Esperando Hunter.

Vitor alecrim.
Aug 29, 2017 · 5 min read

Domingo. Setembro 1975

A entrevista era para ter ocorrido há três dias. Mas fui informado de sua ausência assim que cheguei na cidade.

Ele foi caçar — disse a voz ao telefone — mas não tarda a voltar.

Deixei o endereço do hotel e desliguei com a sensação de que não o veria naquele dia. Respondi algumas cartas que trouxe comigo. Enviei telegramas. E pus minha leitura em dia. A manhã correu rápido e já me via com fome.

Passei pela cidade que parecia se resumir a uma única rua. É enfadonha a vida no campo para um rato da cidade grande. Não foi difícil de encontrar um restaurante. A fila de caminhões estacionados indicava ao longe.

A garçonete, enquanto me servia, quis saber de onde eu vinha e o quê fazia:

— Vim entrevistar o senhor Hunter S. Thompson. Você conhece?

— O escritor?

— Sim.

— Todos aqui o conhecem — E deixando um bule de café ela se foi. Com o que de ele era um problema do qual não valeria apena falar.

Quatro. Cinco. Seis copos. E eu estava fora. Acabei encontrando uma pequena livraria local, onde adquirir um novo livro de bolso e algumas revistas. Li na pequena praça enquanto tomava um sorvete. Estava a gostar mais daquela cidade, e de longe parecia que um trovão como Hunter moraria próximo dali.

Na manhã seguinte, nada de Hunter. Passei a manhã lendo o livro e a tarde me encontrei no bar da cidade onde assiste o jogo entre os demais. Era sábado e o local estava cheio. Seis garrafas depois e me peguei jogando dados com moradores locais. Eles conversaram sobre a temporada de patos. Era tempo de caça.

Contei-lhes sobre Hunter e o meu objetivo, cada vez mais distante, de entrevista-lo. Apesar dos risos, de algumas histórias compartilhadas, e do interesse no Raul Duck, as pessoas daquele local, do maior bêbado, evitavam-no. Ele é um animal selvagem.

Acordei cedo no domingo com um telefonema do meu editor.

— Trate de encontra-lo, ou então volte. Preciso de você aqui.

Fiz alguns telefonemas infrutíferos para a casa dos Thompsons. Nada de Hunter. Agradeci pela oportunidade e informei-os que partiria ao raiar do próximo dia.

O resto da manhã foi a recuperação da noite passada. Precisava colocar algo no estômago senão sofreria por todo o dia.

Descobri uma cidade deserta. Nada abre aos domingos. Retornei ao bar, onde, após um hambúrguer, senti-me predisposto o bastante para uma cerveja. Durou até a noite.

Estava deitado em meu quarto quando o telefone enfim tocou.

Antedi.

— Alô ?— disse a voz através do telefone.

A voz estava falha com um barulho ao fundo, música talvez.

— Alô. Quem é? — perguntei enquanto sentava-me sobre a cama e procurava o relógio que marcava 3:30.

— Aqui é Hunter. Você é o filho da puta do jornalista que queria falar comigo?

— Sim. É um prazer. Eu fui enviado pelo jornal…

— A onde você está hospedado?

Passei-lhe o endereço. Ele desligou.

Eu sabia que não tinha muito tempo. Lavei-me e apanhei o gravador. Desci para a entrada do hotel. Não esperei muito e logo ouvi o som que o anunciava. Um motor rasgante desceu a rua. Era Hunter sobre sua moto. Usava uma jaqueta marrom e nenhum capacete. Ele olhou para mim enquanto acendia um cigarro.

O porteiro veio a porta olhar o que estava acontecendo.

— Sobe ai, vamos para a minha casa — ele anunciou com seu modo rápido de falar.

— Mas Hunter.

— O quê?

Ele não parecia embriagado mas a julgar por seu histórico, a esta hora eu não…

— Você vai subir ou não?

— Eu não gosto muito de motocicletas. E você não tem capacete.

— Aqui — Ele disse pulando da moto. Apanhou algo não vi ao certo do compartimento lateral e estendeu para mim. Era uma espécie de panela.

— Isso ai é um capacete de guerra. Vamos, suba ai. Eu andei com os Hells.

— Eu sei.

Subi na moto e Hunter arrancou estrada a dentro. Sem querer agarrei-o na cintura. Enquanto rasgávamos a escuridão eu tentava-lhe persuadir a diminuir a velocidade, gritando ao seu ouvido. De repente ele encostou em meio ao nada.

— Tome isso daqui, vai te acalmar — Disse enquanto me passava um comprimido que retirou do bolso frontal de sua jaqueta.

Sem querer demonstrar fraqueza eu tomei e voltei para a moto. A preocupação a respeito do que eu havia acabado de tomar fez o tempo voar e quando dei por mim estava diante uma pequena cabana.

Hunter me convidou para entrar e momentos depois eu estava sentado em uma poltrona rodeado de animais empalhados, com armas penduradas na parede entre quadros e livros, enquanto ele preparava dois copos com uísque e bastante gelo.

— Esta é minha cabana de caça — explicou enquanto me passava o copo.

Sentamos em silêncio por um momento. Hunter estava sentado sob a luz usando um chapéu de pescador e óculos escuros. Ele me analisava enquanto fumava e bebia. Eu lutava com a euforia e paranoia que crescia dentro de mim.

Havia um urso empilhado próximo ao meu lado e usava uma mascara de Nixon.

— E então o que você queria saber?

— Você estava caçando patos?

— Patos? Você veio até aqui para falar de patos?

— Não. Eu estava me referindo a temporada. Eu te liguei a três dias atrás, sua esposa me disse que você havia saído para caçar. Os caras do bar falaram que estamos na temporada dos patos.

— Ah sim. Ah sim…Você quer?

Ele me passou o cigarro. “Por que diabos não” pensei. Fumei. Era maconha. Me lembrou dos tempos da universidade.

— Não. Fique — indicou com a mão, pois trazia o seu próprio preso à piteira na boca, como de costume— Você é jornalista então.

Ele continuava a me medir. Deve ser vestígios da caça, pensei.

— Sim. Eu tenho que pegar o ônibus as 6. Me esperam na cidade.

— Temos muito tempo. Oh Jesus! — exclamou ao deixar o copo cair, derramando parte do uísque ao chão — que merda!

Hunter se levantou e foi para uma mesa atrás de mim. Ele voltou instantes depois, mais enérgico, com um novo copo em mãos.

— Você caçou isso?

— Não foi um presente. Mas eu cacei o Nixon.

— Que horas são?

— Você gosta de caçar?

Ele não em deixou terminar e correu até a estante de armas voltando com uma espingarda que colocou em minha mãos.

— Essa é boa para caçar patos. Não sobra muito deles depois, mas é divertido de atirar.

— Eu não sou de caçar. Nasci e criado na cidade grande.

— Oh, entendo. Eu na verdade gosto mais de atirar do que caçar. Posso ser um pacifista de certa maneira. Você quer coca?

— Não… Muito obrigado.

Enquanto ele se servia eu perguntei:

— Podemos começar?

— Oh merda. Já não tínhamos começado?

Liguei o gravador.

— Parece que você não dorme há dias.

— Dormir? Dormir é para os sonhadores. Eu cansei de sonhar.

)
Vitor alecrim.

Written by

Sou um escritor e contador de histórias. Para mais dicas e contos, visite o meu blog https://escafandrovermelho.wordpress.com/

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