Será que preciso realmente buscar a mudança?

Eu preciso mudar? A quem é necessário agradar? Qual o padrão que devo me comparar? Quem eu quero me espelhar?

Somos bombardeados pela ideia de mudança: mudança de aparência, de gosto, de determinadas ações e reações, de gestos, de palavras, de relações… Muitas vezes numa tentativa de sermos ainda mais felizes ou de sairmos da tristeza momentânea.


Para iniciarmos, nesse texto quando falo de mudança me refiro a mudança externa, algo que eu faço externamente para dizer que mudei ou obtive consciência internamente.


Mude: vá ao passear no parque, vá ao shopping, saia com amigos, leia um livro, vá no cinema, saia com tal pessoa, vá no salão, compre, coma, beba, viaje, entre outros. Precisamos entender que quando recebemos esse tipo de conselho é porque o outro quer que mudemos a nossa atitude ou sentimento momentâneo: quer que nós animemos, quer que tenhamos descontração, quer que saiamos desse estado atual. E muitas vezes isso é uma ótima opção.

Mas tem momentos que isso não vai passar de uma fuga, de um deixar para lá, de um depois olhar… Vão ser apenas atalhos para fugir de uma dor ou de mais sentimentos e pensamentos internos.

Para evitar esse padrão de fuga, muitas vezes teremos que encarar esse sentimento que nos perturba de perto, teremos que investigá-lo, colocar uma lupa sobre ele.

Para sermos maduros, a simples fuga não é a solução. E quando digo fuga estou me referindo a situações onde queremos nitidamente nos afastar desse sentimento e situações em que queremos buscar algo novo.

O amadurecimento está mais para o “não fugir” dos seus sentimentos do que se tornar alguém diferente.

Se você quer de alguma forma “vencer” esse sentimento, você terá que compreendê-lo. Você terá que estudá-lo, saber de onde ele vem, o motivo pelo qual ele está aqui, que medo ele traz e que condicionamento ele me obriga.

Digo “vencer” um sentimento ou pensamento porque isso não é uma briga, embora possa ter algum conflito. Essa é uma aproximação, uma observação, uma permissão para acontecer e entender. Enquanto você brigar, ele vai resistir (afinal ele não tem nada a perder, só você — ele nem existe?!?)

Perceba que quando está tudo perfeito nada nos perturba, mas quando temos problemas isso já não é uma verdade. É nas dificuldades e nos problemas que podemos melhor visualizar os nossos medos e condicionamentos — logo é a melhor oportunidade de compreendê-los e escolher o que vamos continuar seguindo.

Perceba também que a mudança é apenas um fruto disso. Uma mudança sem consciência e profundidade pode afastar momentaneamente, mas não resolve a situação.

Imagine que você esteja para baixo :((( , que perceba que falta amor próprio em você e simplesmente resolva melhorar o cabelo ou fazer compras. Bem, você promoveu uma mudança. Ela provavelmente vai fazer você se sentir melhor, mas será que isso vai permanecer?

Digo isso porque no primeiro momento essa via de “mudança” pode parecer o caminho mais rápido e certo, mas quando esse sentimento de falta de amor próprio voltar será que vamos continuar achando que a solução está em mudar a aparência?

(pergunte-se isso)

Não seria melhor investigar de uma vez por todas, mesmo que seja doloroso?

Entenda que a mudança por si só pode ser outra busca/fuga se não for de fato profunda e real.

De onde vem esse sentimento? Quando me lembro de tê-lo? Existe algum sentimento de culpa nisso? Que necessidade minha não está sendo atendida?

A ideia é ficar com esse sentimento até que consigamos as respostas e a partir disso trabalharmos a aceitação e não mudança dele.

A mudança nunca será realizada se antes não aceitamos aquele sentimento. Coloque a mudança não como um resultado esperado disso mas sim como apenas uma possibilidade. Não se condicione a mudar, muitas vezes o entendimento vale por qualquer mudança (externa).

O aceitar não pode ser: eu aceito, agora vá embora, mude, “chispa”, suma daqui.
Pense bem, isso não é aceitação.
Aceitação é: tudo bem você estar aqui, eu te compreendo. Faça o que realmente for necessário.
Só em fazer isso já percebemos que aquele sentimento ou pensamento não possui mais espaço em nós. Aí a mudança é apenas

É como uma rua que você sempre passa e que possui um enorme buraco:

O entender que naquela rua tem um buraco, e que você por muitas vezes precisou cair ali, é mais eficaz do que passar todo dia por aquela rua disfarçado de outra pessoa só para não enxergar o buraco.

Na primeira opção, um dia despertamos e tapamos o buraco ( com muita aceitação e compaixão). Já na segunda seguimos tentando “mudar” quem somos ou parecemos para enganar a nós mesmos.

Tá, os outros te enganarem, mas você mesmo se enganar?

Pense nisso

Para mim, uma mudança deliberada, uma mudança compulsória, disciplinar, conformativa, não é absolutamente mudança. Força, influência, alguma nova invenção, propaganda, um medo, um motivo obriga você a mudar — isso não é absolutamente mudança. J. Krishnamurti, The Book of Life

Namaste

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