Uberguesia
Primeiro que tudo, cabe-me uma declaração de interesses:
Sou um utilizador frequente de táxis.
Entre motoristas de praça, conto alguns como Amigos, uma vez que, na relação que fomos estabelecendo, sempre houve respeito mútuo, seriedade e franqueza; para já não falar da oferta de conforto e segurança nas viagens ou «corridas».
Dito isto, penso que a polémica dos últimos dias, relativamente à Uber e ao transporte de passageiros, é uma questão burguesa.
Na verdade, num País em que ter carta de condução e automóvel é um sinal de certo estatuto social (igual aos tempos medievais em que bastava ter um cavalo e uma armadura para se ser elevado à categoria de nobre), a necessidade de uma pessoa se locomover, seja em circuito urbano, seja em viagens de longo curso, fazendo uso de motorista, é vista como um defeito, um handicap, que interessa a todo o custo esconder.
Em especial, em meios pequenos: quem anda de táxi, ou vai para consultas e tratamentos hospitalares em grandes cidades (necessitando por isso de um «carro de praça» — o termo mais deprimente), ou é um excêntrico, ou, até mesmo, um tótó.
Pessoalmente, já muitas vezes me perguntaram:
«Então, mas não tem a carta???»,
ao que respondo,
«Tenho, mas não gosto de conduzir».
O olhar de soslaio de muitas dessas pessoas, quando digo que prefiro usar um táxi, é algo curioso; é como se de repente vissem em mim um bom alvo para ser coberto de alcatrão e penas, para, logo depois, me arrastarem até ao pelourinho mais próximo, a fim de aí receber o devido correctivo.
Ou seja, andar de táxi é tido, para muita gente, como uma necessidade pontual, imposta por algum percalço vivido no dia-a-dia e no que à utilização de viatura própria respeita.
Vai daí e bem se sabe o que se sente de seguida:
Pensar ser-se visto num automóvel, em tons de verde-mar e preto — ou até mesmo creme-caramelo (está tudo regulado em portaria) — , com aquele dispositivo luminoso no tejadilho, traz logo uma certa sensação de embaraço.
Ali vai alguém que não é igual aos outros.
«Deve ser rico ou o carai…».
Ora,
Aquilo que sinceramente penso sobre a Uber é que a mesma veio resolver este complexo burguês.
Partindo da circunstância de serem viaturas completamente descaracterizadas, passando pelas gamas e modelos permitidos, chegando até mesmo às próprias cores admissíveis, onde os tons escuros predominam, tudo satisfaz o desejo de se passar despercebido e mesmo, muitas vezes, de se imaginar dentro de uma qualquer limusina, como se de pessoa de outro estrato social se tratasse.
E será esta a questão que os senhores motoristas de táxi talvez ainda não tenham entendido.
As sucessivas manifestações que têm promovido e o crescendo de violência que têm junto à sua contestação apenas virão dar mais razão a quem, já por si, sabe que andar de táxi é algo que foge a determinada regra social estabelecida.
No mais, a conversa alarve de alguns, a pesporrência de outros e a displicência de quase todos — no que toca à sua boa apresentação como às condições mínimas de higiene da viatura que oferecem para prestar o serviço -, apenas promovem este estigma burguês imposto há muito.
Não tenhamos, pois, dúvidas.
Os senhores taxistas terão de perceber que enquanto virem o serviço que prestam como um favor, ainda assim remunerado, a alguns «desvalidos» apeados, sem quaisquer preocupações ao nível do bom gosto e da boa apresentação, não irão a lado nenhum.
No entretanto, a Uber está, e vai ainda ficar mais, na moda.
Porque tem classe. E não há nada mais burguês que isso.