Usar neopronome é foda, menine…
AC: exorsexismo, ironia
Desde que decidi usar outra linguagem que não fosse a “masculina”, eu sabia o que me esperava. Ainda assim preferi ser otimista e pensar que como estamos numa época de libertação, de questionamento, onde a diversidade está sendo tão abordada, talvez as pessoas, entre outras concepções, pudessem rever sobre os pronomes e aceitar outros além de ela e ele.
E mais uma vez quebrei a cara, assim como quebrei quando pensei que a comunidade LGBT+ era super unida e se amava, que pessoas trans binárias apoiavam totalmente as pessoas não-binárias, e que pessoas LGBT+ não podem ser reacionárias/odiar a diversidade.
Que tipo de preconceito estou falando aqui? Ah bom, estou falando de um preconceito que a grande maioria nem sabe que existe (e mesmo que soubesse continuaria cagando pra ele); que muita gente rejeita, caçoa ou ignora quando eu e outras pessoas falamos nele; que gente de todo lugar sempre tenta justificar ou relevar. Se chama exorsexismo.
Mas que porra é essa? Exorsexismo, resumidamente, é a discriminação contra pessoas não-binárias. Só isso, né? Nada de mais.
Acontece que dentro do exorsexismo nós temos uma normatividade bem específica que age nas línguas: a ideia de que existem e só podem existir dois pronomes — “masculino” e “feminino”. Não sei vocês, mas acho absurdo uma língua tão rica quanto a nossa não ter considerado um pronome neutro. Mas enfim…
Sim, hoje a pessoa esquisita aqui veio defender uma coisa chamada neolinguagem. Caso não saibam o que é exatamente, e também queriam motivos para usá-la, recomendo que leiam esses textos:
- https://medium.com/@ttextos/em-defesa-de-uma-multiplicidade-de-pronomes-ff226184e99a
- http://umgarotoalternativo.blogspot.com/2018/07/em-defesa-da-neolinguagem.html
Eu sou uma pessoa que usa neopronome, ou seja, um pronome que não é nem ela ou ele. Uso pronome elu. Meus finais de palavra são com e. Sou ume menine esquisite cheie de “ites” e “ides”. Sei que pode parecer piada ou um delírio, principalmente pra quem nunca viu isso. Mas sim, pessoas que não querem usar as duas linguagens impostas existem.
Não, nem todas as pessoas não-binárias usam neopronome. Ser não-binárie não é sinônimo de usar neopronome. Uma grande parte das pessoas não-binárias usa ela, ele, ou ambos. Há também gente não-binária que se posiciona contra a neolinguagem. É uma pena…
A questão é que não respeitar a neolinguagem, sinto lhes dizer (mas nem tanto), é uma forma de exorsexismo. Sim, vocês vão agora mesmo se tornar pós-doutories em línguas e me explicar por que não pode ter mais de dois pronomes, ou por que a língua é “melhor assim”. Ah, não iam fazer isso? Então vocês vão agora me explicar que: devo ter paciência; isso é novidade; as pessoas não entendem; o povo não vai entender; o povo já está acostumado; talvez a próxima geração mude isso.
Legal. Bacana. Supimpa. Porque eu realmente não considero nada disso, né? Porque eu realmente não penso nessas coisas, né? O melhor é que tudo isso que é falado com certeza já foi ouvido por gays, lésbicas, bissexuais, mulheres e homens trans e travestis. Elus com certeza já ouviram que precisam ter paciência com o preconceito e a ignorância, que precisam “aguentar”, que é “difícil” o povo entender o que é ser LGBT, que o preconceito só vai diminuir na próxima década, enfim. Imaginem quantas pessoas adoram ouvir tudo isso. Imaginem vocês ouvindo isso sendo vítimas diárias de um preconceito.
Sim, eu entendo perfeitamente que ninguém na rua vai adivinhar que uso pronome elu. Não estou falando da população geral. Não culpo as pessoas pela ignorância delas. Tenho ciência de que vou sim precisar relevar com muita gente, muita mesmo. A questão é que essa rejeição à neolinguagem, ou mesmo a falta de esforço de tentar compreender o assunto, não é uma mera questão de desconhecimento.
Esse exorsexismo é tão enraizado que acontece até mesmo em situações onde se torna mais absurdo, onde não consigo relevar a suposta ignorância da pessoa, ou sua suposta dificuldade em absorver a ideia da neolinguagem.
Vou contar dois casos específicos:
1- “Nem lendo uma história”
Em abril eu escrevi a história de Nike, uma pessoa gênero-neutro que enfrenta o preconceito no seu cotidiano, num concurso literário. Nike usa pronome elu e final de palavra com e. Deixo claro na história que elu é alguém designade homem e registrade com o nome de Nicolas.
