Diante a porta um sonho.

A realização de um sonho.

“Isto é apenas um exercício”

Chegaram ao edifício vencendo a multidão de pedestre embriagados e excitados. Subiram um pequeno lance de escadas e adentraram o prédio. O corredor desaguava em três pequenas salas, passaram direto. Ao final uma porta de madeira pintada de azul com maçaneta metálica. Pararam diante a porta.

Um estava a frente do outro. O que estava atrás falou:

— Marcelo. O que estamos fazendo aqui? falta pouco para o relógio bater e temos que chegar na festa.

— Eu sei. Eu só queria vir aqui antes.

— Aqui? — Perguntou enquanto olhava ao redor. — A onde estamos afinal, o que tem aqui de tão especial? — Checando às horas, concluiu. — Nós temos que ir, você não pode fazer isso depois?

Marcelo olhava para a porta. Punhos fechados, unhas cravadas na palma das mãos.

— Você está me ouvindo?

Confirmou com um leve aceno. Antes que pudesse dizer algo, Marcelo disse:

— Eu sei — olhou o relígio no pulso — nós tempos tempo. Eu só precisava vir aqui antes checar uma coisa, é importante.

— O que é então?

— Essa porta — respondeu, apontando para a porta.

— O que tem ela? — perguntou confuso — é apenas uma porta.

Marcelo balançou a cabeça.

— Vai parecer bobagem.

— Por favor, me diga. — disse impaciente — Você me trouxe até aqui para isso, não é?

Marcelo voltou sua face para ele.

— Você não entende. Eu sonhei com este lugar. Eu sonhei com esta porta. E com você.

— Oh Deus. E você me trouxe aqui para isso? — Comecou a voltar por onde veio. Ao olhar para trás viu Marcelo no mesmo local, de costas para ele. De volta ao seu lado, perguntou: — Afinal, que lugar é este?

Marcelo deu de ombros.

— É importante — ele ponderou. — Não é um sonho comum, é mais do que isso.

— Ok — disse curioso, medindo-o com os olhos. — Já que você nós trouxe aqui, me diga.

— Eu tive este sonho diversas vezes. Não me lembro quando começou. Mas acho que foi neste ano. Ele já aconteceu outras vezes, fica indo e voltando. Ontem eu tive ele de novo.

— E por conta disso você decidiu vir aqui? — perguntou com desdêm.

Ele confirmou.

— Acho que tem um significado — olhou para o amigo. — Sabe. Algumas pessoas dizem que sonhos tem significados.

— Algumas pessoas acreditam em horóscopo — interveio o amigo

— Acredito que sonhei de novo ontem — continuou sem ter notado o comentário do amigo — por conta de um significado, sendo hoje o ultimo dia.

— Por que acha isso?

— Porque eu morro no sonho — respondeu.

Ele voltou a encarar a porta.

O som de suas palavras sumiram e ficaram imersos ao silêncio. A orquestra urbana veio ecoando através do corredor.

Marcelo riu enquanto apertava os dedos da mão.

— Eu sei que é bobagem — retornou — mas é que este sonho vem me atormentando há tempo. Começa assim. Estamos eu e você neste corredor, aqui, diante esta porta. Eu sei que devo adentrá-la, mas tenho essa sensação, esse peso em meu peito, como se eu fosse me afogar. Eu não sei se é dia ou noite. — ele se voltou para o amigo, olhou para adiante dele. — algumas vezes eu tentei retornar, mas era impossível — completou apontando para a porta.

O amigo apenas balançou a cabeça.

— A cada passo é como se o corredor se distanciasse dois. Eu sempre preso no mesmo lugar.

— É comum essa sensação de estar indefeso, preso a algo. Não conseguir fugir.

— Sim — pausa.

— Você conhece este lugar? — perguntou quebrando o silêncio. Marcelo negou. — Às vezes sonhamos com locais que conhecemos, mesmo que não nos lembramos. Você tem certeza?

— Um dia, isso faz algumas semanas, eu fui incumbido de fazer uma entrega. Você pode imaginar o meu espanto quando encontrei este lugar.

— Era aqui?

— Sim.

— E agora estamos aqui.

— Sim.

— Você quer abrir a porta e acabar com este medo, certo? O que está esperando? Abra.

Marcelo levou a mão a maçaneta. Ele pode perceber que esta tremia. Um filete de suor escorria pela nunca, chegando ao colarinho. A mão aperto a maçaneta. Respirou fundo e disse:

— No sonho eu estava aterrorizado com o final da minha vida. Eu estou diante esta porta. Eu estou aterrorizado e você apreensivo. Como deveria ser. — ele riu.

Marcelo se voltou para o amigo, este olhava-o curioso. Podia imaginar o que se passava em sua mente, ele tentava não demonstrar o que estava sentido. Não tentava me assustar mais do que já estava.

— É apenas um sonho, não há alguma ameaça. Eu estou aqui porque você me trouxe aqui. Vamos terminar logo isto para que possamos ir para a virada, sim?

Ele confirmou.

— No sonho eu entro esta porta. Algo me ameaça. Quando eu abro a porta há apenas escuridão, como uma cortina impenetrável. Eu não consigo vê-lo, mas eu sei que tudo continua lá. Você está ai a onde está. Eu olho para você, e você apenas acena. Eu atravesso a porta e — ele parou.

— O que?

— Eu atravesso a porta e sou engolido pela escuridão. Dentro tudo se resume a um ponto, como um átomo. Um ponto de luz envolto pela escuridão. E então se apaga. Eu não sei quanto tempo eu permaneço lá, em meio ao (nada). E quando acordo eu estou apreensivo.

Em reação a expressão do amigo, Marcelo começou a rir.

Ele olha o relógio. Volta-se para ele.

— Eu estou aqui. Você vai abri-la e acabar com isso? É apenas um sonho, nós podemos voltar se você quiser. — Ele começou a andar em direção a saída. Marcelo ficou observando chegar até a porta e sumir. Logo retornou, passos lentos. Trazia um sorriso singelo no rosto. — Vê? E então? Eu estou aqui com você. Decida-se.

Marcelo fez um leve aceno e riu. Sentia-se aliviado e um pouco envergonhado por sua atitude infantil. Lembrou-se de sua infância e como tinha os mais irracionais medos. Era atormentado. E sempre corria para o irmão mais velho, a mãe ou o pai. No final, um belo dia, o pai apenas acendeu a luz e este viu que o homem mau era apenas a arara de roupas.

O tempo passara, aquilo parecia-lhe o mesmo. Mas de um modo diferente. Agora era adulto.

A mão voltou a maçaneta. Apertou-a segura, sentindo o frio do metal. Girou.
A porta se abriu lentamente para um corredor iluminado. Duas portas à esquerda, ao final o elevador. O letreiro luminoso acima anunciava o andar. 
Voltando-se para o amigo, sorriu. Estava envergonhado, mas profundamente aliviado. Sua face não mais levava a palidez. Chegou a suspirar e colocar a mão sobre o peito. Procurava a provação do colega. Olhou para a porta aberta, concertou o corpo e moveu a perna em direção a entrada. O pé repousava a linha do batente.

— Espere— disse o amigo.

Marcelo se voltou para ele. Ambos se olharam. Havia algo no seu rosto; aquela apreensão do sonho.