Educação Feminina

A mulher portugueza precisa apenas que a auxiliem para ser o que é a dos paizes mais adeantados; que a auxiliem; isto é: que a instruam e que a eduquem como ella deve ser instruida e educada, e não como, infelizmente, ella o é entre nós, mesmo aquella que recebe instrução e educação.
Todos nós sabemps que a educação da mulher está inteiramente subordinada ás leis da moda e da galanteria que della fazem, não o que devia ser e era preciso que fosse, mas o que o seu revoltante e absurdo asbitrio decreta que seja: por isso é que ella é ainda puramente decorativa, para armar ao effeito simplesmente, brilhante na apparencia, mas no fundo lamentavelmente vasia e inutil.
Sim, inutil. Pois, realmente, haverá alguma intenção de utilidade nisso que para ahi se ensina ás mulheres: um pouco de francez — e, quando mais abastadas as familias, de inglez e de allemão tambem — musica, vagas noções de historia e de geographia, e a factura desses bordados incriveis, d’um mau gosto que toca as raias do absurdo e do phantastico, capazes de erguer em pé os cabellos a todo o mortal que tenha a mais leve ideia do que seja a esthetica n’este mundo?
Pois bem: as mulheres, umas esquecendo logo, pouco depois de aprendidas e envergonhando as companheiras menos sabedoras com o seu vocabulario estrangeiro que affecta quasi desdenhosamente a ignorancia da prorpia lingua, essas duas especies de mulheres, todas são consequentes a com instrução que receberam: as primeiras, com o seu esquecimento, mostrando a inanidade do que aprenderam; as outras, com o seu pedantismo, o lado prejudicial d’esse ensino: ambas, ou esquecendo ou tornando-se pedantes correspondem plenamente, não tirando da educação recebida nada de util, á absoluta ausencia de qualquer intenção pratica no fornecimento d’essa educação.
E é sobretudo por isto, por ser o alvo unico da sociedade, o fazer brilhar a mulher na sociedade, que eu condemno a educação que se lhe dá, complemento d’essa outra grave sciencia que todas ellas aprendem, — vestir e andar com elegancia, corar, sorrir e baixar os olhos a proposito…
Não é a instrução que desnorteia a mulher, mas a qualidade da instrução, e ainda — e principalmente — a intenção deploravelmente frivola com que lhe é ministrada. Ensine-se a mulher consoante a sua intelligencia, os haveres dos paes e a vida a que se destine; ensine-se-lhe o mais que seja possivel ensinar-lhe: mas, pelo amor de Deus, pouco ou muito, ensine-se simplesmente em vista da utilidade que do seu saber ella pode tirar, enão pela razão absurda e vasia por que agora fazemos — de ser bonito! De ser distincto! — por mero suobismo pois. Infelizmente, a despeito de todos os esforços, ainda por muito tempo a educação da mulher portugueza ha-de ser tudo isto, e nada mais do que isto; bem o sei. Entre nós o Progresso vae ainda acantoado no venerando carro tradicional puxado a bois, sempre teimando á viva força, — com medo, parece, dos descarrilamentos… — em não tomar logar no expresso onde, a todo o vapor, marcham os seus irmãos da Europa, mais valentes e arrojados do que elle.
Beatriz Pinheiro.

Quantos talentos femininos vivem e morrem obscuros, ignorados por falta de estimulos salutares ou por se verem n’um meio que as atrophia.
Claudia de Campos.

A dor ensina muita coisa, sobretudo a adivinhar a alma dos que tambem a soffrem e a sympathisar com elles.
Carlota Brontê.

O ciume d’um namorado é uma homenagem; o de um marido uma offensa.
Rainha da Roumania.

Alma Feminina, nº11–3 de Outubro de 1907