Quando vem a chuva.

Fastidiosos dias de chuva iguais a este sempre arrastam-me memória adentro até os dias de minha infância, onde a chuva não era um fastio, mas sinal de alegria e vida. Sempre que permitido por minha mãe, ou qualquer outro adulto, eu me atirava sob a chuva; brincando com a lama e as águas caindo das calhas.

Eu punha barquinhos de papel nas correntezas formadas pelas enxurradas e acompanhava-os até que este enfim cedia as águas se desfazendo. Assim seguia os banhos de chuva, sozinho ou acompanhado, até que retornava para casa tremendo e roxo de frio. Então alguém me punha no banheiro e eu tomava um banho morno — o que nunca fez lógica em minha selvagem mente infantil, e ainda não faz (devo admitir) — vestia uma roupa quente e confortável e era posto na sala diante o televisor, como que dizia: “Pronto. Agora fiquei aqui e não nos atrapalhe”.

Mas meus olhos insistentes voltavam-se para a janela donde despontavam grandes e gloriosas, cinzentas, nuvens do lado de fora. Queria apenas retornar para debaixo delas, agora que estava seco e bem agasalhado. Buscar as melhores calhas e suas quedas d’água, as piores correntezas para os meus barquinhos se aventurarem. Se a chuva fosse acompanhada de um dia morno com lapsos de sol, eu apanhava a bicicleta e me juntava as outras crianças, percorrendo a cidade endiabrados como Hells Angles, cruzando uns entre os outros, superando desafiantes poças de lama, resultando apenas os rastros em nossas costas sobre a roupa branca — para o horror de nossas mães.

Cai um toró. E alguém fechou a janela, devido a ventania repentina. Um prato com biscoitos e um suco de limão foram postos à minha frente sobre o tapete. Estou de volta a sala, sozinho. Posso escuta-los falando no outro cômodo, mas a chuva é forte sobre o telhado, sobrando apenas ruídos. Eu desligo a luz deixando a sala em penumbra. Abro a gaveta do rack do televisor e retiro uma fita VHS. Ligo o grande televisor de tubo — me parecia grande na época — e insiro a fita no aparelho cassete logo abaixo; aparelho este sem controle, mas com botões que já manejo com sabedoria. A fita? Dois episódios consecutivos de Jaspion e Giban, cada. A aquela altura já os havia visto inúmeras vezes e conhecia todas as falas. Mas não importava. A cada vez era como novo, um novo universo diante meus olhos.

E então, era só esperar a chuva perdurar para que amanhã eles me deixassem sair outra vez.