Compaixão e docência

O que budismo tem a nos ensinar sobre as qualidades necessárias para ser um professor?

Uma de minhas histórias preferidas sobre educação vem de um discurso autobiográfico de Sidarta Gautama. Embora tenha sido professor a maior parte de sua vida, o Buda, logo após se iluminar, resistiu a ensinar aos outros as suas descobertas. Conforme o sutra Ariyapariyesana, ele disse a seus discípulos:

Eu pensei: ‘Este Dhamma que eu alcancei é profundo, difícil de ver e difícil de compreender, pacífico e sublime, que não pode ser alcançado através do mero raciocínio, ele é sutil, para ser experimentado pelos sábios. Mas, esta população se delicia com a adesão, está excitada com a adesão, desfruta da adesão. É difícil para uma população como esta ver esta verdade, isto é, a condicionalidade isto/aquilo e a origem dependente. E também é difícil de ver esta verdade, isto é, o cessar de todas as formações, o abandono de todas aquisições, o fim do desejo, desapego, cessação, Nibbana. Se eu fosse ensinar o Dhamma, os outros não me entenderiam e isso seria fatigante, problemático para mim .’

O fundador do budismo teria então permanecido em estado de profunda paz, meditando, até que o próprio Brahma o chamasse à responsabilidade e o incentivasse a ensinar aos outros seres o caminho para a iluminação.

A anedota é interessante porque mostra que até mesmo o Buda, o padrão-ouro de compaixão para toda humanidade, se sentiu num primeiro momento desmotivado pelos desafios do ensino. O Buda, um ser iluminado, capaz de infinita compreensão, onisciente, não acreditou na própria capacidade de comunicação com o outro, de traduzir conceitos difíceis em discursos ou práticas capazes de gerar a mesma experiência espiritual noutras pessoas. Sidarta Gautama deixou seu reino, sua fortuna, sua esposa e seu filho para trás com o objetivo de buscar a sabedoria, mas hesitou frente à perspectiva de tentar ensinar — e Buda contava com uma plateia ansiosa por ensinamentos, ao contrário dos professores atuais, cujos alunos em geral enxergam o colégio ou faculdade como uma espécie de purgatório pelo qual precisam passar para começar a viver de verdade.

A abordagem e os objetivos da pedagogia budistas são muito diferentes dos objetivos e abordagens da pedagogia ocidental contemporânea, mas ainda assim os desafios enfrentados todos os dias pelos professores são os mesmos do Buda. Somente uma pessoa dotada de grande compaixão pelo outro é capaz de mobilizar a confiança necessária para ensinar. Somente uma grande compaixão torna a pessoa capaz de dia após dia, esteja saudável ou doente, com ou sem problemas familiares, endividada ou afortunada, se postar em frente a dezenas de crianças ou jovens adultos e se esforçar para os resgatar das trevas da ignorância.

É claro, mesmo pessoas dotadas de imensa compaixão podem não ser competentes o suficiente para concretizar sua aspiração. No entanto, até estes professores merecem nosso respeito e admiração, pois resolveram, em algum momento anterior, dedicar suas vidas aos outros — muitas vezes, em detrimento de alternativas de trabalho que lhes trariam mais fortuna ou tranquilidade. Essa é uma das carreiras mais exigentes do mundo, então devemos recompensar os professores, no mínimo, com nosso respeito e paciência frente a seus erros.

Outro problema enfrentado pelos professores é a visão equivocada dos alunos sobre seu papel. Muitos estudantes, em especial na universidade, enxergam o docente como uma pessoa cuja obrigação seria oferecer todas as respostas e um roteiro seguro para a vida profissional. Infelizmente, nenhum professor é capaz disso e nem este é o seu papel. O comunicado recente de Dzongsar Khyentse Rinpoche sobre a desgraça de Sogyal Rinpoche oferece algumas ideias interessantes sobre esse tipo de relação entre aluno e professor no Ocidente.

Assim como muitos alunos entram na universidade com uma visão equivocada sobre o papel da instituição e seus docentes, muitos estudantes do Darma entram no caminho vajrayana com uma visão equivocada sobre a natureza dos ensinamentos e o papel do guru. Mesmo quando a universidade ou o guru oferecem explicações ou alertas, a maioria dos alunos prefere não escutar, pois está fascinado pela arte tibetana no templo ou, no caso da universidade, pela solenidade dos prédios ou pela sensação de fazer parte de uma elite, por exemplo. Em ambos os casos, muitos alunos buscam não desenvolver a sabedoria, mas acesso a respostas definitivas e permanentes — isto é, salvação.

Assim, muitos estudantes se voltam contra o professor quando, por algum motivo, ele não se mostra à altura de suas expectativas e projeções. É verdade que muitas instituições de ensino falham, assim como muitos mestres budistas falham, em explicar adequadamente aos alunos suas funções e seus limites. As universidades e colégios privados, em especial, se vendem ao mercado como soluções para a vida dos clientes. No entanto, como nos lembra DKR em seu comunicado, os alunos também são responsáveis pelas expectativas e opiniões que projetam sobre os professores e instituições.

Nenhum mestre budista sério oferece a salvação. Nenhum professor sério oferece respostas definitivas. Mestres e professores que oferecem salvação ou respostas definitivas a seus alunos são movidos pela vaidade, não pela compaixão. Infelizmente, estes costumam ser justamente os mestres mais celebrados pelos estudantes, porque oferecem conforto. Porém, como insistem à exaustão os mestres e textos budistas, conforto não traz sabedoria. Quem se contenta com ensinamentos confortáveis é tão responsável por se tornar vítima de maus professores quanto os próprios maus professores.