Golpe ou Renovação?

Para alguns, o dia 17 de Abril de 2016 está marcado como o dia em que a sociedade brasileira se libertou do mal e da bandidagem como "política de Estado". Para outros, esse dia está marcado como um golpe à democracia do país. Em meio a esse maniqueísmo alarmista, eu me reservo no direito de dizer que nem concordo e nem discordo, muito pelo contrário.

Pra começo de conversa, o advento do impeachment não pode ser considerado um golpe, pois está previsto na Constituição Federal. Apesar de ter sido aplicado graças a uma substancial flexibilização do tal "crime de responsabilidade" como conceito jurídico aceitável, seguiu os trâmites necessários. A partir disso é possível dizer que as regras do jogo do poder são viciadas (e poucos discordarão disso), mas impossível dizer que não foram cumpridas.

Do mesmo modo, dizer que o impeachment de Dilma Rouseff traz algum tipo de renovação política é um pleno engodo, já que todos os artistas dessa peça teatral encenada em Brasília permanecem no elenco, mudando apenas o papel. Se trata de uma mudança tão coerente quanto a troca de técnicos de futebol que ocorrem todo ano nos times do país. Muda o treinador, mas o time continua o mesmo e, pior, a diretoria do clube também.

Se existe algum tipo de golpe em toda essa temporada política que se iniciou nas manifestações de 2013 e que hoje se aproxima do season finale, é um golpe em cima da própria população. Golpe do governo, que por motivos eleitorais jamais assumiu que o Titanic brasileiro precisava fazer uma curva para não bater no iceberg da crise. E golpe da oposição, que ciente do perigo, preferiu travar as decisões políticas e deixar o país em rota de colisão, para aumentar o sangramento econômico e facilitar a transição política.

É inegável que o governo atual, com as lambanças dos últimos anos, tornou o mandato de Dilma insustentável, mas mesmo com o sangramento do PT, qual é a real perspectiva de renovação? Nenhuma. Na prática, permaneceremos com os mesmos caciques do PMDB controlando a maioria dos ministérios, qualquer possibilidade de Reforma Política se afogará no mar midiático de alegria pelo fim do governo petista, alguns feudos políticos se fortalecerão para as eleições municipais deste ano e nacionais de 2018… Não bastará mudar as peças sem mudar o jogo.

Por isso, não me iludo nem com o choro dos que gritam que houve golpe e nem com o sorriso de quem acredita que a política do país ficará melhor com um novo governo, pois, na prática, não existe novo governo. A banda da corrupção continuará tocando sua música, como sempre tocou desde o período colonial.

Eu tenho apenas uma única dúvida e ela já existe há alguns anos: depois do PT, que grupo se tornará o vilão da vez quando as mamadeiras dos aliados não estiverem cheias?