Visita a casa do Escorpião.

Sinfonia de um sonho encantador.

Foi ontem que eu tive o mais estranho sonho. Não me lembro ao certo a onde eu estava — talvez fosse a casa dos meus bisavós — mas era uma antiga e adorável casa, de paredes compostas de tijolinhos revestida com uma mistura de areia branca e cimento. A parede era pintada de branco já amarelada pelo tempo. A casa, por assim dizer, me era um único cômodo; certo que constituída de mais partes, porém por toda visita estive em um único lugar. Eu observava tudo durante aquele rápido instante que a nós parece eterno até o momento que antecede o despertar.

Uma grande mesa de pesada madeira estava posta ao canto, cercada por um jogo de cadeiras talhadas com símbolos geométricos que culminavam em aspirais. No centro daquela mesa havia um jarro branco com flores vermelhas e amarelas. Mais a frente, duas enormes janelas compunham a sala, entre uma porta de vitrais azuis. Uma luz amarela e cintilante atravessava a janela, derramando-se sobre a mesa e o jarro e flores. A luz que atravessava a porta era verde, estendia-se até o meio e até a mim, pousando sobre meu colo e pés descalços. Era o sol lá fora. E assim pensei.

— Que curioso quadro — falou ela.

Meus olhos piscaram nervosos para aquela mulher diante de mim. Eu não sabia que ela era, mas era adorável, com seus longos cabelos negros sobre os ombros nus e redondos, os lábios pintados de roxo em um sorriso, e seus negros olhos como torrões, que me olhavam para além, para acima de minha cabeça. Apenas reagi àquele olhar. Na parede oposta as janelas, havia um grande quadro. Apesar de olha-lo era impossível decifra-lo, apenas estava impresso um estudo em vermelho. 
Espere. Eram os seus cabelos ou os lábios vermelhos? 
Voltei os olhos para ela, mas já não estava ali. Ela encontrava-se a diante, na mesa, em companhia de outros.

Sento-me.

Todos bem tratados: as mulheres de vestido longo e belos, desenhado sobre corpos lassos, donde pendiam joias que realçavam a beleza dos corpos sob o brilho da luz amarela. Já os homens estavam de fraque, traziam bigodes, charutos, e comentários e comentários. E eu de pés descalços. A mulher a minha frente sorriu para mim como quem dissesse “não se preocupe, não é nada de mais”. O senhor ao meu lado fez algumas perguntas e algumas mais sobre o destino das ovelhas que estavam lá fora no campo. Todos conversavam.

Percebi que havia um pequeno corredor ao lado do quadro e dele surgiu pessoas trazendo pratos: o de abertura, depois frutos do mar, depois carnes diversas e pastas, mais salgados, doces e sobremesas. Frutas. 
Em determinado momento, quando já embriagados, alguém pôs uma vitrola ao canto e musica começou a tocar. Alguns mantiveram-se sentados enquanto outros dançavam no meio da sala. De tempos em tempos aqueles se iam, entrando em portas na parede oposta à mesa. Iam e voltavam, nem sempre sendo os mesmos. Eles conversavam, mas apesar de compreende-los no instante seguinte não havia mais palavra.

A poltrona estava de volta, diante o quadro, e eu sentei para descansar, pois meus pés estavam cansados de caminhar ao redor da sala, sentar a mesa e levantar e conversar e ensaiar uma dança que não fluía. Quando voltei meus olhos dos pés, eles haviam-se ido. E eu estava outra vez só.

Espere.

Havia um homem ao canto que ajeitava a mesa, retirando os pratos e as flores do jarro, que agora estavam murchas. A luz não mais entrava pela janela. Ele me disse que eu pudesse ficar o quanto quisesse e que os visitantes não tardariam a chegar. Pedi por meus sapatos — pois não posso sair descalço — e ele me indicou que descansasse em algum daqueles tantos quartos, para que a embriagues passasse. Insisti. Ele me apontou com educação que aqueles sempre estiveram ali ao lado. Procurei. Estavam ao lado da poltrona, duas longas botas. Meu rosto corou. Só de olha-las senti o desconforto. Debrucei embriagado sobre meu corpo para coloca-las. Assim que meti o primeiro pé, senti uma pontada. Retirei-o rapidamente, deixando a bota cair. Um pequeno e amarelo escorpião se arrastou para fora da bota. Apanhei a segunda, virando sua boca para o chão e bati em sua sola: caiu um escorpião, outro e mais outro, que ficaram dançando aos meus pés com suas caldas em ameaça. Meu dedão do pé esquerdo estava inchado. Com raiva apanhei a bota fazendo menção de arremessar no pequeno escorpião, foi então que senti algo em minha mão e ao olhar lá estava outro. Fiz um rápido movimento e atirei-o para longe. Senti outro formigamento em minha mão que repousava sobre o braço da poltrona. Mais um. Percebi que estavam sobre toda a poltrona e que escalavam todo meu corpo com suas inúmeras perninhas e caldas em riste me ameaçando… Pulei da poltrona. Era preciso chegar até a porta de entrada. Um escorpião voltou a picar o meu pé, a mão, o braço e pescoço, cotovelo, o outro pé, o pulso. Caí ao chão. Tentei gritar e um entrou em minha boca.

Acordei com um sobressalto. Era o gato que miava em meu ouvido cobrando o seu café da manhã.