O dono do pedaço

E que pedaço! Localizado em área nobre, arborizado, arejado, bem iluminado, transporte público na porta, excelentes restaurantes ao redor. E a vizinhança? Mansões exuberantes, ao estilo neoclássico, com muros enormes. No bairro, executivos de multinacionais e advogados de renome criam suas famílias, a 50 passos de seus respectivos escritórios, ou a 30 segundos de Mercedes.

Eu, mero empregado de um desses escritórios, frequentador assíduo da região em horário comercial, chego de coletivo por uma larga avenida. Sou somente mais um na horda de mão-de-obra que adentra o imponente motor econômico da cidade, todo santo dia. A cada coletivo, uma onda de trabalhadores chega, espremida e exausta, com a missão de crescer a economia do país.

E o dono do pedaço fica lá, olhando aquela multidão, de sua morada. Olhando não, que olhar é coisa de gente à toa. Tomando conta do seu pedaço. De longe, certifica-se de que não pisem em sua grama, de que joguem lixo na lixeira e de que caminhem com pressa — afinal, tempo é dinheiro. E ai de quem encostar na palmeira imperial de seu jardim! Em horários de pico, trabalha duro, com o olhar, para que os ônibus passem rápido pelo ponto, sem causar engarrafamento na frente de sua residência. Austero, ele abre caminho para os furiosos motoboys, com gestos curtos e firmes no ar, à distância.

Ao contrário de mim, ele não é só mais um. Sua presença destoa do resto. É o dono do pedaço. Avisto-o sempre que desço do ônibus, lá pelas nove da manhã, deitado na grama. É seu horário de aproveitar o sol, após o pico de trânsito das 8 horas. Seus cabelos estão sempre despenteados, sua roupa, a mesma do dia anterior, a barba, por fazer há dias. Não tem motivos para se incomodar com nada. Que vida! Enquanto a Metropolis de Fritz Lang toma seus postos de trabalho, ele fica a contemplar o movimento, espantando as pombas que vêm pegar sua comida, dobrando sua cama… Dono do pedaço.

De quando em quando, vejo-o caminhando de um lado ao outro em seu pedaço, com o semblante preocupado e olhar fixo. Cinco passos pra ir, cinco pra voltar. Depois disso, ele sempre sai correndo e pára, após dez metros, para conferir de perto quem está subindo e descendo dos coletivos. Conta, joga olhares, gesticula e volta para o seu pedaço, em silêncio, mas com o astral renovado. Tudo sob controle no ponto de ônibus! Segue a vida.

Nunca soube seu nome e nunca o saberei. Gostaria de lhe perguntar o que ele tanto conversa com a palmeira imperial e do que ri, ou ainda o porquê de aplaudir as nuvens quando chove ou de chorar a cada refeição. Talvez o faça da próxima vez que lhe der as sobras do meu almoço, como bom (?) cristão (?). Talvez não. Acho melhor não.