e queria tanto a sua atenção que, sem perceber, o copiava em seus relacionamentos. Entender isso, agora, o fez desabar. …

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