Passei a história inteira respeitando a linguagem de personagem e mostrando o impacto nelu quando não a respeitam. Mandei para uma pessoa na época (um ficante que no fim foi escroto comigo), e pedi sua opinião. Ele avaliou minha história e fez pontuações pertinentes. O único problema? Bom, ele falou de Nike o tempo todo usando linguagem o/ele/o.
Quer dizer, leu uma história inteira de ume não-binárie que usa neolinguagem, e mesmo assim não absorveu a ideia? Isso nem é apenas exorsexismo, é dizer “foda-se” pra minha obra. E podem tentar relevar com ele ao máximo, sei que muites de vocês farão isso. Vocês adoram relevar o que não pesa em vocês. Mas eu não relevo, ainda mais porque eu já estava falando com ele sobre esse tópico há um tempo.
2- “Nem com plaquinha”
No comecinho do mês fui puxar uma roda de conversa sobre pessoas multi (quem se atrai por mais de um gênero) e experiências diversas. Fomos eu e mais três pessoas, uma delas sendo ume amigue que usa pronome eld e final de palavra com e. Antes de tudo tive uma ideia que é utilizada por outro coletivo que conheço e adoro: escrever nossos pronomes em “plaquinhas” e colar no peito. Não havia etiquetas. Mi amigue tirou folhas de seu bloco de notas e colamos todas com dois pedaços de fita crepe.
Tudo bem. As pessoas entenderam o que falei, mostraram gostar da ideia, acataram tranquilamente. Escrevi meu pronome. Mi amigue escreveu o seu; pronome eld. As folhas eram bem grandes e todes podiam ver nossos pronomes lá. Em nossas falas ainda repetimos os pronomes.
Quando a terceira pessoa estava falando chegaram mais algumas pessoas. Acredito que tenham visto as placas e entendido o motivo daquilo. Mesmo assim, quando abrimos para uma conversa livre com o público, uma dessas pessoas me chamou de ele. Não me ofendi, sinceramente. Mas uma das pessoas que já estava lá chamou mi amigue de ela. E eld lida com isso pior que eu. Então, assim, se até com o pronome escrito bem grande isso acontece, então posso presumir que o real problema não é ignorância ou ser algo “novo demais”?
Fim (dos casos, não do exorsexismo, infelizmente).
Isso sem contar que ocasionalmente vem gente interagindo comigo em Twitter e Instagram, mais gente me flertando que conversas casuais, e usam palavras terminadas em o comigo. Eu sei que pelo visto a maioria não é fã de ler a bio das pessoas (e isso explica porque tantes perguntam coisas que estão respondidas na bio) (o que é bem irritante), mas é engraçado a pessoa dizer estar interessada em mim, mas decidiu não ler minhas informações, ou leu e ignorou o pronome elu escrito bonitinho na bio.
Aliás, outro dia uma pessoa de uma ONG que faço parte me contou que “viu uma menina num programa” e que “ela fala igual a mim”. Igual a mim, isto é, com palavras terminadas em e. Então deixa eu ver se entendi: viu uma pessoa que usa neolinguagem no programa (e com certeza deve estar usando o pronome errado, pois chamou a pessoa de “ela”), tem plena consciência de que eu uso essa linguagem, mas… não a utiliza comigo e nem faz o mínimo esforço pra usá-la?
Essa pessoa não foi a primeira que reparou na minha linguagem, fez questão de pontuar isso verbalmente pra mim, e ainda assim não a usa. Nenhum grupo ativista que faço parte respeita minha linguagem, e não mostra o mínimo esforço pra isso, seja virtual ou pessoalmente. Então não importa que eu tenha explicado. O que eu falo não serve de nada. Vindo de grupo ativista acho isso bem mais grave.
“Vamos respeitar a diversidade!!! Mas só aquela que acho válida, tá?”
Mi amigue tem relatos bem mais estressantes que eu, que só reforçam o que estou dizendo até agora: não é simples ignorância!

Na boa, qual desculpa vocês vão me dar pra explicar tudo isso? E qual desculpa vão usar pra não usar minha linguagem (se é que vão se dar a esse luxo, né)?
Eu e mais algumas pouquíssimas pessoas estamos ao máximo tentando trazer esse tópico principalmente dentro dos círculos LGBT+, porque, acredito eu, são os espaços que teoricamente estão mais propensos a ouvir e disseminar a ideia. Mas é difícil, muito difícil. Como falei, existem até pessoas não-binárias que se opõem aos neopronomes. E não adianta muito ter paciência e didática, viu? Tento isso até hoje. Continuarei tentando. Mas é uma merda.
Agora que você sabe sobre esse tema, leu (suponho que tenha lido) os textos que disponibilizei, chegou até o fim desse texto, e ainda assim decidiu que não fará questão de usar a linguagem que a pessoa te pedir, pode usar qualquer desculpa, menos que você é ignorante. Sim, você é exorsexista.
