Transexualidade: descobertas, comportamentos e a reprodução do Machismo enraizado.

Sempre me fascinou de alguma forma o universo masculino, eu me perguntava o motivo de meu interesse ser Tão diferente dos das meninas da escola. Eu lembro que gostava mesmo era de estar com os meninos no campinho de areia — da Escola Padre Butinhá, Praça Seca, Zona oeste, Rio de Janeiro — onde tinha uma árvore que dava pra subir, ela ficava atrás do gol, numa parte mais alta e descampada, com alguns carros estacionados. É uma boa lembrança, eu gostava de estar entre os meninos, era onde me identificava. Haviam meninas brincando com a gente, mas era diferente, eu demorei a entender que não era um deles.
Mais tarde, pude perceber com a ajuda de muitos processos terapêuticos, o quão profundo esse senso de pertencimento ao mundo masculino tocou minha personalidade.
Apenas há pouco mais de um ano, me entendi Transexual. Me deparei com essa palavra e também com outros TransHomens. E esse entendimento, me libertou de uma prisão em mim mesmo, me libertou de tentar ser o que eu não era, me libertou de mentiras e afirmações.
No primeiro dia da minha atual sessão semanal de terapia, eu fui preparado para dizer meu objetivo ali, e pela primeira vez encara-lo. Sentei e disse:
- "Eu não quero mais mentir."
E sem parecer impactado, ele disse:
- "Sobre o que você mente?"
E ali me dei conta de que sempre inventei histórias, pra mim mesmo. Contar para as pessoas as minhas criações, era um mero detalhe, apenas uma consequência óbvia e pouco inteligente do processo . A pior parte, era que eu vivia as histórias que inventava, pra mim , tudo era real. Eu precisava criar um universo paralelo, onde minhas ações podiam ser pautadas no que eu acreditava serem um kit de ações que em tornariam os homens que eu admirava.
Por me ver mulher no espelho e me sentir homem por dentro, eu tentava não ser eu mesmo, tentava urgentemente fugir de qualquer comportamento que eu entendia como Feminino, pode acreditar: Tentar não ser quem se é, é uma negação terrível de si mesmo; Faz com que péssimas e constrangedoras atitudes sejam tomadas.
Existem muitos porém e questões as quais posso, e pretendo abordar em demais reflexões escritas por aqui. No entanto meu objetivo hoje é falar sobre a consequência clara e imediata, que aconteceu ali logo após a adolescência, quando os namoros começam a ficar um pouco mais sérios e o sexo começa a ser uma realidade cheia de surpresas e quebra de expectativas.
Eu me enrolei muito nos relacionamentos que vivi, pois tentava desesperada e urgentemente impressionar a mim e a quem se relacionava comigo, com comportamentos que não tinham sentido algum, senão dizer: "Eu sou homem! E eu não faço idéia de como isso é possível, mas eu sinto, e sei que sou."
Por azar, eu quis reproduzir dos homens que admirava, um lado masculino enraizado em machismo, em cultura do estupro, em se achar maior por ser homem e sem perceber, cercear e agredir as mulheres que estavam a volta.
Eu usei muita ironia pra me afirmar diante das mulheres e homens com os quais me envolvi, quando deveria ter ficado bem calado, observando e aprendendo as situações, poderia ter gasto tempo e energia agindo conforme sentia e não planejando respostas e ações pra situações que hora ou outro nem tinham ainda se concretizado.
Mesmo quando me relacionei com outros homens, reproduzi na relação um comportamento machista.
Aprendi a não me julgar, a me perdoar por tantos vacilos mas ao mesmo tempo não me isentar, não querer parecer e nem me sentir vítima das situações que criei com comportamentos deturpados. Ao mesmo tempo, acredito que não há como não sermos todos vítimas dos comportamentos cíclicos da sociedade, dos erros cíclicos e dos processos que demoram a se romper. É um processo conturbado esse conflito de gênero, perceber o corpo andrógeno e não se reconhecer nos corpos a volta. Colocar o pé na porta da transexualidade, numa sociedade machista, misógina, enraizada no estupro, e todo o resto é uma desconstrução sem tamanho.
Acontece que uma vez consciente de mim, do meu corpo como ele é, da minha consciência como ela é, posso ser um homem que teve a oportunidade de estar em um corpo feminino, de vivenciar na pele o que muitas mulheres não conseguiriam explicar, e do mesmo modo, tenho a missão e me sinto no dever, de ser um homem que permite as expressoes femininas da alma e que vai além disso:
Sinto que a diferença que tanto quero fazer no mundo pode estar em simplesmente não reproduzir o comportamento do macho alfa.
Ter tido a oportunidade de me perceber mulher, como a sociedade me sugeriu por tantos anos, me trouxe a capacidade de observar as relações e os corpos de forma muito peculiar e o convite que faço é uma reflexão a cerca do papel de cada um na transformação ativa de como lidamos com as relações sociais de gênero em sua forma mais prática e básica.
Há um momento em que nos percebemos humanos, e igualmente frágeis, é quando resolvemos auxiliar a construção dos indivíduos a nossa volta, e não competir.
Escrevi ouvindo — Wilco — Someone to Lose
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