Do amor

Bruce Vital
Nov 1 · 3 min read

Hoje me lembrei daquele amor. Aquele que movimentou estradas, pedágios, rodoviárias lotadas, mudança de cidade e, o mais importante, minha vida. Se aos 17 parecia filme adolescente, aos 19 era a certeza de uma series finale. Mas foi aos 24 que decidimos enterrar a história e acabar com as indas-e-vindas, assim como a desculpa da ‘’cerveja do ano’’ para matar a saudade em forma de sacanagem (ou carência ociosa, como costumo dizer).

Hoje, sem querer, ouvi aquela música da Tulipa, Do amor, e voltei no tempo — é muito fácil reabrir uma cicatriz, ainda mais quando a fechamos à força — porque essa era a música que eu gostava de escutar toda vez que eu queria lembrar dele e, também, de lembrar como amar sempre foi parte de mim e de tudo que tínhamos vivido. Mas ele, em especial, foi o menino que me fazia sentir tudo, pegar o primeiro ônibus e sonhar com algo que nunca tive. Voltei para dentro do meu eu aos 19, a caminho do cursinho, ouvindo os versos com meu headphone verde‘’ Quero inventar um você para mim/Vai ser melhor quando te conhecer(…)Vem, vai, vem,mais..’’, aprendendo a fumar os meus primeiros cigarros de verdade e chorando como quem já estava cansado de sentir e não ser sentido. E pensar que tentei essa história por mais uns cinco anos depois disso.

Nosso último encontro foi no começo do ano passado. Usamos a desculpa da ‘’cerveja do ano’’, nos embebedamos de Gin Tônica e terminamos a noite na casa dele, com mais bebidas e carícias. Pela primeira vez eu tive a coragem de dizer que ele tinha sido o ápice da minha vida, que não importava o que fosse acontecer, talvez, nada seria como aquilo. E, pela primeira vez em anos, ele me disse, sem roteiros, Eu Te Amo, tão sutil quanto uma batida de trem, seguido de um beijo, que acalmou todas as borboletas dentro de mim, e promessas de que, agora, aquilo ia engatilhar pra valer.

Decidimos, então, deitar nus e sentir cada átomo do outro. Fizemos tudo de acordo com o protocolo, o coloquei pra dormir e fui para a sacada acender um cigarro. Acendi, coloquei os fones no ouvido e coloquei Do amor pra tocar. Eu sabia que aquela seria a última vez, mesmo ouvindo aquela frase que poderia ter mudado todo o roteiro. Mas eu já estava cansado de algo que parecia uma prolongação romantizada, sem fundamento e fim.

Acordamos, ele me preparou um café e dividiu um cigarro comigo. A noite passada parecia uma coisa distante, soando quase como um arrependimento. Ainda tentei tirar o proveito e testar a veracidade, perguntando se aquilo tinha sido real mesmo. E ele, com toda aquela ressaca que acompanha um arrependimento, disse que sim, mas que precisava se arrumar logo pra um almoço de domingo com os amigos. Chamei um táxi e antes de sair, meio desconsertado, o agradeci pela nossa história.

Dias se passaram, eu já calejado nem esperei nada, entendi que tinha um outro alguém na história — na dele, claro — . Enviei uma mensagem me colocando de canto, mas querendo entender tudo aquilo que tinha sido, porque eu não queria ficar no meio de histórias mal-resolvidas (até porque já bastava a nossa). Em segundos, ele me respondeu dizendo que não tinha espaço pra mim agora. Não por falta de amor, mas por compromisso. Acho que de todas as verdades, ou vontades, ditas, essa foi a mais sincera. Depois de 7 anos de história, eu pude, enfim, seguir, porque eu sabia que não tinha espaço pra mim e pra compromisso comigo. Foi leve e rápido.

O tempo passou, mas hoje lembrei dele, porque, como disse, é fácil reabrir uma cicatriz. Ouvi Tulipa e troquei o choro por sorrisos. Sorri porque sei que ele está bem, assim como eu, seguindo nossas vidas com compromissos que conseguimos assumir. E descobri que ele foi, sim, o ápice da minha vida e que nada vai ser como aquilo.

Enfim,

Obrigado por tudo.

E por ter me feito voltado a escrever depois de anos.

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